O tempo, esse facilitador de mudança.

Acreditem, receei que durante a vigência do anterior governo o retrocesso do Sistema Nacional de Saúde (SNS) ao tempo da beneficência/caridade pudesse voltar.

Declaração de interesse: sou contra as instituições de solidariedade e voluntariado pelo facto de a grande maioria ser geradora de corrupção, não cumprirem com o conceito inicialmente vertido na palavra “beneficência” o de filantropia e sobretudo porque não proporcionam emprego real, também por servirem de bandeira a certo poder político para se desresponsabilizarem e desvirtuar da função do Estado Social uma das conquistas de abril.

Voltando ao tema a que me propus refletir:

Sou do tempo em que a Saúde era pobre, o que para a época era normal, enquanto criança também o SNS passou por este estádio de pobreza. Houve tempos, na sua fase de jovem, onde enriqueceu. Contrariando a normal evolução, na idade adulta, nomeadamente durante a vigência do último governo e devido às políticas liberais instituídas, não adquiriu a sua maior pujança. Atrevo-me a dizer que, caso se tivesse mantido o programado pelo mais liberal dos governos que o SNS conheceu, este nem chegaria à idade de velhice.

Quem mais utilizou o SNS foram os pobres que erradamente julgavam não pagar. O poder instituído fê-los acreditar que o Estado Social funcionava. Errado! Caso fosse verdade, há época, o franchising das instituições, intituladas de solidariedade, não crescia que nem cogumelos. Sendo estes os principais consumidores dos hospitais do serviço público e devido a estarem abrangidos por isenções, o financiamento fugia para o lado privado por via de…

…quem menos utilizava o SNS, os ricos, utilizando os subsistemas ou seguros de saúde, recorriam a instituições convencionadas. Este dinheiro ia financiar os grandes grupos que controlavam a Saúde. Grupos esses que se vangloriam de cobrar mais barato os seus serviços: à custa da precariedade profissional e dos carentes cuidados em saúde prestados.

Ironicamente a saúde também não era para pobres, não no sentido da oferta/procura, mas de cuidados de excelência porque este bem não lhes era oferecido na sua plenitude, nem em recursos materiais, nem, sobretudo, em recursos humanos.

O facto de se trabalhar em condições miseráveis, felizmente agora menos, incomoda. Não é por causa da miséria que a natureza perspetiva, mas porque os donos das instituições que regulam os povos utilizam como slogan “um modo de viver não nos permitindo decidir se o queremos ou não viver”. Assim se ganham fortunas e se controla o valor dos seus bens, neste caso, o bem Saúde.

A palavra miserável caso não sobressai-a leva-nos a (não) pensar em pessoas frágeis, dependentes, não reativas, que após permanente contacto com esta realidade deixam-se ficar numa letargia tal que o modo sobreviver prevalece ao modo viver.

Nestes cerca de 40 anos do SNS, esta miséria tornou-se mais observável devido ao tempo facilitador de políticas em que os números prevaleciam em relação às pessoas, consequência das políticas de direita ter por prática não só do ponto de vista semântico, a palavra miséria engrandeceu ainda mais na sua “miséria”. Passou a ser um produto intencionalmente manipulado por essa sociedade liberal em que vivíamos, que utilizava esta artimanha para se impor perante os seus cidadãos.

Não sendo dogmático militante, antes pragmático praticante dentro do dogmatismo próprio das instituições, considero que ainda não estamos bem. Sabendo que a existência de ciclos é fundamental, por serem impulsores de términus e inícios de tempos de facilitador de mudança.

Atento e observador de factos provados, atrevo-me a dizer que atores políticos, em alguns países chamados de Sociais-Democratas em outros de Socialistas, têm mais em conta o Colectivo em prol do Individual contrariando assim os encenadores das grandes e complexas peças, os Liberais.

Dito isto, várias vezes me questiono, onde estão os valores dos “maios de 68” ou os mais globais e abrangentes do não menos importante “abril de 1974”? Onde está a reatividade que nos é inata? O nosso património genético está a ser amarrotado, amordaçado pelos valores adversos deste meio ambiente inóspito criado para que continuemos somente a estar em vez de ser. Permito-me responder, os valores estão nos poucos “Eu’s” que por aqui vadiam e vagabundeiam mas de forma já muito ténue.

