Brevíssima consideração de aleluia sobre Liberdade

Sobre a Liberdade existem muitas afirmações. Uma, das mais comumente repetida, é “a minha liberdade termina quando começa a do outro”, como se a liberdade fosse assim uma espécie de gozo à vez, em fila indiana, delimitada pela pessoa que nos antecede e pela que nos sucede nesse exercício gozoso. Recuso essa afirmação, ou como dizia o outro, essa afirmação “é cena que não me assiste”.

A minha liberdade não termina quando começa a do outro. A minha liberdade tem que coexistir com a do outro. É essa coexistência que dignifica a liberdade, porque só o é alicerçada no respeito do outro e só na coexistência colectiva é que se realiza na sua plenitude.

Há, também, uma tendência errada de associar Liberdade a Democracia. Embora a primeira seja condição sine qua non para a existência da segunda, não são sinónimos. A Liberdade resulta de uma conquista, de um impulso primordial, a Democracia resulta de uma longa aprendizagem. O 25 de Abril trouxe-nos a Liberdade mas não nos ensinou a Democracia. E isso nota-se muito. Boa Páscoa.

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83 Comments

  1. Muito obrigada Mário Nuno pela reflexão de aleluia!
    Aprender a Democracia é uma tarefa inacabada num Mundo em Mudança acelerada.
    O Mundo do 25 de Abril de 1974 não é definitivamente o Mundo de hoje ... e no entanto muitas vezes parecemos crianças a clamar vitórias em duelos medievais.
    Hoje a Democracia escreve-se num Mundo que não tem a simplicidade da dicotomia (esquerda vs direita; ditadura vs democracia; liberdade vs prisão) mas a complexidade de uma matriz de redes sobrepostas, usando frequentemente palavras polissémicas, com vários significados ("amigos"; "partilha"; "diálogo cultural") ... de que nem nos damos conta.

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    • Cara Margarida,
      Muitos ainda não perceberam isso da democracia ser uma obra permanentemente inacabada. Nos tempos que correm, confusos, desafiantes, teremos vários atentados à democracia, e até à liberdade, os quais exigirão de todos um esforço suplementar e colocarão à prova as nossas convicções.
      Desejos de Boa Páscoa.
      Abraço, norberto

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  2. Caro Mário Neves,
    Concordo totalmente com a forma como descreve a liberdade: "A minha liberdade tem que coexistir com a do outro. É essa coexistência que dignifica a liberdade, porque só o é alicerçada no respeito do outro e só na coexistência colectiva é que se realiza na sua plenitude". É exatamente isso.
    O que não percebo é porque coloca isso em contraponto com a frase "A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro". Não percebo, porque as duas coisas são sinónimos. Na verdade, essa frase, que é de alguma forma famosa, e que muitos atribuem ao filósofo inglês Herbert Spencer, indica que a verdadeira liberdade respeita o próximo, e o seus direitos.
    Na verdade, a própria bíblia, numa carta aos Coríntios 6:12, o apóstolo Paulo afirma: "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma." Isso revela que nós temos a capacidade de fazer muitas coisas, mas que nem tudo o que podemos fazer é bom, porque as nossas ações têm consequências.

    Associar liberdade a democracia não está errado, e claro que os conceitos não são sinónimos. Estão associados mas a democracia precisa de ser cultivada com carinho para que seja apreciada, protegida e faça parte daquilo que consideramos essencial, como respirar.

    Cumprimentos e boa Páscoa,

    Norberto Pires

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    • Ah! é uma questão de fé, ok. Sem argumentos não sei debater. Mas aqui ficam alguns: http://www.insonias.pt/liberdade-democracia-capacidade-ouvir-dialogar/

      Norberto

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