A “DITADURA” DO POLITICAMENTE CORRECTO

Paulo Vieira da Silva

Há muito que escrevo e reflicto sobre esta temática do “politicamente correcto”.  Aliás iniciei há cerca de um ano um ciclo de conversas com algumas personalidades – na sua esmagadora maioria meus amigos – chamada precisamente “Conversas Politicamente Incorrectas – Cortando a Direito” que interrompi por razões de natureza pessoal mas que pretendo dar continuidade a partir do mês de Novembro.

Hoje o escritor Mário Carvalho dá uma entrevista à minha querida amiga Isabel Tavares em que aborda “o politicamente correcto” classificando-o como insuportável.

Esta é uma temática que se tornou numa das minhas preocupações crescentes porque é uma forma, usada não raras vezes de forma sub-reptícia, que condiciona o pensamento e a própria liberdade individual.

Esta “ditadura” de que fala Mário Carvalho acaba por ser uma forma de orientação do pensamento porque empurra os cidadãos para tenderem para uma opinião do “bem parecer” ou do “ficar mais bonito” correndo atrás de uma determinada corrente que nos é “vendida” pelos media como a mais correcta tornando-a desta forma aparentemente maioritária.

Não deixando muitas vezes de ser apenas ilusoriamente maioritária porque é muito mais confortável tender a concordar com a maioria do que discordar. Até porque discordar ou ter um pensamento próprio, em determinados círculos, pode ter um preço muito elevado a pagar.

Esta temática leva-nos obrigatoriamente para uma reflexão sobre as democracias em que vivemos.

Uma democracia não consegue sobreviver muito tempo por pensamentos dominados e condicionados pelo “politicamente correcto”.

Uma verdadeira democracia apenas existe quando o pensamento é verdadeiramente livre.  Não foi por acaso que o ex-político, escritor e também Prémio Nobel da Literatura, Mario Vargas Llosa, nos disse que “a democracia tem que ser tratada com muito cuidado”.

A respeito do pensamento, hoje uma actividade desencorajada por toda uma prática educacional que se tornou dominante incluindo nas universidades, escreveu a escritora francesa Viviane Forrester no seu ensaio “L’Horreur économique” que “Não há actividade mais subversiva do que o pensamento. Nem mais temida, nem mais difamada, e isto não se deve ao acaso: o pensamento é político. Daí a luta insidiosa, cada vez mais eficaz, hoje mais do que nunca, contra o pensamento. Contra a capacidade de pensar.”

Interessante também a reflexão de Nick Cave sobre o “politicamente correcto” que comparou com os piores aspectos de uma religião designado-a mesmo como a” religião mais infeliz do mundo”.

E quando falamos de religiões, mesmo que seja na abordagem feita pelo músico australiano, não é despiciendo sermos encaminhados para caminhos que nos levam para os fundamentalismos que concorrem sempre para o enfraquecimento da democracia.

Democracia, liberdade e pensamento é uma triologia que deverão andar sempre de mãos dadas.

Estando em causa a liberdade ou o pensamento não duvidemos que a democracia está simultaneamente também colocada em causa.

Não podemos cair no erro que estas três conquistas são dados adquiridos. Estão sempre em risco e sob ameaça. É suficiente olhar para a história da Europa do século XX.

O “politicamente correcto” instituído, ao longo das últimas décadas, que tem tomado conta da sociedade contemporânea não é mais que uma arma poderosa, enquadrada na problemática da globalização, contra o pensamento e a liberdade individual de cada cidadão.

E sendo uma arma usada contra o pensamento e a liberdade obriga-nos todos, mais do que nunca, a estarmos mais vigilantes sobre o caminho que vão trilhando as democracias.

Paulo Vieira da Silva

Gestor de Empresas / Licenciado em Ciências Sociais – área de Sociologia

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

 

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One Comment

  1. Tem razão. Não há nada mais perverso que a hipocrisia do politicamente correto.
    Estes hipócritas grassam pelos jornais, programas televisivos, mas principalmente na política.
    Fico-me por aqui.

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