Uma Fatwa pela Paz no mundo islâmico

 

Lahore, PakistanMuito se tem escrito, opinado, julgado e condenado sobre os actos terroristas e esse é e deve ser o procedimento. No entanto, o que me choca é ver que as pessoas só se manifestam em escala quando os ataques têm lugar na Europa como se os Seres Humanos do restante Planeta merecessem ser mandados pelos ares sem dó nem piedade. Quando os ataques são no Paquistão ou em qualquer País africano, poucos são os que se comovem, os que comentam, os que se manifestam ou sequer sentem alguma empatia.

Já há muito que penso abordar este tema não de uma perspectiva emocional mas racional. Sempre que se fala neste assunto, imediatamente se levantam as seguintes questões: os EUA e a França como guardiões das boas práticas e da Segurança mundial, a questão de que todos os muçulmanos são terroristas e a questão que se prende com qual melhor forma de parar os grupos terroristas.

À primeira questão é fácil responder: os EUA e a França entendem ser os guardiões porque são quem mais lucra na retaguarda e não querem perder essa vantagem competitiva.

À segunda questão, a resposta é claramente não e foi precisamente o facto de ter sido adoptada uma decisão conjunta que hoje me trouxe a este tema.

Por último, a melhor forma de parar os vários grupos terroristas que se auto-proclamam Estados ou que actuam por esse Mundo fora em nome do Islão, é simples: a asfixia financeira e posterior erradicação. Se é fácil? Não, de todo mas enquanto os ” guardiões das boas práticas e da Segurança” os continuarem a alimentar para através deles cumprirem a sua agenda geopolítica, a tendência é de crescimento e não de desaparecimento. Note-se que na Síria quando a Rússia resolveu finalmente intervir, as coisas acalmaram e que não se ouvem noticias a respeito de ataques perpetrados pelo Daesh. Eu prefiro trata-lo assim porque segundo li, esta é uma forma depreciativa de o apelidar ao invés de auto-proclamado Estado Islâmico, ISIS ou outra qualquer denominação. Ora como eu não tenho qualquer respeito por algo que só se assemelha a mim por partilhar a mesma forma humana que eu e que não hesitaria em me mandar pelos ares porque a sua frustração ou cegueira religiosa assim ditava, para mim é Daesh. E faço a separação com a Al-Qaeda pois essa tinha objectivos definidos e era um “Estado” organizado.

É de notar no entanto que quer a “antiguinha” Al-Qaeda quer o Daesh sempre actuaram pela via da violência em várias partes do Globo mas só ficaram conhecidos depois do “atentado” do 11 de Setembro. Perdoem-me as vítimas pelas aspas mas essa estória para mim continua muito mal contada.

Sendo assim, na minha visão, se lhes fosse cortado o financiamento e o fornecimento de armas e lhes fosse feita uma guerra cibernética sem precedentes, eles acabariam por asfixiar e as células que por aí andam seriam mais fáceis de encontrar e controlar porque a falta de meios tem a tendência de nos deixar nervosos e nos levar a cometer erros. Se bem que me parece que as autoridades sabem bem quem eles são e onde estão mas por alguma razão que só eles conhecem deixam-nos andar até não haver nada a fazer e depois temos o pânico instalado.

Portanto, foi com muita felicidade que hoje tive conhecimento de que na Índia, cerca de 70 mil clérigos que participaram no Festival Urs emitiram uma Fatwa que foi apoiada por quase 1.5 milhões de muçulmanos que participaram no protesto. Uma Fatwa é uma espécie de sentença de morte que neste caso visa os terroristas que matam em nome de Alá. As Fatwa podem ser emitidas por um especialista na Lei religiosa, um clérigo ou um Mufti (académico muçulmano a quem é reconhecida a capacidade de interpretar a Lei religiosa) e tem o peso de um pronunciamento legal. Os leitores devem lembrar-se da Fatwa que o Ayatollah Ruhollah Khomeini levantou contra Salman Rushdie aquando dos Versos Satânicos em 1989 que escandalizou o Mundo.

Eu concordo em absoluto com esta Fatwa e se é a forma que o mundo muçulmano tem de se demarcar de todos estes loucos que usam a Religião e o nome de Alá para matarem a soldo, então seja. Os muçulmanos não têm todos de pagar pelos erros de alguns nem têm que ser todos conotados com o Terrorismo. Há com toda a certeza bons pais, boas mães e bons filhos que seguem os preceitos do Corão de forma pacifica e amigável. Imaginem se todos os Cristãos estivessem a ser eternamente crucificados pelas Cruzadas. Impensável, não?

Há que distinguir as coisas. Se me perguntarem, eu não acho que haja uma forma pacifica de resolver um extremismo ainda mais quando ele é financiado por governos e particulares com interesse em criar guerras em regiões estratégicas mas também não concordo que paguem todos pelo erro de uns.

Posto isto, aqui ficam os meus parabéns a este grupo de corajosos que finalmente tomou uma atitude e “separou as águas”. Espero que os restantes muçulmanos que comungam da mesma crença não hesitem nem demorem a juntar-se-lhes.

Luisa Vaz

(A autora não usa o Acordo Ortográfico)

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