Tempos novos, vícios velhos

Tive ocasião de, nestas últimas autárquicas, fazer parte de uma lista candidata a um dos órgão municipal. Já não o fazia há uma série de anos porque não me identificava com as posturas do PSD local, lá é mesmo PSD, o PPD só agora é que vem ressurgindo aos poucos.

Nestas eleições, para além das candidaturas naturais dos Partidos haviam três candidaturas independentes das quais só uma vingou tendo sido vencedora em quase todo o Concelho. Essa candidatura, habilmente dissidente do PS local consegui congregar votos à Esquerda e à Direita e tal aconteceu apenas porque os militantes do PSD resolveram fazer uma leitura diferente do cenário local. Viram nessa candidatura uma forma de se “vingarem” do Poder que lá havia vigorado durante as últimas décadas deixando cair o seu candidato, o seu projecto e as suas equipas. Olhando mais para a sua agenda pessoal do que para a de todos os habitantes do Concelho.

Se há 4 anos o PPD/PSD perdeu efectivamente as eleições autárquicas, tal aconteceu pela má escolha dos candidatos em quem nem os militantes nem a sociedade civil conseguiram encontrar pontos de convergência mas este ano foi diferente. E foi diferente porque ao contrário do que foi dito e que levou à saída do Dr. Pedro Passos Coelho, o PPD/PSD conseguiu mais 30 mil votos do que no sufrágio anterior colocando o PCP com cerca de 69 mil votos perdidos como o único derrotado daquela noite eleitoral. É por estas e por outras que há muito defendo uma higienização interna que tarda em aparecer.

No entanto, quem os militantes e os cidadãos crucificam é o Dr. Pedro Passos Coelho e isto acontece porque as pessoas insistem em permitir que a comunicação social continue a colar-lhe rótulos.

Desde neo-liberal a outros chavões cuja maioria não sabe sequer o que significam, os portugueses insistem em querer esquecer que ele governou com um severo Programa de Austeridade que ele não negociou nem assinou e enquanto este acordo parlamentar continua a criar a “ilusão de riqueza” nas pessoas ele é que passa por austero e por ter “tirado o ar às pessoas”.

Quando se propôs a implementar o Memorando, Pedro Passos Coelho assumiu querer cortar 2/3 do lado da Despesa (o lado do Estado emagrecendo-o) e 1/3 do lado da Receita (contribuintes) mas tal não foi possível porque o agora mudo e quedo Tribunal Constitucional não deixou insistindo que as regalias de que auferem os Funcionários Públicos são direitos adquiridos e protegidos pela Constituição da República Portuguesa, sendo por isso invioláveis. Passos Coelho não tinha outro caminho para sanar as Finanças Públicas e travar o descalabro mas disso a História rezará mais tarde.

Ainda assim e por mais que canse e haja quem não goste de ouvir, ele ganhou as eleições e só uma habilidade de bastidores fez com que o actual quadro parlamentar fosse possível. Não que seja ilegal ou inconstitucional mas é amoral que não governe quem ganha efectivamente as eleições. Há quem acuse Passos Coelho de ter um discurso catastrofista mas esquecem-se esses que se não fosse o Turismo e o beneplácito de o BCE ainda não ter mudado a politica das taxas de juro, já estavamos em bancarrota há muito e estaremos dentro de pouco tempo. Passos Coelho disse a verdade e traçou cenários com as informações que tinha.

Passos Coelho queria, já mesmo sem o enquadramento da Troika, reformar o Estado e o país e devia tê-lo feito porque um Estado que não cria riqueza e no entanto suporta mais de 75% da população não consegue ser muito saudável. Passos Coelho ensinou-nos a importância de poupar mas os portugueses não gostam que lhes digam que não são ricos ou que não podem gastar o que lhes apetece que alguém há-de pagar. Gostam é que se lhes dê mais €7 por agregado familiar para eles começarem a desbaratar o que têm e o que não têm.

