A noite mágica de Anfield Road

Existem jogos tão perfeitos, tão especiais, tão batalhados e tão emocionantes que nem merecem ser comentários pela sua perfeição. Espectáculo avassalador, requinte dos requintes, se pudesse, dava a Liga Europa às duas equipas pelo magnífico show de bola com que nos brindaram ontem em Anfield.

O jogo de ontem fez-me lembrar a sensacional final da entretanto rebaptizada Taça UEFA em 2001, na qual o Liverpool bateu o Alavés por 5-4.

O jogo de ontem à noite em Anfield Road teve todos esses condimentos: paixão (antes e aquando do início da partida com a entoação magnífica do You´ll Never Walk Alone, hino partilhado pelas duas equipas que teve o magnífico condão de unir os adeptos do Borussia e do Liverpool nas ruas daquela cidade inglesa nas horas que antecederam à partida) futebol de perfeição, emoção e incerteza até ao último segundo.

Borussia e Liverpool provaram hoje que na sua melhor forma estão à altura de qualquer equipa presente nos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Klopp levou a melhor sobre o seu sucessor em Dortmund Thomas Tuchel e o Borussia ficou, em 3 dias, arredado de 2 dos 3 objectivos traçados para a temporada (Bundesliga e Liga dos Campeões). Klopp continua a sonhar com uma temporada de estreia de arromba. Uma vitória na Liga Europa desta temporada pode finalmente relançar o clube de Anfield no plano internacional naquele que é designado pelos seus responsáveis como o ano 0 do Liverpool (a Jurgen Klopp foi pedindo aquando da sua contratação no final de 2015 que reestruturasse a equipa e a preparasse para subir um patamar na próxima temporada) e poderá acima de tudo devolver o clube à Liga dos Campeões já que este se arrisca a nem sequer se apurar para as competições europeias pela via do campeonato.

Quanto ao jogo em si, pudemos assistir a um jogo ultraofensivo no qual as duas equipas só se preocuparam em atacar e em marcar golos, lutando de forma árdua pela sua sobrevivência na competição. O Dortmund foi uma equipa montada em processos de jogo de base de contra-ataque (grandes exibições dos seus criativos Mkhitaryan e Kagawa; o japonês parece finalmente regressar à sua melhor forma depois do hiato exibicional demonstrado nos últimos 4 anos desde que deslumbrou precisamente com Klopp e foi contratado sem êxito pelo Manchester United) enquanto o Liverpool, como lhe competia, executou em campo o seu habitual plano para os jogos em casa, alinhando em ataque organizado, explorando essencialmente as dinâmicas assentes no seu flanco esquerdo (Alberto Moreno costuma por norma fazer o flanco sozinho no plano ofensivo, caindo por vezes James Milner, Phillipe Coutinho ou Roberto Firmino naquele flanco para o auxiliar na construção de jogadas maioritariamente executadas em tabelas curtas combinadas entre os dois jogadores de forma a Coutinho executar o seu fenomenal e arqueado remate de meia distância à entrada da área ou então servir as desmarcações de Firmino na área).

Os alemães haveriam de explorar em várias ocasiões os espaços concedidos pelos Reds atrás da sua linha de meio-campo, espaços que eram provocados por perdas de bola em zonas adiantadas do terreno por uma linha média do Liverpool demasiado balanceada no terreno. O médio criativo japonês teve portanto muito espaço à frente da linha defensiva dos reds para poder acelerar jogo e criar situações como as que criou em conjunto com o médio armeno e com Pierre Emerick Aubemeyang no lance do 1º golo de Mkhytarian, lance no qual os centrais do Liverpool, tendo que sair na pressão à manobra genial de Kagawa (que enorme leitura, visão de jogo e execução no passe para Mkhitaryan, ludibriando toda a defesa dos Reds) deixaram Sakho para 3 jogadores do Dortmund em posição legal e privilegiada para marcar o primeiro. Mignolet ainda defendeu o remate do avançado gabonês, aparecendo o armeno a empurrar. James Milner ficou expectante a ver o que iria dar a jogada, não sendo oportuno a fechar o espaço para impedir a emenda do internacional pela Arménia.

