“Dos patrias tengo yo: Cuba y la noche.” (de um poema de José Martí)

havana

 

Aterrei no José Martí ainda Don Fidel Alexandro Castro Ruz reinava sem delfins em Cuba. Na memória, à laia de guias, levava comigo Padura Fuentes, Cabrera Infante, Reinaldo Arenas e – sobretudo – Pedro-Juan Gutiérrez.

Lá cheguei com uma imensa curiosidade sobre aquele país, tornado uma espécie do último dos moicanos do marxismo-leninismo (com ressonância de acentuados laivos de estalinismo), num tempo em que a Perestroika tinha já estilhaçado a União Soviética.

Percorri, durante alguns dias aquela Havana, velha de quase cinco séculos, dividida em bairros, onde o barroco, o neo-clássico, o art-nouveau/deco e o modernismo, e urbanistas e arquitectos tão importantes como Antonelli, Forestier, Mira, Gropius, Neutra e Niemeyer, deixaram espantosos testemunhos, que a passagem do tempo e a falta de meios transformaram em verdadeiras odes à decadência, que só a pena de um Verlaine poderia descrever com a beleza poética que as mesmas merecem.

Naqueles bairros, naquelas ruas, naqueles edifícios arruinados e superlotados encontrei muita e muita gente. Gente que a pobreza em que vivia contrastava com a enorme dignidade, nobreza e cultura que revelavam em cada olhar, gesto ou palavra.

Gente que se sabia em ditadura, com uma resignação estranha que só aqueles que intuem que a liberdade oferecida em contraponto (e mais a norte) é tão carcereira como as prisões de pedra e grades, o podem fazer.

Sabedoria antiga, filha de bruxa galega e de feiticeiro africano.

Por todo lado, naqueles bairros, naquelas ruas, nas paredes daqueles edifícios, elementos da iconografia revolucionária, com Che Guevara a fazer de Nossa Senhora de Fátima do regime, tão convenientemente mudo porque morto.

Lembro-me do vento a fustigar-me com força a cara, caminhando indolentemente pelo Malecón, entre putos e putas, pensando em Kundera e na “insustentável leveza do ser” e também em Malaparte e em “mães apodrecidas”.

Parti de Cuba com uma forte esperança de que no dia em que os Castros já não sejam, a ilha não se transforme num novo Puerto Rico.

Mário Nuno Neves

http://www.telam.com.ar/notas/201301/6020-10-poemas-de-jose-marti.html

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