A mítica vitória de Mathew Hayman no Paris-Roubaix

hayman

Um fabuloso espectáculo de ciclismo com um final imprevisível até ao último milímetro de corrida! É este o epíteto inicial que me ocorre para descrever o enorme espectáculo dado pelos 200 ciclistas que alinharam hoje em Paris para a Clássica das clássicas da Primavera, prova que teve um desfecho épico com a vitória do underdog Mathew Hayman, curiosamente, o ciclista com mais participações na prova dentro da lista de corredores que alinharam hoje para a prova:

Se às 1o da manhã me dissessem que a vitória na corrida não iria pertencer a um dos clássicos favoritos, homens como Peter Sagan (Tinkoff), Tom Boonen e Niki Terpstra (Etixx-Quickstep), Alexander Kristoff (Katusha), Sep Vanmarcke (Lotto-Jumbo), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), Fabian Cancellara (Trek), Lars Boom (Astana) ou até a alguns dos ciclistas que tem obtido bons resultados na prova nas últimas edições ou que aspiram no futuro a vencê-la na categoria de elites visto que tem bons resultados nas edições das categorias de formação, como são os casos de Ian Stannard, Luke Rowe, Jasper Stuyven, Bert de Backer, Magnus Cort Nielsen, Taylor Phinney ou Danny Van Poppel, não seria capaz de nomear alguém capaz de vencer a prova.

Sem o vencedor de 2015, John Degenkolb, na prova que se disputa nas estradas de pavé da região das Ardenas francesas e do Nord-Pas de Calais devido a uma lesão provocada por uma queda há algumas semanas atrás (Degenkolb só regressará à competição no próximo mês de Maio, a tempo de ainda se preparar devidamente para a sua participação no Tour) e de outros históricos dos últimos anos, casos de Greg Van Avermaet (BMC), do vencedor em 2011 Johan Van Summeren, o pelotão haveria de cumprir hoje a 110ª rota da prova que liga Paris a Roubaix por intermédio de uma estrada constituída por alcatrão e pavé (mistura de paralelo com barro) com três incertezas a marcar de início a prova:

  1. Conseguiria o campeão do mundo Peter Sagan sagrar-se vencedor da prova pela primeira vez depois de uma semana de sonho que tinha iniciado com uma vitória na Volta à Flandres?
  2. Conseguiria Tom Boonen esquecer a desastrosa participação na Volta à Flandres (arredado da discussão da prova em tenro momento desta) para lutar no pavé pela sua 5ª vitória na clássica, tornando-se assim o ciclista com mais vitórias?
  3. Conseguiria Cancellara (na sua época de epilogo de carreira) vencer pela 4ª vez a prova e despedir-se em glória do Inferno do Norte?

A etapa começou as habituais fugas. Estando o primeiro dos 27 sectores de pavé previstos para a prova (com especial incidência para os sectores de 5 estrelas, vários ciclistas de menor nomeada (com alguns consagrados ao barulho, caso de Mark Cavendish e Imanol Erviti ao barulho; Erviti voltou a tentar a fuga que já tinha encetado nos primeiros quilómetros da Volta à Flandres) tentaram aproveitar o asfalto para trilhar uma vantagem que lhes permitisse chegar ao pavé com hipóteses de, pelo menos, arreliar, o pelotão que, por sua vez, não deu grandes veleidades aos vários grupos de fugitivos nos primeiros 100 km de prova com a impressão de uma velocidade altíssima nas primeiras duas horas de corrida (46 km\h) apesar do vento lateral que tiveram de enfrentar nos primeiros quilómetros e que chegou a gerar um efeito de bordieu que levou a uma momentânea rachadela do pelotão em 2. A Trek aproveitou os primeiros quilómetros para colocar muitos homens nas fugas, de forma a conseguir ter, numa fase mais avançada da prova muitos elementos em posições intermédias para ir ajudando o esforço colectivo de Cancellara. Aproveito esta deixa também para referir que o único ciclista presente em prova com um lugar num top-10 de uma grande volta (realçando o cariz perigoso da prova para quem tem aspirações às grandes voltas, apesar de por exemplo, Vincenzo Níbali ou Jakob Fuglsang correrem muito bem este tipo de provas) abandonou o ciclismo hoje: falo do ucraniano Yaroslav Popovych, ciclista de 36 anos que outrora foi considerado por muitos no ciclismo como o sucessor de Lance Armstrong na então denominada equipa Discovery Channel. A pedido de Cancellara, Popovych prolongou a sua carreira por mais 4 meses para ajudar Spartacus a atingir os seus objectivos nas Clássicas das Ardenas, objectivos que não foram alcançados por este ciclista nascido em Berna há 35 anos atrás no seu ano de despedida.

