Crónicas Desportivas (1) – O dia em que o Benfica brilhou em Munique

Nota introdutória: Sportinguista de coração desde 1987, tentarei iniciar aqui um duradouro e multidisciplinar ciclo de crónicas desportivas, visando para o efeito ser o mais isento possível na minha análise. Estando à vontade para responder a qualquer pergunta dos leitores do Insónias, garanto aqui a possibilidade de partilha de ideias ou respostas a perguntas através do email [email protected]

Não haja sombra para dúvidas: o Benfica surpreendeu Munique. Não sendo a expansiva (e individualizada) equipa que costuma ser no plano doméstico, pelas vicissitudes da necessidade de levar a eliminatória para o jogo da 2ª mão na Luz, a equipa de Rui Vitória não só conseguiu ter uma actuação extremamente positiva no plano defensivo como surpreendeu os Bávaros em 2 ou 3 situações no capítulo ofensivo.

O Benfica surpreendeu Munique. Pela postura exímia defensiva que manteve ao longo dos 90 minutos, pautada por uma enorme entreajuda defensiva entre unidades, pecando apenas num ou noutro aspecto (no lance do golo, logo aos 2″ por intermédio de Arturo Vidal; o chileno apareceu em 3 ocasiões em zonas de finalização em momentos do jogo nos quais os avançados do Bayern saíram fora da área para participar na construção de jogo dos bávaros). Pela fantástica cortina defensiva vasculante e pressionante a meio-campo perante uma equipa do Bayern que não só nunca conseguiu colocar muita velocidade nas transições como limitou-se a explorar apenas o espaço livre dado pelos laterais do Benfica nas alas, aquando precisamente das variações de flanco a flanco. Pela sólida exibição de Éderson, homem que evitou em 3 ocasiões males maiores. E sobretudo pelo bom momento físico pelo qual passa a equipa de Rui Vitória.

Guardiola tinha razão, quando, questionado na conferência de antevisão do jogo por um jornalista alemão sobre qual seria a sua estratégia perante um “defensivo Benfica” que o Benfica não era nada defensivo e não tinha ideias sequer de ir a Munique defender porque era “na sua opinião” (ironizando o jornalista com a pergunta “quantas vezes viste o Benfica jogar”) uma equipa que defende alto. Rui Vitória não alterou nada na forma em como o Benfica defende contra equipas que joguem tendencialmente através de ataque organizado, fazendo subindo as linhas defensivas. Foi precisamente assim que o Benfica tentou entrar na Allianz Arena: com um bloco defensivo subido, “a 20 metros” da área, pressionante e cheio de expectativa de recuperar a bola aos jogadores bávaros a meio-campo para sair em rápidas transições de contra-ataque, concretizadas no primeiro tempo essencialmente pelo flanco esquerdo, flanco onde Nico Gaitán, no pico da sua perícia, fez um par de arrancadas que geraram perigo junto da baliza de Neuer.

O Bayern haveria de marcar cedo numa dos raros lances de futebol de envolvência colectiva no qual Juan Bernat, o rápido lateral esquerdo (um dos raros jogadores da equipa de Guardiola que conseguiu carregar o colectivo germânico para a frente em alta velocidade) abriu uma linha de passe exterior para Ribery, permitindo ao francês (já não é o jogador explosivo de outros tempos, tendo ganho apenas 1 duelo individual no 1×1 contra André Almeida num lance na 2ª parte no qual o francês concluiu com um remate potente para defesa apertada de Éderson) jogar entre linhas para Lewandowski à entrada da área. Sem hipótese de entrar na área com a bola controlada, o polaco decidiu procurar Bernat que assistiu de forma magistral a entrada de Vidal no espaço aberto entre Jardel e Eliseu para marcar o único da partida.

