Insónias

O Reino da Estupidez

 

Tantos sacrifícios impostos aos trabalhadores e pensionistas portugueses e o país ainda se encontra nesta situação financeira: no final de 2015, a dívida pública oficialmente assumida (critério de Maastricht) deverá ter ficado em 128,8% do produto interno bruto (PIB), mas o total da dívida pública oficial portuguesa somada às responsabilidades que existem, mas que são imputadas aos contribuintes através da figura dos passivos contingentes, ascenderá (pasme-se!) a 221% do PIB.

Tanta mentira, tanta dívida escondida e tanta mediocridade política são simplesmente insuportáveis. Não deixa de ser igualmente muito perturbante a cegueira de certos militantes partidários que vivem a política como os adeptos dos clubes de futebol. E assim lá vamos, cantando e rindo, «lavando» e neutralizando pateticamente a corrupção e a mediocridade de uns com a corrupção e mediocridade dos outros. Como se a corrupção e a mediocridade não tivessem sempre o mesmo valor, como se o seu grau de gravidade variasse em função da cor partidária dos prevaricadores. E os tubarões, de que falava Brecht, as elites que puxam os cordelinhos, continuam a passar pacificamente por entre os pingos da chuva com uma impunidade deveras extraordinária. Continuam a encontrar-se em exclusivos clubes privados ou em sociedades secretas, ou discretas, seja lá o que isso for, cuja existência e objectivos são cada vez mais difíceis de justificar em sociedades abertas, livres e democráticas. Ainda se estas elites estivessem verdadeiramente empenhadas em tocar este país para a frente de forma desinteressada… Infelizmente, a história recente contraria esta aspiração. Basta olharmos com olhos de ver para a nossa tão bela quanto desgraçada nesga de terra debruada de mar desde a segunda metade do século XX. Em 1985, Miguel Torga afirmava no seu «Diário» com superlativa lucidez:

«É escusado. Em nenhuma área do comportamento social conseguimos encontrar um denominador comum que nos torne a convivência harmoniosa. Procedemos em todos os planos da vida colectiva como figadais adversários. Guerreamo-nos na política, na literatura, no comércio e na indústria. Onde estão dois portugueses estão dois concorrentes hostis à Presidência da República, à chefia dum partido, à gerência dum banco, ao comando de uma corporação de bombeiros. Não somos capazes de reconhecer no vizinho o talento que nos falta, as virtudes de que carecemos. Diante de cada sucesso alheio ficamos transtornados. E vingamo-nos na sátira, na mordacidade, na maledicência.»

 

É esta paralisadora forma de ser e de estar que tem sido a nossa tragédia. Por que razão não conseguimos libertar-nos desse individualismo bacoco norteado pelo lucro, dessa tendência para ver a realidade a preto e branco, para reduzir o exercício da cidadania e a militância político-partidária ao mesmo fanatismo que norteia o comportamento dos adeptos acéfalos dos clubes de futebol? Curiosamente, os portugueses que vão trabalhar para o estrangeiro sob as ordens de chefes competentes e mobilizadores singram, sendo mesmo considerados trabalhadores exemplares, honestos e responsáveis. Será que o problema está nas pessoas ou na qualidade dos políticos e de certas elites que se têm perpetuado no poder e que se protegem reciprocamente? Enquanto a lógica do cartão partidário e da cunha elitista continuar a sobrepor-se à lógica do mérito, com valores, este país nunca sairá da cepa torta. A prática dos jobs for the boys e a promiscuidade entre a política e os negócios, temas recorrentes de campanhas eleitorais tão inconsequentes quanto bacocas, têm vindo a intensificar-se descaradamente, mesmo após a alegada abertura de certos partidos à participação de cidadãos independentes. Quando é que os partidos terão a coragem de definir de uma vez por todas o que são cargos de nomeação política, que mudam com os governos, e cargos de chefias intermédias, que exigem competências técnicas e cuja estabilidade é fundamental para um funcionamento eficaz dos serviços públicos? O silêncio da esquerda radical, que sustenta o actual governo, em torno desta e de outras matérias fundamentais é verdadeiramente ensurdecedor. Já todos percebemos de facto que as suas prioridades são outras.

 

Com efeito, os muitos acontecimentos absurdos a que temos vindo impotentemente a assistir, incluindo, entre muitos outros, a dispendiosa manutenção de uma estrutura de fachada como a Cresap, que manifestamente não serve para nada, levam a crer que «o reino da estupidez», aceite de forma compassiva e branda pela maioria dos homens cultos portugueses, como dizia acintosamente o estrangeirado Jorge de Sena, está mais vivo do que nunca.

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