Primeiro sinal negativo do dia haveria de ser a indisposição de Lars Boom da Astana. A dado momento, a 160 km da meta, o holandês veio ao carro da Astana. O que se pensou na altura ser uma troca de bicicleta haveria de ser afinal uma indisposição sentida logo nos primeiros quilómetros da etapa, passando o ciclista holandês muitas dificuldades para seguir o ritmo forte que a Sky e a Lotto-Jumbo impunham na frente do pelotão para não dar muito espaço ao enorme grupo de fugitivos de cerca de 20 unidades que ia na frente. Neste, Sylvain Chavanel (Dimension Data) era o homem mais temido dada a sua qualidade e acima de tudo a sua imprevisibilidade.

A Sky haveria de assumir o controlo do pelotão à chegada ao primeiro sector de pavé, Troisville, catalogado pela organização como um sector de 3 estrelas. A trabalhar para os seus dois candidatos de 2ª linha, se assim me permitem em chamá-los, a formação britânica, não arriscou e posicionou-se muito bem num sector que viria a ser marcado pela primeira grande queda do dia, queda que apanhou pelo meio Nélson Oliveira. O bairradino acabaria por ficar no chão agarrado ao ombro, continuando porém a corrida até à sua metade. Não aguentando as dores no local, Nélson decidiu chamar o carro da equipa e abandonar a prova, sendo assistido pelos médicos da Movistar. Húmido nas bermas, o pavé aconselhava a alguma prudência, prudência que não foi tida mais à frente por Cancellara e pelos homens da Sky

A Sky continuou na frente até a cerca de 110 km para o final da corrida. Desacelerando o ritmo porque a humidade de alguns sectores de pavé, transformados em certas partes em lama, não convidava os ciclistas a arriscar, a equipa britânica deixou que o grupo de fugitivos chegasse a atingir 3 minutos e 45 de diferença. Difícil, a corrida por eliminação, parecia querer fazer algumas vítimas entre os favoritos. A 130 km da meta, Niki Terpstra perdeu o contacto com o pelotão mas nem se preocupou em fazer pela vida no 2º grupo porque lá na frente Tom Boonen (devidamente secundado por Tony Martin na sua primeira aparição na prova e por Zdenek Stybar) estava muito tranquilo e bem posicionado na frente do pelotão. 10 km depois, o campeão holandês, vencedor da edição de 2014 como um certo “underdog” como o foi hoje Hayman (incluído no grupo de fugitivos inicial), haveria de recolar ao grupo principal.

À passagem pelo 8º sector de pavé (Mondreaux – 3 estrelas) nova queda colectiva haveria de ajudar ao desfecho da prova. Com Tony Martin na frente do pelotão a trabalhar para Boonen, em boa hora decidiu a Etixx render a Sky na frente visto que a queda aconteceu na frente do pelotão e apanhou Sagan e Cancellara. Os dois ciclistas conseguiriam sair ilesos da queda mas jamais haveriam de recuperar posição junto do grupo onde ficaram Boonen, Stybar, Boasson Hagen, Heinrich Haussler, Andrijs Saramotins, entre outros… Se num primeiro momento, já sem ajuda, Sagan acreditou que os 40″ de diferença para o grupo da frente seriam esbatidos pela Trek de Cancellara (com poucas unidades no grupo aquando da queda) porque a equipa de Cancellara não deixaria o seu líder ficar afastado da prova logo no seu preâmbulo, a confiança de Sagan naquele momento iria traí-lo. O eslovaco passou de um estado de absoluta tranquilidade dentro do grupo para um estado de desconfiança perante as capacidades da Trek (Stijn Devolder e Jasper Stuyven não conseguiram ganhar tempo ao grupo de Boonen apesar do bom trabalho que fizeram em prol de Cancellara) num primeiro momento para depois passar efectivamente ao ataque, terminando por fazer uma aliança com os ciclistas da Trek e posteriormente com os da Giant quando se viu envolvido numa nova queda, a queda que seria provocada por Cancellara já depois da passagem pelo Trouée de Arenberg, um dos sectores de 5 estrelas da prova.