Passos Coelho, para gáudio de muitos principalmente os que queriam manter o status quo e agora apoiam Rui Rio acabou por ceder à pressão e sair. Lamentavelmente foram muitos os que celebraram imbuídos na ilusão de que tudo está bem, que não era preciso austeridade para nada e que “o dinheiro cai das árvores”esquecendo-se naturalmente que se hoje há dinheiro foi graças ao que ele fez. Pode-se gastar muito para ganhar eleições e manter os sindicatos de voto mas a austeridade só mantém os votos daqueles que a percebem e que não querem ver novamente o país num pântano, cheio de dívidas e com a soberania ameaçada como já aconteceu por três vezes nos últimos 43 anos.

É hora de deixar de olhar para trás e planear o futuro, dirão muitos e dizem bem mas não é possível pensar o Futuro se no Presente não tivermos consciência do nosso Passado. E que Futuro? Andar a reposicionar o PPD/PSD andando toda a gente a querer trazer Sá Carneiro, que eu muito prezo e respeito do além mantendo as mesmas múmias coladas ao aparelho? E tendo já os seus sucessores criados e prontos a avançar quando ceder o mínimo espaço? Como pode Rui Rio apresentar uma candidatura credível quando está suportado por todos os barões e baronesas socialistas que nunca se deviam ter filiado no PPD/PSD ou que já há muito deveriam ter sido expulsos uma vez que não têm a hombridade de sair pelo seu próprio pé? Dá muito jeito ser acarinhado pela comunicação social para ir dizer mal do Partido e fazer cair os líderes incómodos sempre a coberto do chapéu-de-chuva do Partido, não haja dúvida.

Santana Lopes, numa missão que quase pode ser apelidada de patriótica entra na corrida para a liderança. Granjeia apoios no Partido e na sociedade civil mas sabemos que tal como Passos Coelho, despreza essa pesada herança (ainda) viva. Eu sou das pessoas que mais defende os mais velhos, que os considera uma fonte de inspiração e sabedoria mas pajear esta corte que apenas contribui para os erros sistemáticos que o país comete e para a manutenção do status quo de alguns já me parece um pouco de mais.

O PPD/PSD precisa de se aproximar das bases e da sociedade civil sim. O PPD/PSD é um Partido de centro que pode estar mais à Esquerda ou mais à Direita consoante a liderança seja mais liberal e reformista ou mais conservadora e estatista e como me identifico mais com a primeira, identifico-me por consequência com Pedro Passos Coelho e com Pedro Santana Lopes, não gosto daqueles que mantêm o Partido no obscurantismo, que não deixam “os novos” e não necessariamente os jovens afirmarem-se por força das ideias e dos projectos. Não gosto dos que manietam o diálogo e dos que não gostam de falar de Politica pura, de ideias e ideais. Não gosto dos que são alérgicos a reformas e mudanças.

O PPD/PSD tem que se refundar sim mas não é na ideologia, é nos comportamentos. Não tem que esperar um líder qual Messias que venha “limpar o Partido” e “por a casa em ordem”. Cada um de nós tem obrigação de o fazer, se cada um limpar a sua Concelhia, juntos limpamos o Partido mas para isso é preciso deixar de ter medo de títulos ou estatutos, de tipos que fazem ameaças ou as promessas que queremos ouvir. Queremos trabalhar num organismo público? Concorremos e sujeitámo-nos às regras em vez de andar a oferecer o nosso sindicato de votos a troco de um lugar num qualquer sítio onde se ganha sem se fazer nenhum.

Gente honesta, competente, trabalhadora, isenta e digna precisa-se com carácter de urgência e ela existe. Assim a deixem aparecer, fazer o que tem que ser feito para depois se poder trabalhar. É impopular, é difícile exige trabalho e carácter mas se querem um Partido melhor e se querem melhores políticos não se podem divorciar de fazer a vossa parte.

Eu estou à-vontade porque vou fazendo a minha. Mesmo que devagar. Mesmo que discreta pois nem para tudo é preciso um megafone.

 

(A autora não usa o Acordo Ortográfico)

 

Luisa Vaz

 

Gosto(2)Não Gosto(1)

Deixe Um Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *