Será esta a Comunicação Social que queremos?

SIC Noticias

A pressa de dar notícias em primeira mão leva o jornalista a cometer erros inimagináveis em jornalismo. A pressão vinda da necessidade que os jornais tem em ter vendas e audiências deturpam os principais objectivos da informação, tornando-a um poço inesgotável de sensacionalismo e fantástico.

A era da globalização mudou de forma irremediável e até, creio, irreversível a teoria da comunicação.

Nos últimos 20 anos, o aparecimento das novas ferramentas de comunicação como são os canais informativos que debitam informação 24 horas sobre 24 horas durante 365 dias por ano e as vertentes online dos principais jornais, ferramentas que permitem o acompanhamento do dia-a-dia ao minuto, alteraram por completo os modelos editoriais dos órgãos de comunicação social, levando-os a imprimir uma cadência informativa que por vezes custa ao indivíduo a acompanhar e que gera um efeito contrassensual ao objecto máximo da essência e existência da comunicação social: informar para pensar.

A comunicação perdeu o seu carácter social e passou a ser um produto industrial de massas, podendo-se dizer que em determinadas situações, bem conhecidas dos mais atentos nos últimos tempos, é um produto industrial de consumo rápido, sucedendo-se notícias mediáticas atrás de notícias mediáticas, escândalos atrás de escândalos, revelações atrás de revelações. A própria sustentabilidade dos órgãos de comunicação social dependem exclusivamente deste factor. Aquele que não noticia na hora, aquele que não envia reporters para o local, aquele que se refugia no antigo carácter generalista, perece. No meio deste turbilhão, a comunicação social, alimenta controvérsia e acima de tudo não dá tempo para que o indivíduo exerça aquela que seria pela lógica a sua actividade principal: o pensamento.

Este é precisamente ao estado em que chegámos na Comunicação Social. O receptor da mensagem está completamente alterado. O povo está sedento de sangue. Quer ver tudo ao minuto e não está disposto a abdicar desse direito entretanto instituído. Quer ver “réis” a cair. Os meios de comunicação social satisfazem-lhe essa vontade sádica no imediato porque necessitam de ser vistos para serem viáveis financeiramente. Precisam das audiências para garantirem a sua sustentabilidade. O povo quer mais. Quer que vá até ao osso, quer de certa forma que a comunicação social valorize aspectos negativos de outros seres para alívio próprio das frustrações pessoais de cada um. Quer que a panorâmica lhe mostre realidades piores que a sua. Tudo isto acontece num curto espaço de tempo. No dia seguinte já há outro escândalo a ser noticiado, acabando por matar o escândalo mediático do dia anterior. Passados alguns meses, já ninguém se lembra ao pormenor dos escândalos passados. A não ser que exista um órgão que o relembre e que volte a abrir a ferida.

Este caos informativo, inviabiliza outro dos objectivos que se constitui como essência da comunicação social: a procura pela verdade. O indivíduo é hodiernamente bombardeado com uma ampla gama de prismas e ideologias. Os programas de comentário e debate televisivo ajudam a que o indivíduo acabe por não conseguir filtrar a informação. O indivíduo fica assim num limbo, completamente baralhado e arredado da procura incessante pela verdade, na medida, em que vários são os comentadores televisivos, enviados pelos partidos políticos, que ocultam a verdade e instituem a verdade que mais lhe convém. O que é uma profunda mentira, depois de amplamente contada e divulgada por um desses comentadores, passa a ser uma verdade. Esses comunicadores tem a facilidade de penetrar em absoluto nas mentes populares e toldar-lhe o pensamento. A comunicação social alimenta também, portanto, a partir desta sua nova vertente, uma inexplicável e irracional guerra de facção e as pretensões de poder daqueles que almejam controlar a sociedade.

A Comunicação Social enquanto Instituição deveria efectivamente ser também ela, uma ferramenta que livrasse o indivíduo das angústias da sua vida. Ao contrário deste preceito, a Comunicação Social dos nossos dias não só não cumpre esse papel como o amplia, gerando medo, desconfiança, angústia, nervosismo e passividade junto da sociedade, submetendo-a ao pensamento, aos comportamentos e às acções daqueles que a usam para fins de manutenção de status quo, controlo social ou terror.

Por outro lado, o mais recente exemplo da forma em como, por exemplo o medo resultante do extremo mediatismo de uma acção é capitalizado, é o próprio Estado Islâmico. O medo, a angústia e o nervosismo provocado e mediatizado (pela Comunicação Social) nos recentes atentados terroristas de Paris e Bruxelas são o móbil de que se alimenta o Daesh (e todo o fundamentalismo islâmico de índole terrorista) para continuar a praticar as suas acções. Se a acção levada a cabo em Paris não fosse tão amplamente divulgada pelos média, desde os rostos dos que perpetraram o ataque até aquelas célebres imagens que mostraram a forma em que várias pessoas que estavam dentro do Le Bataclan conseguiram sair pelas traseiras do edifício para escapar ao ataque, sentir-se-ia o Estado Islâmico motivado a voltar a realizar um ataque daquela escala em território europeu como o veio a fazer em Bruxelas? A minha resposta é: não. É precisamente esse mediatismo que garante ao Estado Islâmico a sua própria sobrevivência. A violência gera violência. A violência gera revolta. A revolta interior de um homem gera fundamentalismo e sede de vingança. O fundamentalismo e a sede de vingança gera radicalismo. O radicalismo gera mais violência. A escalada de violência é ela própria patrocinada pelos órgãos de comunicação social.

Será esta a Comunicação Social que queremos?

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