Insónias

Breve análise à jornada da Liga Europa

 

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Inicio naturalmente esta crónica pelo momento arrepiante vivido ontem na Vestfália Arena (rebaptizada desde há uns anos para cá, por motivos de branding, como Signal Iduna Park) nos minutos que antecederam o início da partida entre o Borussia de Dortmund e o Liverpool. Os dois históricos do futebol europeu partilham, em conjunto com um terceiro, o Celtic de Glasgow, o mesmo hino, o icónico “You´ll Never Walk Alone”, tema cujo original, datado de 1945 pertence aos compositores britânicos Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, apesar de já ter sido multiplamente re-inventado por intérpretes e compositores como Frank Sinatra, Mario Lanza ou o rei do Rock´n´Roll Elvis Presley. Neste pequeno excerto, a música e o futebol provaram ser mais uma vez elementos que conseguem agregar nações, povos, culturas e tradições muitas vezes desavindas como é o caso da inglesa e da alemã, nações nascidas do mesmo berço, cuja rivalidade é sobejamente conhecida e narrada pela história, inclusive no futebol, modalidade na qual um dia, um internacional inglês de nome Gary Lineker afirmou que “o futebol é onze contra o onze mas no final quem vence é sempre a Alemanha”

Não foi o caso na Vestefália no regresso de Klopp a casa. Num ambiente em polvorosa, os adeptos do Dortmund catapultaram a sua equipa para uma agradável exibição, numa partida de especial cartaz e carácter para os dois treinadores: no seu “meio-ano 0 em Liverpool”, Kloppo, alcunha pela qual ficou carinhosamente apelidado pelos eufóricos adeptos do conhecido clube da Renânia do Norte-Vestefália, vê na Liga Europa a possibilidade do seu Liverpool (actual 9º classificado da Liga Inglesa, com pouquíssimas ou nenhumas hipóteses de se qualificar para as competições europeias da próxima temporada) regressar à Liga dos Campeões na próxima temporada, temporada que já foi assumida pelo treinador do clube inglês e pela administração deste como um ano que terá que ser disputado a doer, ou seja, para quebrar a maldição do título inglês (26 anos sem vencê-lo) e voltar a projectar o colosso do Noroeste de Inglaterra tanto no futebol inglês como no futebol europeu. Do outro lado da barrica, Thomas Tuckel, cavalheiro de rigor, homem de poucas falas mas de outra suavidade que Klopp não dispõe (Klopp é conhecido pelos seus nervos à flor da pele e pela disciplina que incute em todas as equipas que orienta) está apostado em levar novamente o Borussia à glória europeia, numa altura da temporada em que, faltando 6 jornadas para o fim da Bundesliga, ainda não se pode descartar a possibilidade do Borussia não vencer a Liga Alemã dada a diferença de 5 pontos para um Bayern em queda.

15 anos depois do último encontro entre estas duas históricas do cenário futebolístico europeu, precisamente num jogo a contar para a Liga dos Campeões (numa fase-de-grupos que contava com o nosso Boavistão), o jogo prometia, para além de fechado (um treinador com pleno conhecimento da equipa adversária; 11 jogadores com pleno conhecimento dos modelos de jogo do seu antigo treinador) pode-se dizer que o domínio (territorial, posse de bola) pertenceu sumariamente ao Borussia de Dortmund, equipa que teve de alterar constantemente a sua disposição em campo durante os 90 minutos para contrariar a agressividade britânica e a apetência que os Reds demonstraram para criar perigo no contra-ataque.

Com algumas ausências de peso para esta partida devido a lesão (o patrão do meio-campo dos alemães Ilkay Gundongan, o central Neven Subotic, Adrian Ramos) Thomas Tuckel decidiu improvisar no onze inicial com a entrada de Sven Bender para a posição de central, ele que costuma jogar a trinco à frente da defesa, deixando dois centrais de raiz (Matthias Ginter e Sokratis) no banco de suplentes e com a colocação do canhoto Erik Durm (lateral esquerdo) na direita do ataque, numa tentativa de criar desequilíbrios para o jogo interior e fazer com que o internacional alemão libertasse e ao mesmo tempo apoiasse as rápidas cavalgadas que o criativo armeno Mkhatarian empresta ao futebol dos germânicos. Já Klopp apresentou um onze quase na máxima força, fazendo apenas uma alteração táctica em relação ao onze base da sua equipa com a entrada do belga Divock Origi para o lugar do habitual titular Roberto Firmino no 4x3x3 aberto que o alemão tem vindo a trabalhar. Entre Origi e Firmino poucas diferenças existem. Muito móveis e com uma técnica individual acima da média, tanto o belga como o brasileiro (antigo jogador do Hoffenheim da Bundesliga) são exímios rematadores e são avançados que abrem muito espaço para os homens da linha média finalizar, sabendo por exemplo que uma das jogadas predilectas deste Liverpool é por exemplo, colocar a bola em Firmino\Origi à entrada da área para estes de costas para a baliza prenderem os centrais e tocarem para trás para a finalização de meia distância de Phillipe Coutinho, Milner ou Jordan Henderson. Por falar em Jordan Henderson, cada vez mais confirmo que o inglês é claramente o sucessor de Gerard na liderança do clube inglês.

