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A história que se repete e que não queremos ver

Daesh executes 32 security forces in central Iraq

Os atentados na Bélgica seguiram-se aos de Paris, que se seguiram aos da Indonésia, da Tunísia, de Madrid, de Londres, de Nova Iorque, e de tantos outros. A frequência e a massificação destes atos levam-nos à óbvia conclusão: anda por aí uma guerra, está em todo lado, é global.

Se vivêssemos nos anos quarenta do século passado, porventura, seriamos mais pragmáticos e chamaríamos a este fenómeno de Guerra Mundial, desta feita, a terceira. Como, no ocidente, gostamos de ser cosmopolitas achamos por bem designar tudo isto de atos de terrorismo, como se o Estado Islâmico fosse a ETA ou o IRA. Como se não houvesse diferença entre independentistas e expansionistas. Como se não dissessem ao que vêm e o que querem.

Temos, no ocidente, medo e pudor de a olhar para as coisas como são. Talvez porque tudo isto põe em causa o nosso estilo de vida, a nossa civilização e sobretudo, a ilusão de que vivemos com progresso e em paz. Mas do lado de lá do Bósforo já avisaram: é guerra, sim, e é santa.

Então, vivemos mesmo em paz?

Sentir-se-ão em paz os bruxelenses e os parisienses, os londrinos e os nova-iorquinos? E os sírios, os iraquianos, os libaneses, os israelitas ou os jordanos. E nós, em Portugal, país tranquilo que, pelas gotas da chuva, escapou da última guerra. O que sentimos quando o Aeroporto da Portela é evacuado, ou quando no metro a polícia acompanha-se de metralhadoras? Haverá, hoje, um Salazar matreiro que negoceie lá com os líderes do Daesh um estatuto de neutralidade?

É guerra, pois é, e que pouca diferença faz esta da última. Está pejada de intolerância, de projetos de domínio absoluto e da nostalgia dos territórios perdidos do passado. Não é terrorismo, é guerra. A tomada do Iraque lembra o Anschluss, a da Síria, a invasão da Polónia. A história, dizem, repete-se.

E repete-se de tal forma que nem faltam todos aqueles que, então, justificavam os atos da Alemanha Nazi com os males e humilhação que as grandes potências lhes impuseram. Hoje, os arautos da compreensão culpam as mesmas potências, o capitalismo, o mundo ocidental, os bairros, os guetos e, já agora, o culpado do costume: a direita. Todos têm culpa, exceto os que fazem a guerra, os que matam e que destroem. Nada de novo, a história repete-se.

Não faltam também todos aqueles que acham que isto vai lá longe, e que, quando acontece perto, acontece a poucos e, sobretudo, aos outros.  Mas tal como então, vai ser apenas uma questão de tempo para que se concretize a profecia de Niemoller e nos venham buscar também. Ou seremos capazes de não permitir que a história se repita? Que Deus (o meu) assim queira.

 

Quando os nazis vieram buscar os comunistas,

eu fiquei em silêncio;

eu não era comunista.

Quando eles prenderam os sociais-democratas,

eu fiquei em silêncio;

eu não era um social-democrata.

Quando eles vieram buscar os sindicalistas,

eu não disse nada;

eu não era um sindicalista.

Quando eles buscaram os judeus,

eu fiquei em silêncio;

eu não era um judeu.

Quando eles me vieram buscar,

já não havia ninguém que pudesse protestar.

 

Martin Niemöller

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