Salvar uma vida, salvando muitas outras vidas

Nunca tive intenção de tornar público este acontecimento que marcará para sempre a minha vida.

No dia 9 de Abril de 2021, uma sexta-feira, durante a manhã, estava a fazer o meu percurso para o trabalho usando a Ponte do Freixo com faço todos os dias.

Neste dia não iria fazer este percurso porque tinha um compromisso agendado fora do Porto porém no dia anterior foi adiado para o dia 13 de Abril atendendo a que a carrinha que faria o transporte de um mobiliário estava a fazer a revisão numa oficina que atrasou a entrega do veículo.

Não acredito que foi por mero acaso que isto aconteceu.

Assim no 9 de Abril, ao início da manhã, ao entrar na ponte do Freixo vejo um veículo imobilizado encostado todo à direita que me chamou atenção e uma pessoa junto ao gradeamento. De imediato abrandei a velocidade tendo imobilizado o meu carro uns metros mais à frente.

O meu primeiro impulso foi dirigir-me a correr para a pessoa mas quando percebi que estava já pendurada do lado de fora das grades tive que ir pé ante pé porque se a pessoa se apercebesse da minha presença poderia concretizar o suicídio.

O ruído dos automóveis a passarem na ponte também me ajudaram a chegar de forma silenciosa junto da pessoa – que logo verifiquei ser uma jovem – o que me permitiu agarrá-la pela cintura de modo a evitar a sua queda.

Não sei quantos segundos ou minutos segurei a jovem mas pareceram horas. Não podia usar o meu telemóvel para contactar o 112 porque os meus dois braços eram poucos para segurar a jovem.

A minha esperança residia que rapidamente outra pessoa que passasse na ponte se apercebesse da situação, parasse e me viesse a ajudar a retirar a jovem do varandim da ponte para depois ser possível ligar para o 112 para solicitar ajuda médica e psicológica.

Entretanto apercebo-me que um camião de transporte de combustíveis começa a abrandar a marcha até que imobiliza o veículo alguns metros à frente do meu automóvel.

Naquele momento não sabia qual era o motivo que tinha feito parar aquele motorista mas rapidamente percebi quando começou a correr na minha direcção que era para me ajudar nesta operação de salvamento da jovem.

E assim foi. Os dois em conjunto conseguimos retirar a jovem do varandim para o “passeio” da ponte do Freixo. Ele ligou para o 112 enquanto eu tentava acalmar a Orquídea (nome fictício) que tremia e chorava muito mas que aos poucos consegui serenar e colocá-la a falar.

Entretanto chegaram o INEM, os Bombeiros Sapadores de Gaia e a Polícia de Segurança Pública da Esquadra de Campanhã que foram rápidos e impecáveis no apoio com a excepção de uma intervenção muito infeliz de um jovem bombeiro de Gaia que é o que menos releva no meio desta história que teve um final feliz.

No momento em que chegou o apoio médico discretamente o motorista do camião disse-me que iria continuar a sua viagem porque tinha o tempo contado para entregar o combustível. Eu disse-lhe para seguir viagem tranquilo porque ficaria a acompanhar a situação até ao seu final.

Não sei o nome deste homem que me ajudou a salvar a vida da Orquídea mas tenho a convicção profunda que é um enorme ser humano. E lá seguiu a sua viagem com a missão do dever cumprido.

A jovem Orquídea mais serena disse-me que estava na ponte há cerca de 10 minutos a tentar o suicídio.

Fiquei surpreso como neste espaço de tempo, em que passaram largas dezenas de veículos na ponte, não houvesse uma pessoa, repito uma pessoa, que tivesse parado em socorro desta jovem.

Em 10 minutos não parou uma pessoa para ajudar a salvar a vida da Orquídea. Mas em 10 minutos, após terem chegado o INEM, os Bombeiros Sapadores de Gaia e a Polícia de Segurança Pública, estavam pendurados na ponte largas dezenas de pessoas a olharem para o rio à procura da desgraça humana e o trânsito completamente entupido na Ponte do Freixo.

Isto revela muito da sociedade profundamente egoísta e doente em que vivemos.

O INEM levou a Orquídea para o Hospital de São João. Na altura estávamos em plena pandemia que me impediu de seguir na ambulância mas dirigi-me no meu carro para o Hospital onde acompanhei a jovem até à triagem onde relatei o que se tinha passado. E fiquei por aqui atendendo a que Orquídea era maior idade e não podia ser acompanhada para o interior da Urgência.

Entretanto falei com a Orquídea que me disse ter sido medicada, que estava melhor e que passaria a ser acompanhada pelo serviço de Psiquiatria do Hospital de São João.

E termino como comecei. Esta situação era apenas do conhecimento da minha família e dos meus amigos mais próximos. Não tinha qualquer intenção de a tornar pública.

Na altura dirigi uma carta ao Presidente das Infraestruturas de Portugal descrevendo em breves palavras a situação que vivi manifestando que o baixo gradeamento existente na ponte do Freixo era muito facilitador para a ocorrência de situações similares à que descrevi mas eventualmente com desfechos bem mais tristes.

Hoje para minha enorme alegria e satisfação verifiquei ao passar na Ponte do Freixo que foi colocado um gradeamento extra (conforme foto minha abaixo) com cerca de dois metros de altura que dificultará em muito outras tentativas de suicídio.

 

 

Não estou a tornar hoje este acontecimento público que já ocorreu há quase cinco meses para me agradecerem. Nada disso. Apenas cumpri com a minha obrigação de cidadão que deve estar sempre disponível para ajudar o seu próximo.

Apenas o tornei público hoje para sensibilizar todas e todos que vale sempre a pena fazer este tipo de exposições às entidades públicas. Umas são acolhidas, outras não, mas este é um bom exemplo que valeu escrever a carta porque esta obra da Infraestruturas de Portugal vai contribuir para salvar, no futuro, muitas vidas na Ponte do Freixo. Não percamos a esperança na humanidade e nos políticos. Ainda existem bons governantes, autarcas, administradores de empresas públicas e funcionários públicos.

Espero que as Infraestruturas de Portugal façam o mesmo noutras pontes onde existe este risco.

Termino com uma palavra de bem-haja ao Presidente das Infraestruturas de Portugal, Sr. Engenheiro António Laranjo.

Paulo Vieira da Silva

Gestor de Empresas / Licenciado em Ciências Sociais – área de Sociologia

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

Gosto(49)Não Gosto(0)

2 Comments

  1. Parabens , pelo seu acto. E sim tem razão ...ja precisei de ajuda por queda em via publica e não tive.

    Gosto(5)Não Gosto(0)
  2. A saúde mental é talvez a doença menos valorizada pelo senso comum e não podemos dizer " desta água não beberei", bem haja!

    Gosto(5)Não Gosto(0)

Deixe Um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.