Insónias

Da quietude inquietante. Uma obra em Lisboa. Abençoada pelo PPD/PSD.

Antes de qualquer veleidade, um cumprimento especial aos seguidores do Blogue Insónias e votos de um Bom ano de 2017 a todos.

O tema de hoje, invariavelmente, terá de recair sobre o enorme estaleiro de obras que a cidade de Lisboa actualmente é. E a fotografia que junto, demonstra um pouco da «visão estratégica» que o seu Presidente da Câmara, Fernando Medina, tem para apresentar à capital. Uma cidade em final de obras, com novas obras em pano de fundo. Em nome de Santa Engrácia. Em ano de centenário das aparições de Fátima. Haja Fé.

Por sorte, num Portugal com uma considerável fé cristã, tem valido aos lisboetas um pouco de São Pedro. Pelo menos até agora. E uma decisiva interpretação jurídica “Para mim a decisão é muito clara e é só uma: entendi que o concurso não deveria avançar”, frisou, acrescentando que é a decisão que “melhor defende o interesse público”, porque está em causa uma obra onde serão investidos 10 milhões de euros.»), assumida pelo próprio Edil para suster as obras – que tanto queria implementar nos cerca de 10 quilómetros – da Segunda-circular.

Vamos por partes.
Regressado de uma curta temporada de pausa na escrita, olho para o País, com especial enfoque sobre a sua capital, neste novo ano e vejo o mesmo de sempre. Se calhar devo, por precaução, consultar um especialista de visão. Ou se calhar é mesmo verdade. O que é certo é que, focando-nos no tema, Lisboa continua de passadeira estendida para uma vitória de Fernando Medina, mesmo com tanta trapalhona perseverança presidencial na afectação gravosa da mobilidade de todos os que se deslocam por Lisboa e em Lisboa. Obras por todo o lado; buracos por todo o lado; estaleiros em qualquer esquina; transportes públicos ineficientes; um chorrilho constante de críticas à liderança municipal e…não se passa nada. Nadinha. Zero. Uma paz, uma quietude, uma calma. O éden na terra. Sorrisos. Palmadinhas nas costas. Abraços. Lindo. Divino mesmo. Até a intersindical, aquela CGTP que convocava manifestações e greves gerais semanalmente – em nome e em defesa dos transportes públicos – de repente, desapareceu. Divino, outra vez. Este pequeno pormenor do sumiço da CGTP, favorece o enorme estaleiro que Lisboa é. Já imaginaram onde seria possível estacionar as centenas de autocarros com que a CGTP patrocinava uma visita à capital? Perdão, facultava para o exercício em liberdade do direito constitucional de manifestação, numa caminhada séria entre o Marquês e a Rua de São Bento? Na Avenida 24 de Julho, seguramente não seria possível. Nem do Campo das Cebolas em diante pela Avenida Infante D.Henrique. Também pouco importa; a intersindical já não encontra um único motivo para manifestação, e logo assim, este exercício de especulação é manifesta perda de tempo.

Não perdendo tempo, preocupa-me, seriamente, o PPD/PSD. Este partido não consegue encontrar (não consegue, ou não quer!) um candidato para Lisboa (pois parece que para o Porto já se decidiu a roubar meia dúzia de votos a Rui Moreira).

A culpa não pode ser exclusiva do seu líder, Pedro Passos Coelho. Pelo contrário: a estrutura partidária é contínua, as lideranças passageiras. Naturalmente. Só desta forma o partido consegue apresentar-se com um contínuo histórico de quatro décadas. Logo, se o partido não se esforça para encontrar uma personalidade para concorrer e ganhar as autárquicas em Lisboa – por sinal a cidade mais importante em termos eleitorais – então o próprio partido necessita de uma urgente refundação interna: ou isto, ou afunda.

Percebo que muitos militantes e simpatizantes estejam em modo «hibernação», à espera. Não saberemos ao certo de quê em concreto; o que é certo é que adoptaram a táctica do «à espera». E à espera, nesta quietude inquietante, os adversários continuam o seu caminho, pródigo em solavancos, mas somando umas quantas vitórias atrás de vitórias. A publicação de sondagens, de forma recorrente, apenas confirma tal estado vegetativo deste actual PPD/PSD.

Causa-me, igualmente, estranheza, a inquietante quietude com que a oposição em Lisboa, em clima de peregrinação, continua de passadeira estendida para Fernando Medina. A oposição gosta de ver o Presidente na televisão, num espaço opinativo próprio semanal; a oposição bate palmas às horas perdidas por lisboetas nas filas de trânsito, às ruas esburacadas, às lojas sem clientes; a oposição venera a doação-em-vida de uma empresa pública de transportes – livre de um gigantesco passivo!que continuará à carga de mais de 10 milhões de portugueses – para usufruto de alguns lisboetas (Sim, porque os descontos ficam para alguns lisboetas e à consideração do senhor presidente. Assim haja tal benfeitoria régia na capital. A Oposição agradece e venera.).

E quando assim é, nunca é necessário estudar o actual problema político da capital à procura de uma qualquer solução. Politicamente hábil e engenhoso, a conquista da Câmara de Lisboa está garantida para Fernando Medina. Este facto, para o PPD/PSD, simplificando a contenda, nem justifica o agendamento do problema. Dá trabalho. Muito. E com tantos em hibernação, já que nos querem incutir o modus vivendi do poupadinho (ah grande PPD/PSD!) mais vale poupar nos esforços e entregar já a vitória de Lisboa a Fernando Medina. Ele merece-a. Tal como o passeio de hoje do senhor presidente patrocinado pelo Diário de notícias o demonstra. Lisboa prestes a ser tomada pelas pessoas. Haja fé. No centenário das aparições de Fátima, e ante a visita do Santo Padre, o passeio do triunfo de Fernando Medina não poderia estar melhor abençoado. Até pelo PPD/PSD.

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