Alicerçados pelo trabalho desenvolvido por Weigl e Castro na procura constante pela bola, cabia ao trio criativo dos alemães (Réus pela esquerda, Kagawa ao centro e Mhkitaryan pela direita) mexer com a partida. Em 8 minutos de inferno, nos quais o Liverpool demorou muito a entrar no jogo quer ofensivamente, quer defensivamente, com muitas perdas de bola a meio-campo, falhas nos timings de pressão e alguma inocência, demonstrada por exemplo no lance do 2º golo, lance no qual Marco Réus, numa acção individual apenas ao alcance dos génios do futebol moderno capitalizou a inocência dos jogadores dos Reds para assistir o gabonês, que, por sua vez, demonstrando-se irrequieto ao nível de movimentações nos primeiros minutos de jogo, conseguiu sempre fugir às marcações para abrir linhas de passe aos seus companheiros do meio-campo. O Dortmund de Tuchel parecia portanto aos 8″ embalado para o sucesso contra a equipa do seu criador Klopp.

O que viria a passar-se seria um esmagador comeback que ficará decerto para os anais do futebol. O Liverpool reergueu-se na partida, qual fénix renascida e jogou tudo o que tinha para jogar. Adoptando o lema “perdido por cem, perdido por mil”, os Reds soltaram-se do espartilho que o momento exigia para dar o tudo por tudo para pelo menos compensar os seus adeptos pelo apoio demonstrado. Aos 16″ Origi atirou ao poste depois de uma sensacional desmarcação na área antecedida de uma vertical e simples jogada iniciada nos pés do lateral Nathan Clyne, valendo o corte providencial para o poste do central grego Sokratis. Klopp pedia mais intensidade, mais ofensividade, mais coração. Os seus jogadores voltaram a demonstrar que conseguiam progredir no terreno através de jogadas em que rapidamente variavam o jogo a partir de passes longos para as subidas dos seus laterais, colocando este rapidamente o esférico no colega em zona interior para num só toque aparecer a desmarcação de Origi na área. Entre o minuto 16 e o minuto 48, a defesa do Dortmund foi conseguindo suster a avalanche de bolas colocadas na área pelos Reds, muito graças ao auxílio que o lateral (de zona morta; considere-se a zona morta o flanco oposto ao acontecimento da jogada) ia emprestando na área aos centrais Hummels e Sokratis. O acerto defensivo dos alemães no seu último reduto não seria porém inquebrável, apesar de, aos 24″, com um subtil toque numa iniciativa mais uma vez desenvolvida com raça por Milner no flanco direito, o belga não ter dado o efeito vencedor ao remate disferido sobre oposição do central grego do Borussia. O Liverpool dominava mas não estrangulava por completo o Dortmund. Os alemães até tiveram ocasiões para selar a eliminatória no primeiro tempo.

À passagem da meia-hora, o cenário que tínhamos era este: um Dortmund de linhas defensivas muito recuadas perante um Liverpool em crescendo no plano ofensivo, apenas capaz de conseguir sair no contragolpe sem arriscar muito, bombeando a bola directamente para os pés de Aubemeyang junto aos centrais da turma inglesa.

