Velho do restelo não sou; mas não acredito em vacas voadoras : Da crise nos transportes públicos de Lisboa à…crise nos transportes públicos de Lisboa.

A decisão de municipalização de uma empresa pública – NACIONAL – de transportes, ficando a dívida consolidada – que até 2016 ronda os 700 milhões de euros!!!- a expensas da generalidade dos portugueses, entregando-se a gestão ao município de Lisboa, é, a menos de um ano de eleições autárquicas, de eriçar os cabelos.  Acredito que até aos fãs mais acérrimos. 

Se no Porto a solução encontrada passou por envolver 6 municípios na gestão dos STCP – o que pelo menos aparenta um maior grau de democraticidade da decisão – em Lisboa, em condições similares de prestação de serviço de transporte público, a gestão da Carris, foi entregue exclusivamente, e só, a Lisboa. Um golpe de risco, como veremos. Conveniente?

Releva da nossa classe política a doce tentação pelo populismo: e, de borlas e borlinhas para caçar mais uns votos até às eleições vai uma curtíssima distância. “As contas fazem-se no fim”, dirão. Mas, o ambicioso, plano de Fernando Medina – tirado a papel químico do plano de António Costa apresentado em 2015 quando este ainda era o Presidente da edilidade e Medina o seu vice – envolve numa delicada teia de conveniências, as próprias pinças que sustentam o acordo das esquerdas de apoio ao actual executivo. Complicado? Nem por isso.

Vejamos.

Facto 1: As empresas de transporte público apresentam-se, sucessiva e ciclicamente, ao longo dos anos, como «uma galinha dos ovos de ouro» do Partido Comunista e da intersindical que o secunda. Paralisando estes transportes, conseguem-se bons números para resultado final de “greves gerais”. Conveniências.

Facto 2: As críticas aos transportes públicos, ineficientes, de Lisboa são constantes. Só por parte de quem os utiliza, claro. Ano após ano, empresa pública boa é aquela que apresenta resultados líquidos negativos consecutivos. Mesmo que, igualmente de forma consecutiva, apresente um serviço público péssimo. Não obstante, quer o PCP quer a CGTP, teimam em defender de forma acérrima este tipo de serviço público, ineficiente. Conveniências.

Facto 3: A gestão pela CML assume um passivo ZERO! Do zero se começará uma “empresa nova”. Da Câmara de Lisboa. Só de Lisboa. E assim, a iniciativa para contratar 220 motoristas e 250 autocarros novos, representando um custo muito considerável – para já, só para a CML – mantém o PCP e a CGTP em estado sorumbático. Estranho? Não há, para ambos, no presente um qualquer motivo para contestar o descalabro dos transportes públicos em Lisboa. No passado bem recente, até o corte de um subsídio para o atavio dos motoristas da Carris serviu de arma de arremesso ao anterior executivo. Conveniências…

Facto 4: Loures, todavia, entendendo a solução política salomónica gizada para o Porto, sente-se marginalizada com a Carris em Lisboa. Câmara do PCP, às portas de Lisboa, acossou ligeiramente a oferta do executivo liderado por António Costa ao seu ex-vice e actual edil de Lisboa. Seria conveniente ao actual executivo tomar em devida atenção este arrufo.

Facto 5: A gestão da Carris, por parte de Lisboa, iniciou-se a 01 de Janeiro de 2017. As borlas para menores de 12 anos e descontos para maiores de 65 anos, representam uma perda de receita. Mas se esta perda de receita – potencial – pode ser contrabalançada com um qualquer instrumento de gestão produzido para tal efeito, noto duas interessantes particularidades. Por um lado, constata-se, facilmente que estes dois grupos, representam, CLARAMENTE, os cidadãos que mais usam viatura própria para se deslocar para Lisboa e em Lisboa(risos!). Por outro lado, se os primeiros, os menores de 12 anos – em razão da idade – não podem votar – ainda que condicionem potencialmente o voto dos seus progenitores; o grupo etário dos segundos representa um grupo considerável de assíduos votantes. Um cheirinho a…não a Lisboa, mas a populismo. Conveniente.

Subjacentes à Carris, como factores negativos a relevar, poderíamos destacar: a má coordenação intermodal; a desarticulação da rede de transportes públicos de Lisboa com os transportes rodoviários das periferias, com milhares de horas perdidas anualmente à espera de transportes de ligação; o preço exorbitante de um passe intermodal obrigatório, mesmo que só precise de utilizar, por exemplo, o Metro; transportes velhos, poluentes, constantemente atrasados e apinhados… No início deste novo ano, para os clientes (sim!), iniciou-se ainda uma modalidade ex novo de imputar-lhes uma necessidade de acesso à internet para…emissão de factura ? Como? A quem convém?

