Insónias

Entre gavetas e espelhos

Quem eu sou? Quem somos de verdade? A crise da pós modernidade deflagra se na imagem de um espelho que é sunptuosamente ornado. Com moldura folheada a ouro, reluzente presente ao ponto central de uma sala de estar. Peça magnifica principesca mas que todavia perde se em sua função.

As imagens trazidas por este espelho não refletem mais, são opacas, distorcidas, borradas e a bela peça que orna perde sua serventia. é com tal imagem que anuncio a crise presente a pós modernidade na qual a distorção das imagens afeta nosso imaginário, crenças, valores, ideais, ideologia rompendo a identidade gerando uma crise de valores complexa e complicada a perda de identidade refletindo em uma crise de ego, neurótica instintiva, belicosa, já anunciada por Bauman ou Maffesoli…a crise no sentido de vida da individuação transformado em objeto na materialidade do mundo. Você consegue se olhar nos olhos e se reconhecer no espelho?

A significativa ruptura é facilmente visível diante de um relato de um amigo que flertava com uma conhecida de rede social. Enamorado de suas imagens, tantas eram suas fotos de beldade que ao conhece lá pessoalmente acreditou tratar se de outra pessoa tamanho díspar entre a imagem apresentada nas redes sociais e a imagem real. Uma pessoa duas imagens totalmente diferentes uma real outra virtual. Retoques, foto shop, correção de maquiagem virtual, mudança de cenários, de percepções de vida…tantos entretantos e uma distancia enorme de quem se era em verdade. O outro apresentado no virtual não condizia em nada com o real, o vivo, o do agora. O cenário de uma ilusão agenciada pré fabricada, socialmente aceita nos delírios e manias distorcendo a existência. O desfigura mento gigantesco apresentado por Machado de Assis no conto o espelho em partes traduziria nossa problemática, que reflete nossa necessidade de reconhecimento.

Notório que o rapaz acima citado enamorado das imagens frustrou se diante da mulher real gigantescamente diferente da idealizada pela tecnologia…a mulher produto, vitrine, aparência distante da real de carne e osso…desconcertada diante do outro que questionava quem ela realmente era? Narciso embebecido de seu próprio reflexo, achando feio o que não é espelho…

Hoje em consultório lidamos diariamente com a temática da crise do ego que apresenta dificuldades enormes de percepção para diferenciação entre o real e as ilusões. A sociedade vivência uma crise de ego gigantesca com a ruptura da identidade a exacerbação da Persona – mascaras sociais em detrimento do Ego. Muitas imagens e pouca essência. Muita ilusão e pouca realidade. Elementos que poderiam ser traduzidos como uma psicose coletiva.

A ilusão agenciada, delírios do cotidiano hoje estão nas políticas de estado, os processos legislativos, nos discursos ideológicos, na construção do fanatismo, na economia neo liberal do endividamento por linhas de crédito, em nossa vaidade e orgulho diárias, na teologia da prosperidade, no discurso religioso, nos ciclos de convívio social. O ser imagético descocado de realidade representando uma gaveta sem chaves escancarada cheia de bagunças e misturas, de bocados que unidos não conseguem uma liga estrutural, pedaços, metades, um vão que não consegue ser preenchido.

Vivenciamos uma ampla crise de identidade, de humanidade, de ser onde a Persona destitui o Ego e ignora o Self- o sentido de vida a individuação. As altas crises de ansiedade da atualidade, depressão, tendência suicida fecham o diagnostico de um ser perdido sem bússola que quer chegar todavia sem saber onde. O destino maquiado por agenciamentos discursivos e superficiais cegando os que pouco querem ver ou perceber, mobilizados por instantes e superficialidade. Todavia a crise deflagrada evidente torna se epidemia.

A gaveta bagunçada escandaliza por que os problemas atuais exigem uma mudança de postura, a decantação entre realidade e fantasia – caso contrario : sofrimento. E tratamentos necessários para se conter o caos já instalado.

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