Se aos 26″ Firmino ficou a rasar o poste esquerdo da baliza de Weidenfeller, o Dortmund, depois de superada a expectável pressão inglesa esteve perto de marcar o terceiro em duas situações que contribuíram claramente para o desfecho final da eliminatória: a primeira  quando o lateral direito Lukas Pisczek galgou pela direita sob oposição de Emre Can para assistir Aubemeyang para o terceiro. Simon Mignolet negou com uma palmada o desiderato aos comandados de Thomas Tuchel. A reacção do técnico germânico ao lance seria esclarecedora: se aquela bola entrasse no raio de acção do gabonês, o 3-0 seria o golpe de misericórdia na equipa do Liverpool. A segunda, quando aos 35″ depois de uma triangulação muito bem executada (superando em velocidade e com simplicidade as marcações instituídas por 4 jogadores do Liverpool) entre o gabonês, Marco Réus e Weigl no flanco esquerdo, permitindo a incursão do internacional germânico na área com o esférico, o avançado não foi capaz de concluir a jogada com êxito devido ao facto de ter chegado ligeiramente atrasado ao espaço para o qual foi assistido por Reus. Quer pelo flanco esquerdo, quer pelo flanco direito, os dois laterais dos reds e os jogadores encarregues de fechar os espaços (Milner, Coutinho, Can) não eram capazes de estancar a simples e envolvente construção de jogo que era executada pelos criativos da equipa da Renânia do Norte-Vestefália.

Origi 1, Origi 2, Origi 3: Aos 37″ o belga confirmou uma noite muito frustrante no capítulo da finalização, atirando novamente ao lado num lance que foi novamente construído pela asa direita dos Reds. Mais uma vez foi importante, para estorvar a acção a adversária, o auxílio manifestado por Lukasz Piszczek.

Na 2ª parte tudo se modificou. Os jogadores do Liverpool nunca deixaram de acreditar. A defesa do Dortmund mostrou menos solidez. Divock Origi afinou o seu ponto de vira e deu o mote para o fantástico comeback que referi lá atrás neste texto. Aos 48″ após uma técnica combinação feita por Emre Can e Roberto Firmino que rasgou por completo a concentração de jogadores de Dortmund no corredor central, seguida de um passe soberbo do internacional alemão para a desmarcação de Origi (pelo meio do nicho de espaço aberto por Hummels e Piszczek, eles que tinham estado não próximos posicionalmente na primeira parte) e consequente finalização clássica na cara de Weidenfeller. O Dortmund manifestava neste início de 2ª parte uma desorganização invulgar ao nível da pressão executada ao portador da bola, atacando vários homens o mesmo jogador, o que de facto, abria espaços para a colocação de bolas nas costas desses mesmos jogadores. Os comandados de Kloppo haveriam de explorar os erros dos alemães…

O avançado belga galvanizou-se (não é que até aquele momento não estivesse a fazer uma excelente exibição porque estava) e começou a tentar carregar a equipa para a frente. Sendo um avançado muito móvel que consegue, através de movimentações que faz para a esquerda para arrastar um dos seus centrais consigo, realizar cut insides (o forte de alguns jogadores desta equipa como são os casos de Coutinho, Firmino, Lallana) que acabam quase sempre com uma tentativa de remate à entrada da área, voltou a tentar a sua sorte sem exito num movimento do género daquele que descrevi aos 53″.

3 minutos passados viria o maior balde de água fria quando Réus, devidamente desmarcado nas costas de Clyne entrou na área e com uma soberba finalização fez o 1-3. Clyne ficou a meio do caminho na pressão ao portador da bola e deixou o internacional germânico deter uma oportunidade na área que raramente costuma desperdiçar. A passagem às meias-finais parecia ali, no curvilíneo remate do alemão, totalmente selada.

Até que o impossível aconteceu a partir do minuto 64 como bem podem ver no vídeo supra colocado, terminando já depois dos 90 minutos em claro ambiente de êxtase colectivo dos sofredores e apaixonados adeptos da turma de Merseyside, já com o perfume de Joe Allen em campo. Determinante como tem sido nas últimas semanas vindo do banco, o rendilhado jogador galês, puxou dos seus galões técnicos na construção de jogo para incentivar Coutinho e Firmino a darem mais do que tinham dado ao jogo. Termino o post da maneira em como o iniciei: Existem jogos tão perfeitos, tão especiais, tão batalhados e tão emocionantes que nem merecem ser comentários pela sua perfeição. Caro leitor, se leu as minhas palavras ao longo deste longo post, faça o favor de colocar o vídeo supra postado no minuto 12:13 e sente-se calmamente no seu sofá para apreciar um dos momentos mágicos da história da Liga Europa. 

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