Insónias

O traiçoeiro regime angolano

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A coutada pessoal de Ze Du estendeu ontem a bandeira branca ao FMI e pediu aos perigosos tecnocratas de Bretton Woods para viajar até Luanda para ser discutido um plano de assistência financeira com a duração de 3 anos com o objectivo principal de, segundo o governo angolano, criar condições para diversificar a economia daquele país. Neste relatório de Setembro de 2014, o mesmo organismo já tinha identificado os tendões de aquiles da pouco diversificada economia angolana (58% dos bens importados são bens de consumo; esmagadora parte alimentares) para um país que dependeu durante uma década, de forma excessiva, das receitas fiscais resultantes da exportação de petróleo. Ao invés de terem investido na construção infraestrutural de estradas, portos, uma rede de frios que permita desenvolver a indústria alimentar (provendo assim localmente as matérias-primas mais básicas), num programa nacional de alfabetização, qualificação profissional e criação de quadros técnicos, os angolanos compravam tudo feito. E nós, portugueses, não tanto os chineses ou os indianos, beneficiámos da falta de visão de um regime que jamais imaginou o tombo que o preço do petróleo a partir de 2014, facto que obrigou nesse ano e em 2015, o Estado Angolano a fazer inúmeras revisões da sua planificação anual em 2014 e 2015 visto que a descida significativa das commodities energéticas não estava prevista em qualquer excel do Ministério das Finanças.

A tarefa dos emissários que o FMI enviará a Angola na próxima semana não será fácil. Em primeiro lugar, creio que estes terão uma certa resistência no que concerne à pretensão do regime em manter o seu status quo junto dos cidadãos angolanos. A execução de reformas estruturais em vários sectores poderá trazer uma certa liberalização e uma certa globalização ao país que não interessa a quem tenta a todo o custo manter o poder e o monopólio do uso da força. Em segundo, desenganem-se todos aqueles (Ministros das Finanças e da Economia do Governo de Angola incluídos) que um programa de diversificação da economia se construa em 3 anos porque a criação de uma rede rodoviária, da tal rede de frios, de indústrias agro-alimentares com quadros técnicos altamente capazes de a projectar no futuro (relembre-se que a importação de quadros técnicos em Angola era esmagadoramente feita a Portugal), de hubs terrestes, aéreos e portuários que permitam a circulação de produtos num país enorme como é o país angolano, e o seu escoamento logístico para o exterior, demorará no mínimo 10 e necessitará de fundos gigantes que o Estado Angolano teve nos últimos 15 anos mas que desperdiçou devido a um governo oligarca que foi claramente incapaz de pensar para além do seu umbigo e que acreditou que a riqueza petrolífera do país seria o garante do seu futuro. Em terceiro lugar, a alfabetização do povo angolano e a qualificação técnica que será obrigatória para levar a tarefa em diante não interessa claramente ao regime porque irá certamente dar novos horizontes e novos conhecimentos ao povo angolano.

Para finalizar, a diversificação da economia também poderá ser contrária aos interesses que sustentam o regime visto que o regime angolano ainda vive, no plano económico, numa espécie de lei do condicionamento industrial ao estilo de Salazar. Qualquer negócio em Angola que um estrangeiro queira implantar tem que passar obrigatoriamente por uma parceria com um cidadão angolano. São inúmeros os casos dos chamados testa de ferro angolanos, gente que só coloca o seu nome nos investimentos feitos por estrangeiros para beneficiar dos mesmos devido a tal facto. Um grande negócio em Angola dependerá obrigatoriamente da nomeação de uma alta figura do regime, verticalizando a subida do dinheiro às elites angolanas. Se o FMI pegar por aí e começar a reformar a legislação daquele país, aquela elite, extremamente dependente dos negócios que o regime consegue granjear, poderá ser a primeira a virar as costas a José Eduardo dos Santos e seus pares quando o dinheiro já não aparecer a jorros dentro dos seus bolsos como aparecia.

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