A crise da direita

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A direita (não vou entrar aqui em distinções semânticas sobre se os partidos à direita do PS são mesmo direita ou esquerda ou centro ou não-esquerda ou esquerda da direita; deixo isso para os apaixonados destas coisas) vive hoje uma profunda crise. Sendo também uma crise de lideranças (note-se que escrevo lideranças e não apenas líderes), ela é fundamentalmente uma crise de ideias.

E ela não começou com o resultado de outubro de 2015 (quando a direita ficou reduzida à sua base eleitoral natural, que evidentemente é insuficiente para governar, apesar de toda a histeria contrária). Aliás reduzir esta profunda crise da direita a uma mera mudança de liderança do PSD é enganador.

A origem da crise da direita está em 1995 com a derrota do cavaquismo. Esgotado o pacote dos fundos comunitários generosamente distribuídos, adiada a modernização das instituições, atrelada ao discurso social imposto pela esquerda, a direita limitou-se a gerir as suas oportunidades eleitorais sem qualquer programa reformista para Portugal. Apodrecido o PS de Guterres, com o pântano, a direita voltou ao poder em 2002 com o seu Força Portugal. Sem conteúdo, sem objetivos, dedicou-se a gerir o “país de tanga”. Naturalmente do seu governo 2002-2005 pouco ou nada ficou; ninguém recorda qualquer reforma relevante. E lá esperou outros seis anos pelo PS apodrecer outra vez para voltar ao poder em 2011. Na segunda encarnação, desta vez pàfiana, apropriou-se do programa de ajustamento (depois, mais tarde, afinal já não era o seu programa, mas sim uma imposição da troika), foi incapaz de fazer qualquer reforma estrutural (Estado, municípios, justiça, segurança social, regulação, etc.), limitou-se a fazer cortes orçamentais e ajustamentos atabalhoados onde a troika mandou, mudanças institucionais nem por sombras (mas culpar o Tribunal Constitucional e outras forças de bloqueio isso soube). Surpreendida pela sua própria insuficiência eleitoral, a direita ficou outra vez na oposição. E do “seu” ajustamento, diz a própria direita, tudo foi revertido pela gerigonça radical. Tão profundas e grandes eram as “suas reformas” que tudo foi desmanchado em seis meses. Deste segundo governo da direita, também pouco ficou e antecipo que só os cortes subsistirão na memória histórica.

Desde 1995, a direita conseguiu duas vezes uma maioria para governar e falhou outras cinco. Duas em sete. Desde 1995, o PS foi sempre reeleito para governar um segundo mandato. A direita nunca foi. Ou seja, a direita só governa quando a esquerda apodrece no poder. E a direita nunca consegue manter a sua base eleitoral de apoio por mais de uma legislatura. A direita é governo por tempo limitado nos tempos mortos da esquerda. A direita é assim uma espécie de suplente da esquerda.

Hoje, na oposição, a direita poderia organizar o seu Grupo de Ofir (Compromisso Portugal, por favor não, uma vez que apenas serviu para lançar várias carreiras políticas, já que ideias concretas nada de nada). A direita poderia estudar e preparar um ambicioso programa alternativo ao PS, apresentar um livro-branco para cada área estratégica, com medidas concretas e metas quantificadas, constituir grupos de trabalho abertos a independentes e com um ministro sombra como rosto responsável. A direita poderia chamar a si os setores mais dinâmicos da sociedade portuguesa (como fez no apogeu da AD e do cavaquismo) com um programa de eventos periódicos suprapartidários. A direita poderia ser o motor da mudança da política. Poderia, mas não faz nada disso porque a direita não quer mudar de vida. No fundo, a direita gosta de ser suplente porque dá menos trabalho, é menos exigente e é mais confortável.

A direita voltará a ser governo. Inevitavelmente. Quando a esquerda apodrecer de novo. Depois do PS ser reeleito para um segundo ou terceiro mandato. A direita terá o seu terceiro governo que, por sua vez, se esgotará numa outra qualquer legislatura. Não, não é o fado da direita. É o destino quando não há ambição, não há ideias, não há programa, não há pessoas. Há 20 anos que estamos assim. E a direita ainda não está farta disto. Já a esquerda agradece tanta amabilidade.

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12 Comments

  1. Parabéns ao Nuno Garoupa por conseguir em meia dúzia de parágrafos resumir e reduzir 20 anos de mediocridade política em Portugal. A descrição do percurso da direita não omite a desgraça ideológica da esquerda.

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