De facto, num país como Portugal, de verbas contingentes, crescimento anual nulo, e emissão constante de dívida para amortizar dívida antiga, este malabarismo político na concessão da exploração de uma rede de transportes públicos – ineficientes até ao momento – com um saldo zero de dívida a um só município – Lisboa, suscita-me as maiores insónias. Não por Lisboa. De longe. Lisboa é só uma cidade entre centenas em Portugal. Mas por Portugal. Portugal não é só Lisboa! Se o malabarismo correr bem, ganhará Lisboa. Se correr mal, por certo que não será só Lisboa a arcar com essa responsabilidade. Veremos…

Aguardo com expectativa as cenas dos próximos episódios. Para resolver a crise dos transportes públicos em Lisboa, esperaria menos conveniências, menos populismo, mais acção decisiva. Espero enganar-me redondamente. Mas, para já, vejo traçado um rumo de crise nos transportes públicos de Lisboa em direcção a uma crise ainda maior. Velho do restelo não sou; mas não acredito em vacas voadoras. Quando o lençol é curto, algo ficará sempre destapado. Veremos como se resolverá…

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6 Comments

  1. Caro Nuno Teixeira Castro:
    Se escolhermos duas personalidades iguais (ou semelhantes) e, a uma, retirarmos as qualidades, deixando incólumes os defeitos, obteremos um Diabo.
    Se, à outra, fizermos o inverso, obteremos um Deus.
    Esta operação (académica) pode ser aplicada às realidades sociais ou organizacionais: por exemplo, às empresas de transportes de Lisboa.
    Uma pergunta: Na solução de privatização do anterior governo da Caranguejola o que acontecia à divida monstruosa da Carris?
    Era perdoada totalmente ao novo concessionário: esquecimento imperdoável do autor do post quando critica a mesma opção em relação ao novo operador - Câmara de Lisboa – de modo a produzir um Diabo; mas fundamental para produzir um Deus (o novo operador privado, frustrado por este governo da Geringonça).
    Por meados dos anos 90, o então ministro Ferreira do Amaral desenhou mais uma sinistra PPP, a do comboio privado da Ponte 25 de Abril, que fazia parte de uma engenharia que englobava a construção da Ponte Vasco da Gama, cuja exploração seria atribuída à Lusoponte, tendo esta participado apenas com um investimento de 23% do capital para a construção. E ficaria ainda com as portagens da Ponte 25 de Abril.
    O negócio foi de tal modo bem engendrado, que Ferreira do Amaral passaria a gestor principal da Lusoponte, aliviado que foi do fardo da governação que tais engenharias financeiras obrigava a fazer.
    A Fertagus, que foi prometido por Ferreira do Amaral, iria aliviar as entradas de carros em Lisboa pela Ponte 25 de Abril, tem-se revelado um fiasco ao longo dos anos:
    - cada vez há mais carros na Ponte 25 de Abril, às 07:00 as filas andam pela Baixa de Corroios ou Estação de Serviço de Foros de Amora, porque o serviço tem-se degradado:
    - A frequência dos comboios manteve-se, pelo que não pôde atrair mais clientes.
    - Não há segurança nos comboios, pelo que, a certas horas e em certos percursos, os roubos sucedem-se.
    - Os comboios não têm casas de banho, apesar de as viagens poderem durar até 1 hora, no caso de Setúbal.
    - A qualidade dos equipamentos internos, a higiene e limpeza dos bancos e estofos e das carruagens, os mostradores informativos luminosos, tudo se tem degradado. E a manutenção corrente, ao contrário da de meia-idade dos comboios, é da responsabilidade da Fertagus. Mas quando se trata da manutenção de meia-vida (atingida agora pelos comboios), essa fica para o malvado Estado, que irá pagar em breve 1,2 mil milhões de euros. Pode ver aqui:
    https://www.publico.pt/2016/08/08/economia/noticia/emef-vai-reparar-comboios-da-fertagus-1740564
    - O sistema de bilhetes eram um caos e uma irracionalidade gritantes (obrigando, por vezes, a comprar 2 bilhetes físicos, cartões VIVA, para fazer uma viagem, quando todas as empresas, públicas da região envolvente (Soflusa, CP, Transtejo, Carris, Metro de Lisboa) já usavam o racional sistema zapping de carregamento de um valor e desconto do valor do bilhete, independentemente do operador.
    Como vê, a superioridade das empresas de transporte público privadas sobre as públicas é inquestionável, especialmente para quem viaja de carro e não as conhece, como deve ser o seu caso.
    Quando queremos, é fácil criar Deuses e Diabos.

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