A diferença não caiu e Sagan, acompanhado ou a solo viu Boonen e os restantes (Vanmarcke ficou ligeiramente para trás aquando da primeira queda mas depois conseguiu juntamente com os seus colegas de Lotto unir os grupos) ficarem mais aliviados quando perceberam que a discussão da corrida não teria a sua presença e a presença do explosivo Cancellara. A sua presença e a presença do Suiço seriam perigosas quer para Boonen quer para Vanmarcke pela maior explosividade de ataques de média distância que os dois corredores conseguem fazer em ataques a 40\30\20 km da meta quer pela excelente ponta final que ambos possuem na finalização de etapas.

À saída da passagem pelo Trouée de Arenberg a diferença era de 1 minuto. Foi aí que Peter Sagan deu o primeiro sinal de satisfação ao tentar sair do grupo então comandado por Stuyven da Trek. A pequenina chantagem emocional do eslovaco haveria de comover os dois Trek visto que ambos decidiram fazer logo ali um pacto de entrejuada, apesar da equipa continuar a ter um homem na fuga da frente, Yaroslav Popovych. Na frente do grupo Boonen, a Etixx, entreajudada de vez em quando pela Lotto-Jumbo depois de uma fase de alguma desorganização na saída do Trouée voltava a acelerar para não correr o risco da união de grupos.

O esforço lá atrás era enorme. A 76 km da meta tinhamos um cenário de corrida na qual o grupo de fugitivos (no qual seguiam Hayman, Erviti, Chavanel) tinham 45 segundos de vantagem para o grupo Boonen que por sua vez tinha 36 segundos de vantagem para o grupo Cancellara\Sagan. Previa-se portanto uma recolagem para breve, recolagem que se imperava aos de trás num espaço considerável de 20\30 km para que estes ainda conseguissem ter tempo para descansar um bocado na roda de alguém e recuperar energias para eventualmente abordarem os últimos quilómetros com alguma energia para lançar um dos seus mortíferos ataques.

Idos 15 km, haveria de finalmente se dar a junção entre o grupo de fugitivos e o grupo Boonen. Edvald Boasson Hagen aproveitou o momento para espreitar um ataque que em nada redundou dada a capacidade de resposta de Tom Boonen, capacidade que levou o belga ao limite, durante toda a parte final da prova para responder a todos os esticões que tanto Boasson Hagen, como Hayman, Stannard e Vanmarcke deram na prova. Insuperável, o belga de 35 anos, continua a demonstrar (haveria de no final, apesar da derrota, afirmar que não vê razões para abandonar o ciclismo; recordo que em 2013 o belga equacionou abandonar a modalidade por se encontrar sem vencer provas há largos anos, ele que foi um dos sprinters e corredores de clássicas mais consagrados da primeira década do século XXI) que para o ano voltará a tentar a “manita” no Paris-Roubaix. Os ligeiros ataques protagonizados a 60 km desorganizaram novamente o grupo e pareciam estar de encontro aquilo que no 2º grupo a aliança Sagan e Cancellara pretendia para recolar.