Os primeiros 15 minutos de jogo ameaçavam um Bayern agressivo e capaz de massacrar. Com rapidíssimas trocas de bola a meio-campo e com variações constantes de jogo para os seus extremos, os bávaros conseguiam rapidamente criar situações propícias a Ribery e Douglas Costa para colocar em marcha os seus poderosos e desequilibrantes dribles, que, para infelicidade do brasileiro e do francês e do brasileiro, não entraram na partida e, portanto, não causaram perigo de maior. Se o francês retratou de forma grotesca o “rocócó” francês no relvado de Munique com fintinhas atrás de fintinhas sobre André Almeida sempre que conseguia partir no 1×1 contra o internacional português no último terço (mérito para André Almeida por nunca se ter deixado “comer de cebolada” pelo gaulês, fazendo jus à expressão que tantas vezes é utilizada pelo seu técnico), no outro flanco, o brasileiro, antigo jogador do Shakhtar Donetsk, jogador que Guardiola tem vindo à sua maneira a moldar ao estilo de Arjen Robben, conseguiu receber alguns passes longos vindos do meio-campo (Thiago Alcantara e Arturo Vidal) com espaço para meter a sua passada larga no jogo no frente-a-frente contra Eliseu, caíndo sempre no erro de fintar para dentro, decerto para procurar o seu remate cheio de efeito. Contudo, Nico Gaitán deu sempre uma preciosa ajuda ao lateral-esquerdo que só viria a tremer defensivamente quando já na segunda parte entrou o explosivo Kingsley Coman, jogador que difere em algumas características de Costa no sentido em que é um jogador com uma dose de pragmatismo maior na decisão dos seus lances individuais.

O Benfica conseguiu à passagem da meia-hora equilibrar o rumo da partida, conseguindo, perante um agressivo meio-campo dos bávaros (Alcantara e Vidal são efectivamente muito rápidos a cair sobre os adversários quando a sua equipa perde a bola) levar com maior facilidade a bola para o meio-campo adversário, apesar do seu lançador de jogo, Renato Sanches, ter ficado algo perdido no terreno em virtude do maior domínio ao nível de posse de bola do Belenenses. Mesmo assim, o jovem médio do Benfica conseguiu na primeira parte, tabelar com Pizzi e Jonas num par de lance, colocando mais velocidade na saída de jogo dos encarnados. Pelo meio há o lance mais polémico de arbitragem da partida num lance em que Phillip Lahm intercepta um cruzamento vindo do flanco esquerdo com o braço numa situação específica em que no chão tentava o carrinho. Não tendo intenção de cortar a bola com o braço (no esforço para efectuar um carrinho é muito difícil ao atleta colocar o braço atrás das costas) creio que o árbitro polaco Szymon Marciniak deveria ter assinalado grande penalidade a favor dos encarnados porque a dar-se a vantagem sobre o lance, deveria beneficiar-se a equipa que atacava visto que a bola seria endereçada para zona de finalização, onde decerto apareceria Kostas Mitroglou. Por falar no grego, este fez uma exibição muito apagada na qual limitou-se apenas a contestar (usando o seu físico) algumas bolas colocadas em profundidade contra David Alaba.

Até ao final da partida, destacaria outro lance, aquele que em que Nico Gaitán esteve muito próximo de empatar a partida.

