Insónias

DEVOLVERAM-ME A VIDA DUAS VEZES

Como português, sinto-me na obrigação de partilhar, como sobrevivi a este maldito vírus e ao que ele trouxe de novo à minha vida, até porque a maioria dos portugueses são “massacrados”, nos órgãos de comunicação social, com estatísticas de mortos e infetados, e este vírus é muito mais do que isso.
No dia 12 de Novembro, quinta-feira, estava a almoçar na Vila de Sobrado, com a minha filha, e senti uns arrepios de frio. Desvalorizei, porque era um dia muito frio em Castelo de Paiva.
À noite, já em casa, senti-me muito cansado. Nesse mesmo dia, a minha mulher ao chegar a casa de mais um dia de trabalho, também apresentava alguns sintomas, como a falta de paladar e do olfato.
A conselho médico e porque os sintomas se mantinham, no sábado à tarde deslocamo-nos ao Hospital Privado de Paredes para fazer os referidos testes.
Domingo de manhã, eu e a minha mulher, recebemos por sms a indicação que o teste tinha dado positivo. Na segunda feira foi a minha filha a receber o resultado e também deu positivo, mas ela não apresentava qualquer sintoma.
Depois do dia 14 ao dia 25 de Novembro, estive sempre acompanhado pelo médico, do SNS, responsável pelo acompanhamento de doentes com COVID 19, e os sintomas iam aparecendo ao longo dos dias, primeiro foi a febre, que só houve dois dias que não tive, e são precisas 72 horas para dizermos que a febre passou, depois foi a falta de apetite, o cansaço, o paladar, mialgias e diarreia.
Enfim os sintomas iam-se generalizando, até que na manhã do dia 25 de Novembro, queria caminhar e o ar começava-me a faltar. E foi aqui que, também aconselhado pelo médico, requisitamos uma ambulância à AHBVCP – Associação Humanitária dos Bombeiros de Castelo de Paiva, e levaram-me para o CHEDV – Centro Hospitalar Entre Douro e Vouga (Hospital São Sebastião), e cheguei à urgência do Hospital, em Santa Maria da Feira, perto da hora do almoço.
Mal entrei na urgência, transportado pelo bombeiro Filipe, os médicos de serviço aperceberam-se da gravidade da situação, ainda fiz um TAC, e fui de imediato levado para a UCI – Unidade de Cuidados Intensivos, tendo ficado “ligado às máquinas” e a receber oxigénio. Nesse local, e na mesma posição na cama, fui mantido, três noites.
Entretanto o organismo recuperou os índices normais, e fui depois transferido para a unidade de cuidados intermédios e posteriormente para a enfermaria geral, tendo recebido alta hospitalar, no final do dia 30 de Novembro. Tendo regressado a casa, conduzido pelo meu grande amigo e bombeiro, Mário Fernandes.
No dia 29 de Novembro cumpri todos os critérios da cura do COVID.
Vim a saber mais tarde pelos médicos, que quando entrei nas urgências, foi na hora H, pois só estava com 21% de oxigénio. Aliás o médico que me atendeu na urgência disse-me que se eu chegasse ao hospital umas horas mais tarde, poderia não haver nada a fazer.
Tinham-me devolvido a vida a primeira vez.
No dia 1 de Dezembro, primeiro dia em casa, e após durante o dia ter cumprido todas as orientações médicas, descanso absoluto e caminhar lentamente, no interior da casa, eis que ao final do dia , começo a sentir uma dor no membro inferior esquerdo (junto ao que vulgo se chama canela) e a tosse a aumentar gradualmente.
Após o jantar, fui-me estender um pouco na cama a ver se a dor passava e aí sinto uma dor muito forte na zona do tórax, tendo uma manifesta falta de ar (insuficiência respiratória).
Nessa altura, ligamos para o 112, que enviaram uma ambulância da AHBVCP, que após me terem feito uma análise ao sangue e à respiração, levaram-me por indicação do CODU, para o CHTS – Hospital Padre Américo.