Contudo, o Inferno do Norte teria outro destino reservado para Cancellara. O suiço começou a acelerar no grupo de trás no preciso momento em que a Sky com 5 homens no grupo principal (Puccio, Moscon, Stannard, Rowe, Van Poppel) teve que chegar-se novamente à frente para comandar as operações. Foi aí que se eram outros dos dois momentos-chave da prova:

  1. Duas quedas em duas curvas de dois Sky no pavé: primeiro foi Moscon, obrigando o grupo principal a reagrupar-se. Logo a seguir foi a queda de Puccio. Luke Rowe e Ian Stannard foram afectados pela queda porque iam atrás dos dois jovens mas rapidamente conseguiram recolar.
  2. Lá atrás, enquanto Sagan pedia a Bert de Backer para colaborar, Cancellara, um dos mais experientes caía num sector de pavé (Mons au Perelle – 5 estrelas) numa zona de muita lama ao mesmo tempo que Vanmarcke fazia o seu primeiro ataque no grupo principal com resposta imediata de Stannard e Boonen. O ciclista da Lotto queria portanto testar as pernas dos outros dois candidatos para saber se poderia mais à frente fazer ou não um ataque demolidor visto que não lhe interessava minimamente, pela sua fraca ponta final, chegar com aqueles dois e com ciclistas como Boasson Hagen ou Haussler à linha de meta.

Enquanto Sagan se debatia lá atrás com a falta de ajudas (a única ajuda que tinha ficou irremediavelmente para trás) assumindo em conjunto com 2 ciclistas da Giant a perseguição que já durava há largos quilómetros perdendo novamente ao nível das diferenças para a casa dos 50 segundos (chegaram a estar a 32″ quando a perseguição organizada com a Trek conseguia lentamente ameaçar a junção de grupos), gerando portanto, muito cansaço no eslovaco, na frente, o ataque de Vanmarcke viria a causar muitas dificuldades em vários ciclistas do grupo principal como Luke Rowe ou Marcel Sieberg da Lotto-Soudal. (não confundir com Lotto-Jumbo).

A prova chegou ao seu epilogo com uma tentativa desespera de Sep Vanmarcke fugir a solo depois da passagem no Carrefour de L´Arbre (5 estrelas – um dos mais longos sectores de pavé da prova) seguindo-se uma fase em que Boonen juntamente com Boasson Hagen conseguiram fechar o espaço ganho pelo Belga. Nos últimos quilómetros viriamos a assistir a uma fantástica corrida disputada a 5 na qual os 5 intervenientes atacavam-se e contra-atacavam de seguida, mostrando apenas Hayman uma enorme vontade para ficar na cauda do grupo e assim poupar alguma energia para uma decisão dentro do velódromo de Roubaix. Se Tom Boonen foi obrigado a ir a todas como lhe competia, não conseguindo lançar a concordata de que tudo deveria ser disputado na pista (como de resto lhe interessava enquanto sprinter que ainda é), Hayman acabaria no velodromo de Roubaix por ser mais forte no sprint que todos os outros, vencendo uma prova que o fará entrar para a história do ciclismo.

 

Prestes a fazer 38 anos, este ciclista nascido na modesta cidade de Camperdown, no Estado da Nova Gales do Sul (Austrália) haveria de conseguir (para além de ter roubado a sonhada, desejada e suada 5ª a Boonen) a sua 7ª vitória de uma longa carreira de profissional que começou em 2000 na extinta equipa holandesa Rabobank. Até ao dia de hoje, Hayman tinha como principal vitória a vitória na prova de estrada dos Jogos da Commonwealth de 2006 apesar de noutras ocasiões ter feito boas prestações nas clássicas da primavera, como demonstram um 10º lugar na Gent-Wevelgem de 2003, dois 8ºs lugares na Volta à Flandres em 2005 e 2009, um 4º na edição da mesma prova em 2007, um 4º na Gent-Wevelgem de 2008, e dois top 10 nas edições de 2011 e 2012 do Paris-Roubaix (8º e 10 lugar, respectivamente).

As Clássicas da Primavera prosseguem para a Semana com a realização dos 3 monumentos de colinas: Amstel Gold Race no Domingo, Flèche Wallone de seguida e Liège-Bastogne-Liège para terminar, já na antecâmara de preparação para o Giro d´Itália. Pelo meio, ainda arranjarei tempo para narrar os acontecimentos da Volta ao País Basco, prova que terminou com a vitória na geral de Alberto Contador. 

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