A primeira parte pertenceu por completo aos alemães. Com um futebol esteticamente vistoso de construção mista (o médio centro Julian Weigl é um astro a colocar bolas à distância; já Gonzalo Castro e Mkhytaryan são dois médios que privilegiam o passe curto em velocidade e o flanqueamento para as alas; na esquerda Réus e Schmelzer fazem muitos overlapings; na direita, Piszczek e Durm não foram ofensivos porque costumam ter a companhia do ponta-de-lança Aubemeyang nos seus movimentos de circulação para as alas de forma a estender o jogo ofensivo da equipa e arrastar o central que o marca) o Dortmund enfrentou um Liverpool de bloco médio, se assim entendamos, com uma pressão bastante acutilante na zona média para não permitir a construção essencialmente realizada por Castro e Mkhytarian. Os alemães tentaram de tudo. Tentaram a construção encadeada de jogadas pelos flancos em toque curto, tentaram surpreender a equipa inglesa através das aberturas sensacionais que Weigl colocava do meio-campo para os flancos, tentaram o jogo em profundidade para as verticais desmarcações de Aubemeyang (7 golos nesta edição da Liga Europa) mas nenhuma destas soluções de jogo resultou no primeiro tempo, apesar do Dortmund ter ameaçado, em particular, numa fantástica jogada iniciada nos pés de Weigl na qual este lançou Réus nas costas de Clyne (o possante lateral inglês não deu um palmo de espaço ao craque alemão durante toda a partida; exibição muito apagada do internacional pela Mannschaft; exibição defensiva exemplar do quarteto defensivo britânico em especial para a exibição soberba dos dois centrais do Liverpool, o croata Dejan Lovren e o francês Sakho, dois jogadores que tiveram um posicionamento perfeito ao longo dos 90 minutos, dando em várias ocasiões o corpo ao manifesto para afastar o perigo da baliza de Mignolet; na verdade, anularam dois golos feitinhos aos alemães no primeiro tempo) para a assistência perfeita deste para o remate de Mkhytarian contra Sakho. Como quem não marca, sofre…

Contra a corrente do jogo, o tímido Liverpool, confinado a uma organização defensiva exigida decerto por Klopp, aproveitou os 10 minutos finais da 1ª parte para avançar no terreno e inaugurar o marcador por intermédio de Divock Origi numa das jogadas mais simples da partida, a fazer lembrar os velhinhos tempos do “Kick and Rush” britânico, lendário estilo de jogo desenvolvido pelo futebol inglês até à continentalização promovida por técnicos como Wènger nos quais a bola passava mais tempo no ar do que no solo. Num pontapé de baliza, Milner penteou a bola para as costas dos centrais alemães, colocando Origi em posição privilegiada para inaugurar o marcador. Até aquele lance, o posicionamento dos centrais (Hummels e Bender) não estava a ser o melhor, sendo facilmente arrastados pelas movimentações do avançado Belga para o flanco esquerdo. Convém também referir que na ponta final da primeira parte, Klopp pôs em marcha o habitual swap entre elementos do meio-campo. O alemão Emre Can pautou-se como habitualmente como o principal construtor de jogo em zonas atrasadas, atrás de uma linha que está em constantes movimentações e trocas posicionais para baralhar a pressão adversária, pululando portanto Coutinho, Henderson, Milner e Lallana entre as 4 posições à frente de Can. Foi frequente ao longo da partida ver James Milner a ajudar Henderson a lidar com a velocidade que Gonzalo Castro tentava incutir na 1ª fase de construção dos germânicos.

Até ao final da primeira parte destaque para um desarme providencial de Lovren a remate dentro da área de Aubemeyang e a uma corajosa defesa de Mignolet sobre a linha de golo a remate de Réus, levando o Liverpool em vantagem para o intervalo.

Apesar de ter saído a vencer, Klopp não terá decerto gostado do que viu (alguma falta de interligação entre a defesa e o ataque por inoperância de Henderson) fazendo entrar Joe Allen para o meio-campo para o lugar do internacional inglês. O talentoso médio galês conseguiu colocar mais velocidade e apoio nas transições dos Reds para o ataque no 2º tempo, mesmo apesar do Borussia ter entrado novamente a matar e ter obtido o golo do empate aos 48″ pelo elegante capitão Mats Hummels. A partir desse momento, o Borussia tentou encostar o Liverpool aos seus últimos 30 metros mas os reds conseguiram sempre defender o seu reduto e sair em rápidas transições no contragolpe, armadas essencialmente por Milner ou Allen com o propósito de permitir aos laterais (Moreno; mais uma vez fez a ala sozinho; está a tornar-se um caso sério em Liverpool; Clyne; com as suas famosas inflexões da direita para o centro à procura daquele nicho para rematar de fora-da-área).

Reapareceu Weidenfeller.

Em três lances. O primeiro a negar o 2º da partida a Origi numa mancha cheia de estilo, ainda durante o primeiro tempo. Os outros dois com duas defesas gigantescas a dois remates: o primeiro de Coutinho depois de uma jogada de estética superior na qual Origi foi à linha cruzar para a área, Joe Allen tocou para trás permitindo a Lallana executar o trick do dia para imobilizar a defesa do Dortmund e permitir linha de tiro a Coutinho como o brasileiro tanto gosta e a segunda num poderoso remate cruzado de Clyne da meia-direita na qual este internacional alemão, guarda-redes de imenso talento mas manifesto azar (poderia ter sido um guarda-redes de geração na selecção alemã e não o foi porque esta gerou entretanto o monstro que é Manuel Neuer) defender para o lado com estilo. Aos 35, Weidenfeller mostrou que apesar de ter perdido a titularidade para o suiço Roman Burki, continua a ter uns reflexos de aço entre os postes.

Ao mesmo tempo que Dortmund e Liverpool levavam a discussão para o Inferno de Anfield:

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