Aqui não posso deixar de louvar, o trabalho notável dos nossos bombeiros e a eficiência dos mesmos, ficarão para sempre na minha memória os dois bombeiros que me trataram inicialmente o Rui Filipe Melo e o Daniel Sousa, foram inexcedíveis.
Chegados à urgência do hospital, em Penafiel, à meia noite e meia, do dia 2 de Dezembro, fui de imediato fazer um TAC, e cerca das duas horas da manhã a médica de serviço comunica-me que eu tinha tido uma trombose venosa, seguida de um enfarte pulmonar.
Passei o resto da noite nas urgências do hospital a ser acompanhado, e ao início da manhã fui colocado na unidade de medicina interna, onde estive até ao dia 10 de Dezembro.
Nos dois primeiros dias, as dores eram muitas e mal conseguia falar, tendo recebido doses de morfina, para as dores, e injeções para tornar o sangue mais líquido, de modo a fazer desaparecer o coágulo que entretanto se tinha formado no final da perna esquerda.
Os portugueses, maioritariamente, desconhecem que o COVID, pode provocar à posterior inúmeras doenças. Uma delas foi a que eu tive, outras, mais ligeiras ou mais fortes, registam-se mais tarde, não esquecendo que pode provocar a morte de um ser humano. Por isso, tenho dito a muita gente, quem testar POSITIVO, e COM SINTOMAS, mesmo sem estar internado, como eu estive, pode ter várias mazelas a seguir.
Os cerca de oito dias que aqui estive internado, foram dias em que também não podia receber visitas da família (mas contrariamente ao primeiro internamento, neste já não estava com COVID) e em que fui sujeito a imensos exames, fiz três TAC’s , muitas análises e exames ao coração.
Fui realmente muito bem acompanhado por toda a equipa médica, de enfermagem e pessoal operacional , e dia após dia ia melhorando, apesar de a dor na perna só ter passado na ante -véspera da minha alta hospitalar e a dor no peito progressivamente também foi desaparecendo.
Quando tive alta, já não apresentava insuficiência respiratória e regressei a casa, cumprindo as orientações médicas, só saindo, até 31 de Dezembro, para as três sessões semanais da fisioterapia pulmonar.
Agora estou muito melhor, também emagreci muito o que veio ajudar à recuperação e à forma como hoje desenvolvo a minha respiração. Caminho entre 30 a 60 minutos por dia, sem qualquer dificuldade.
O facto de TEREM-ME DEVOLVIDO A VIDA DUAS VEZES, foi algo de extraordinário que aconteceu na minha vida e que jamais esquecerei. Já pensei e refleti muito sobre isto tudo.
Eu podia já não estar entre vós. Tive realmente muita sorte. Esta é a minha terceira vida. Agora estou a ser acompanhado pelo serviço de Medicina Interna e de Cirurgia Vascular do Hospital Padre Américo e considero-me feliz por estar de novo com a minha família, estar de novo a viver em Castelo de Paiva e neste País que tanto gosto.
Não conseguindo individualmente agradecer a todos aqueles que directa ou indirectamente procuraram inteirarem-se do evoluir da situação, utilizo esta via para vos agradecer, como estou grato pelas vossas atenções e preocupações, desde o cidadão anónimo, até ao nosso Presidente da Câmara, todos foram incansáveis.
Aqui chegados, e o facto de nunca ter estado internado até Novembro de 2020, não posso deixar de enaltecer a forma como fui tratado pelos profissionais do nosso SNS- SERVIÇO NACIONAL DE SAUDE, quer no CHDV-Santa Maria da Feira, quer no CHTS-Penafiel, simplesmente nada a apontar. Serviço de excelência.
Por tudo isto, peço-vos se vos for possível não saiam de casa, não ser para o que for obrigatório, ou como eu, que tenho diariamente de fazer a minha caminhada de manutenção e de prevenção.
Um abraço para todos e muita saúde.

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