A esse, rebento-o todo!…

 

 

JoaoSoaresCaricatura02Trrrriiimmmm…

Trrriiimmmm….

Tocava o telefone, ecoando no gabinete, naquele fim de tarde solarento.

Recostado no sofá, espojado, ressonando, rotundo, jazia Solares II, os pés fora dos sapatos, como sempre. Aqueles pezinhos papudos, esbranquiçados e pálidos, sem pelos, sempre tinham sido contra os sapatos, que os apertavam, ditatoriais.

Logo a ele que, nunca por nunca, poderia andar descalço. Nem precisava, porque os bens de família eram extensos, aumentados de geração para geração, muitas vezes favorecidos pelo regime, mas também engrossados, à custa da mina de ouro que era o colégio de família e do longo reinado na política. Diziam as más línguas que muito era devido, também, às ótimas relações mantidas com a fação diamantífera da Angolândia.

Trrrriiiiimmmm…

Trrriiimmmm…continuava o toque, insistente.

E à medida que o toque insistia, a rotunda criatura agitava-se no sofá, na tarde pardacenta.

Um fiozinho de baba escorria, lento e preguiçoso, pela obesa face, de bochechas cada vez mais descaídas, esgueirava-se pelo gordo pescoço, passava as várias pregas de pele e manchava já o colarinho da camisa.

Trriiimmmm….

“Eu rebento-o!”, bradava agora a rotunda criatura, esbracejando, braços no ar, gordos como todo ele.

“Eu a esse rebento-o todo, se não para já com esse raio desse barulho!”

Trrrriiiimmmm…Trrriiimmmm, continuava a máquina, tinindo, incomodando.

“Segurem-me que eu rebento-o de alto a baixo e ao maldito trim…”, esbracejou, uma vez mais, a criatura, agitando ainda mais freneticamente os gordurosos braços, qual Sancho Pança, em infindável peleja contra intermináveis moinhos de vento, como que assim afastando o incomodativo tinido.

Trrriiimmm…Trrriiimmmm, impunha-se o ruído, à rubicunda criatura.

Derrotado, esfregou com as mãos papudas a face, coçou o nariz e arrastou a baba, espalhando-a, sem saber, pela cara toda.

“Ninguém atende o maldito trim?!”, berrou de novo, já autoritário, usando o tom de quem sempre se tinha habituado  a mandar em tudo e todos.

Mas ninguém acorreu…logo a ele, Solares, o II, que tinha sido atirado, até pelas tradições familiares, para a República.

Trrriiimmm…Trrriiimmm, continuava o aparelho, alheio a sestas e a atitudes ditatoriais.

Solares II, já acordado, mal humorado como só ele sabia ficar quando o contrariavam, soergeu-se no sofá.

Eles, os pezinhos da criatura, gorduchos, esfregavam-se entre si, nervosos, em frenesim, como se deles partisse a ordem para que o corpo, gordo e velho, agisse como um todo e recobrasse a energia vigil.

Trrriiimmm….Trriiimmm, insistia a máquina.

“Gaita!”, urrou, levantando-se furioso, alheio à gordura e à idade. Apoiado no sofá calçou, com esforço, um sapato após o outro, acomodando os pezinhos balofos, as artroses, as deceções, as fugas, as omissões, os erros e os joanetes, tudo junto, nos apertados sapatos.

“Porque é que não usas chinelos de quarto no gabinete?!”, tinha-lhe sugerido a mãe um dia, “Já não vais para novo…”

“Jamais!”, tinha gritado, autoritário, com a vozinha quase em tom de barítono, com que ficava, quando perdia o controlo. “Chinelos usam os velhos”, tinha terminado, Solares II, a discussão que se avizinhava, de modo seco e arrogante, como só ele sabia, não abrindo qualquer hipótese de veleidade argumentativa e afastando, determinado, qualquer esboço, por menor que fosse, de discordância.

