Os treinadores de bancada e o cigarro

prof_antonio_araujo1Portugal é um país de fortes tradições. Uma das tradições mais curiosas é a de todos gostarmos de ser “treinador de bancada”. Nada nos dá mais prazer do que podermos assistir a um jogo na bancada de um qualquer estádio ou refastelados nos nossos sofás e criticar o desempenho dos jogadores, a tática do treinador ou o juízo dos árbitros. Todos nós achamos que sabemos mais do que qualquer um deles, que conseguíamos fazer melhor e que obteríamos resultados mais expressivos. Infelizmente, na prática real, tudo isto não passa de uma ilusão que nos dá a sensação de superioridade sobre todos os outros.

Outra das tradições fortemente enraizadas nos portugueses é falar sobre a Saúde e os profissionais de saúde. Grande parte daqueles que falam nunca “viveu” a experiência de trabalhar numa unidade de saúde.

A última das grandes tradições lusitanas que me desperta a curiosidade é a de todos os “opinion makers” conseguirem falar de todos os assuntos, terem opinião formada sobre tudo e serem capazes de criticar, quantas vezes de uma forma leviana e pouco informada, todos os que tentam fazer algo de mais ou de diferente em Portugal.

Estas tradições têm o condão de agradar à grande maioria, de permitirem fazer noticias com facilidade e de se aparecer perante a população com a imagem de grandes pensadores, permitindo a alguns singrarem na política ou na sociedade e aos outros apenas preencher os seus egos. E são cada vez mais os exemplos.

Muito se tem falado sobre o tabaco e, no dia 19 de Outubro, foi apreciada na Assembleia da República a lei que fundamentalmente alarga as proibições do consumo do cigarro de combustão às novas formas de fumar, que inclui o cigarro electrónico. Infelizmente, verificou-se que havia muitas opiniões de deputados que apenas reflectiam a sua iliteracia em saúde e que essa ignorância tinha implicações directas no que aprovam ou não e, consequentemente, na saúde de todos os cidadãos.

A este respeito, li opiniões de arrepiar o comum dos mortais, assumidas por pessoas “influentes” da sociedade – como comparar o cigarro eletrónico a um copo de leite ou o Ministério da Saúde à OMS, por esta ter criticado a Síria por não estar a implementar os programas antitabágicos (como se a situação de Portugal fosse comparável à que, infelizmente, a Síria vive neste momento). Observei comportamentos que, num país civilizado teria obrigado à interrupção dos trabalhos – acedeu-se a que uma deputada da maioria consumisse um cigarro electrónico dentro do hemiciclo.

Ninguém, ainda, sabe dos malefícios, a médio e longo prazo, que o cigarro eletrónico e o de combustão lenta podem provocar na saúde, mas as tabaqueiras, elas mesmo, assumem que não são inócuos. Foi publicado a 06 de Outubro um artigo científico numa revista muito conceituada na área da Medicina, a New England Journal of Medicine, que faz uma análise profunda sobre os efeitos sobre a saúde do consumo do cigarro electrónico e que conclui que são necessários mais estudos para avaliar quão perigosos podem ser, que deve ser proibida a sua venda a menores e que devem ser tomadas iniciativas para desencorajar os não-fumadores de os usar. Um outro artigo publicado no início deste ano num outro jornal reputado, a Lancet Respiratory Medicine, concluía que os cigarros electrónicos não devem ser utilizados como meio para a cessação tabágica.

É um erro pensar que se o fumador inala substâncias perigosas com o cigarro electrónico exalará apenas vapor de água. Assim, o cigarro electrónico é perigoso não só para quem o consome mas também para quem está ao seu lado.

Todos nós temos a obrigação e o dever de entender porque se deve travar a batalha de defesa dos não fumadores e incentivar os fumadores a deixar o vício desta droga. Quem trata ou já tratou um doente com cancro do pulmão ou do pescoço, quem sofre ou já sofreu de uma destas doenças ou quem tem ou já teve um familiar por elas afectado, sabe do que eu estou a falar. Porque esta lei não é contra os fumadores, é uma lei de proteção aos não fumadores. Porque esta lei não é para cercear a liberdade do fumador, serve apenas para zelar pela minha liberdade de não querer que coloquem a minha saúde e a saúde dos meus filhos em perigo.

Porque se trata do meu país e da sociedade da qual faço parte, não querendo insinuar a possibilidade da existência de outros interesses, tentemos ser honestos e estudiosos nas análises que fazemos, porque disso depende o nosso bem-estar e o custo das doenças, neste caso, ligadas ao consumo de todas as formas de fumar. Os senhores deputados têm a obrigação de zelar pela saúde dos cidadãos que vos elegeram e pela prevenção da doença para se poupar nos tratamentos que a doença implica.

António Araújo

Director do Serviço de Oncologia Médica do Centro Hospitalar do Porto

Presidente da Pulmonale – Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão

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