A turma de Guardiola foi caíndo de rendimento no plano ofensivo no 2º tempo. Com uma construção de jogo muito mastigada e muito errática ao nível das decisões dos lances, a equipa bávara nunca conseguiu colocar velocidade no seu jogo e assim criar desequilíbrios junto da defesa encarnada, abdicando também de criar situações que tinham posto a defesa encarnada em calafrios no primeiro tempo, ou seja, aqueles lances em que Bobek Lewandowski e Thomas Muller tinham conseguido fugir às marcações para dar linha de passe fora da área a Bernat, arrastando e baralhando por conseguinte as marcações dos centrais para abrir espaço para a circulação de bola para a entrada dos laterais nas alas. Rara excepção de brilhantismo ofensivo por parte dos bávaros foram as duas oportunidades de golo que estes dispuseram na 2ª parte: o supracitado remate de Ribery no corolário de uma grande jogada individual na qual o francês entrou na área pelo flanco esquerdo com um drible pelo meio de dois adversários e o lance em que num passe em diagonal da direita para a esquerda em contra-ataque (a furar os centrais encarnados pelo meio) Lewandowski foi desmarcado na cara de Éderson. Em vez de tentar bater o guardião encarnado (com exibições como as que Éderson tem feito desde o jogo de Alvalade para cá, Júlio César ficará muitas mais vezes encostado no banco de suplentes ou na bancada), o internacional polaco, homem a quem a imprensa desportiva internacional tem apregoado uma mudança de ares no final da presente temporada, não quis finalizar, assistindo Phillip Lahm da pior forma possível com um passe largueirão ao qual não chegou o lateral (na 2ª parte, o lateral-direito, sem muitas hipóteses para avançar pelo flanco direito com a bola controlada como tanto gosta, decidiu procurar mais as zonas interiores para servir de isco e assim obrigar os adversários a concentrar mais jogadores na zona central do terreno para usufruto do flanqueamento de jogo praticado pela sua equipa).

Do outro lado do campo, o Benfica foi conseguindo trilhar o caminho até à área dos bávaros e chegou mesmo em algumas situações do jogo a arriscar uma pressão defensiva altíssima à saída da área dos homens da casa (por norma quem arrisca uma pressão alta no meio-campo adversário contra as equipas de Guardiola dá-lhes um trunfo para, em caso de colocação da bola atrás da linha média adversária, criar situações de autêntico buraco a meio-campo que são aproveitadas em rápidas transições no contra-ataque), obrigando os centrais Alaba e Kimmich (posteriormente Javi Martinez) a ter que jogar muitas vezes em Neuer e a arriscar para descobrir os organizadores de jogo da equipa com passes picados para o meio-campo.

Momento auge da 2ª parte para os encarnados foi quando à passagem do minuto 56, Jonas sacou de um momento mágico só ao alcance dos predestinados ao tirar Alaba da frente dentro da área com uma rotação sobre os eixos que deixou o austríaco pregado ao relvado para se posicionar na cara de Neuer que teve de responder a punhos ao remate do actual melhor marcador das ligas europeias com 30 golos.

Num jogo que teve apenas 7 remates à baliza (5 por parte do Bayern, 2 por parte do Benfica), a equipa de Rui Vitória sai muito viva do Allianz Arena e tem condições para pelo menos discutir a eliminatória na Luz contra o colosso germânico na próxima semana. Pelo meio, o Benfica terá uma deslocação que se antevê difícil ao reduto da minha Académica, num jogo que irei presencialmente assistir ao Calhabé. Veremos qual será a atitude tomada por Rui Vitória em Coimbra naquele que me parece ser um possível dilema para o treinador do Benfica: arriscar jogar novamente com o seu 11 principal e aumentar os níveis de cansaço à equipa para disputar a eliminatória da Champions ou arriscar fazer algumas mudanças no onze principal com as entradas de Samaris para o lugar de Fejsa, Carcela para o lugar de Gaitán, Salvio para o lugar de Pizzi, Nélson Semedo para o lugar de André Almeida de forma a poupar as pernas de algumas das unidades-chave para o jogo de dia 13? Uma coisa é certa: na Luz, Vitória não contará com Jonas em virtude do castigo de 1 jogo que lhe será aplicado pela UEFA por acumulação de amarelos na fase final da prova em virtude de ter visto das mãos do juiz polaco a respectiva cartolina por falta sem bola sobre Arturo Vidal. Nesse capítulo, Jonas foi altamente combativo, tanto a meio-campo (lutando para dificultar a organização de jogo) como no ataque, arrancando muitas faltas aos centrais do Bayern.

Para amanhã ficarão reservadas as análises ao jogo entre Barcelona e Atlético de Madrid (2-1 para os catalães em Camp Nou e a etapa rainha da Volta ao País Basco em Ciclismo, prova que irei de seguida acompanhar na minha TV).

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