Andando com dificuldade, aproximou-se do telefone que repousava na secretária e agarrou-o com fúria, como se de um qualquer pescoço servil se tratasse.

“Estou?!”, atirou para o bocal, de modo ríspido. “Quem fala?!”, interrogou.

“Senhor Ministro?…É a Guida!”, respondeu uma voz tremelicante.

“Sim, sou eu…O Ministro! Quem fala?”, contra interrogou, autoritário, ainda que a voz pastosa e pouco percetível lhe fizesse recordar alguém, ainda não identificado.

“É a Guida, Senhor Ministro…a sua Secretária…”

“Diga, Guida. O que é que você quer?”, perguntou Solares, já acordado, enquanto refletia…”O que quer esta? Que maçada!…”

“Oh Senhor Ministro, posso passar uma chamada?…”

“Uma chamada?”, interrogou o outro, tentando ganhar tempo para perceber o que se passava.

“Sim, uma chamada telefónica, Senhor Ministro!”…

“Não, não pode…”retorquiu Solares II, já impaciente

“Oh Senhor Ministro…mas…” articulou a mulher assustada.

“Nem mas, nem meio mas. Já lhe disse. Não passa chamada nenhuma…”

“E que é que eu digo Senhor Ministro? É o…”

“Não me interessa quem seja. Diga…Olhe, diga que o rebento todo?!”

“Como, Senhor Ministro?”, articulou a mulher, cada vez mais aflita.

“Sim. Diga que lhe dou umas bofetadas…Melhor. Diga que o racho. Diga-lhe que o rebento de alto a baixo”, respondeu Solares, com a impaciência a borbulhar.

“Mas…”, ainda tentou alegar a secretária.

“Já disse. Não há mas, nem meio mas. Diga que o racho ao comprido”, dizia o outro enquanto ufano, se entesava, o tronco flácido e rubicundo parecendo querer inflar e agigantar-se começando a desenhar um sorriso sardónico por entre as bochechas descaídas, à medida que se sentia importante.

E, com um gesto seco e brusco, pousou o telefone.

Passadas algumas horas, terminado o expediente, Solares II, Ministro, abriu a porta do gabinete, já com o soturno sobretudo vestido e encaminhou-se, impante, para a porta. Quando se preparava para sair, retornou e dirigiu-se à secretária…

“Chegou a responder, como eu mandei, à chamada telefónica de há bocado?.”, interrogou Solares II, já sorrindo, malicioso, com o evidente temor da funcionária.

“Sim, senhor Ministro”, replicou ela a medo. “Disse tudo o que o Senhor Ministro mandou”…

“Ótimo!”, babou a personagem, em quase euforia, dirigindo-se, de novo, para a saída. Mas, parecendo querer saborear ainda mais a vitória, recuou de novo e dirigiu-se, outra vez à Secretária…

“E qual foi a reação do tipo?”, interrogou, uma vez mais, seboso, com a melena a descair.

“Nada, Senhor Ministro. Fez um silêncio…e depois desligou”, respondeu Guida, cada vez mais nervosa.

“Ah…desligou. Deve ter ficado amedrontado…É assim mesmo. Estes tipos vão ter que perceber quem manda aqui. Aqui quem manda sou eu! Sou eu!”, enquanto gesticulava furibundo e mexia os bracinhos gorduchos…”Bem. Agora vou-me que tenho uma reunião importantíssima daqui a minutos. Mas diga-me uma coisa. Chegou a perceber quem era?”

“Era…era…”, gaguejava a secretária, cada vez mais nervosa e a suar, sem saber onde meter as mãos…

“Era quem, mulher?!”, berrou o outro, sem deixar espaço para fugas.

 

“Era o António”, respondeu a secretária, lívida, mas sem escapatória.

“O António”? interrogou Solares II…”Que António?”

“ O Primeiro…”

 

Manuel Damas

 

PS: Este texto é ficcionado e qualquer identificação com a realidade é exagero…

 

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