Espero que o tempo da saúde para os pobres, com a indecência de que a sociedade nem sequer é pobre, comece a desmoronar-se, fruto do já notório bem-estar bio-pisco-social e económico proporcionado pela atual maioria governativa.

É necessário tratar de desmistificar o Papão criado pelo anterior governo sob a égide de que estávamos num processo de resgate e que fez com que o SNS corresse um enorme risco de morrer, pois a falácia que esse Governo nos andava a vender, e que muitos de nós compramos, era perversa. O dinheiro que nos é muito caro estava a passar para as mãos dos privados. Nada contra se realmente usar o privado significar pagar com dinheiro individual.

Como nem questionamos a qualidade em cuidados de saúde, não é que erradamente acreditamos no que nos dizem?

Gostaria de vincular ao meu texto o que ouvi e posteriormente li do atual ministro Dr. Adalberto Campos Fernandes em setembro de 2015, “Nos países desenvolvidos, de uma forma geral, os Estados desenvolveram diferentes modelos com o objetivo de garantir as respostas em saúde mais adequadas aos cidadãos.

 

 

 

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5 Comments

  1. SNS = Serviço Nacional de Saúde, diferente de Sistema Nacional de Saúde. É um erro comum, mas que convém expurgar na sua génese porque inquina, logo à partida, as discussões que se pretendem construtivas.

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  2. Com o devido respeito pelas opiniões contrárias , custa-me ver o SNS tratado de uma forma tão ideológica e tão contrário ao que se encontra nas sociedades democráticas . Esta forma de ver só gera mecanismos estáticos que , esses sim, poderão contribuir para a sua auto destruição. O autor teria toda a razão se vivesse numa sociedade totalitária em que tudo tem que estar na posse do Estado . Mas essas sociedades faliram sem prestar melhor saúde aos seus cidadãos - mesmo Cuba muito citada como exemplo.
    Serviço Nacional de Saúde não é necessariamente colocar o Estado como prestador de todos os cuidados de saúde. É sim uma garantia que o Estado oferece aos seus cidadãos de acesso universal e tendencialmente gratuito .
    Não pode retirar ao cidadão a liberdade de escolher, nem ao tecido empresarial ou social, a possibilidade de poderem prestar cuidados de saúde. Assim é na generalidade dos países onde funciona o Estado Social. Aliás a concorrência , devidamente regulada e auditada , só é salutar e pode funcionar a favor do cidadão.
    É sabido, e não pode ser negado por ninguém, que a atual prestação pública está parasitada pelos mais diversos interesses, muitos antagónicos e incoerentes , que a paralisam e lhe retiram eficiência, quando não qualidade.
    Os prestadores privados também têm fragilidades que o Estado , aí sim, devia auditor e intervir, mas são indubitavelmente mais eficientes e voltadas para os doentes do que para a organização. Daí estarem a ter uma procura crescente . A ADSE ,só existe porque o setor privado produz melhor e mais barato, pois se fosse o setor público o prestador ,estaria falida.A generalidade dos seus beneficiários preferem fazer o desconto de 3,5% do que deixarem de ser beneficiários.
    O Estado nada transfere para o setor privado a não ser para pagar os serviços que este lhe presta a preços bem inferiores do que os praticados pela tabela do SNS
    Todos os Países do mundo (a China está cheia de Hospitais privados ) têm hospitais privados - na Alemanha e França são mais de 50% e não consta que estes países têm um mau sistema de saúde.
    Quanto ao dinheiro que se gasta com a saúde e que o Orçamento Geral do Estado lhe dedica , só pode acontecer em bons níveis, se o País crescer e criar riqueza - não é sustentável através dos empréstimos que pedimos.
    Há áreas que precisão de nítido reforço financeiro como a prevenção , os cuidados paliativos e continuados.
    Infelizmente, também há muitos desperdícios Há vários hospitais do SNS onde o índice de abstenção é de cerca de 20% o que quer dizer que num hospital de grande dimensão faltam por dia cerca 800 funcionários.
    Devemos lutar todos pelo direito à saúde e o acesso universal, mas para ser efetivo e face ao atual estado de degradação de muitos hospitais públicos onde não há investimentos ( pior que no tempo da Troika) é preciso aumentar o investimento público pois, caso contrário , as listas de espera vão aumentar e a desmotivação dos profissionais vai ser crescente.
    Como foi salientado, por Jaime Marques, devemos defender um Sistema nacional de Saúde e deixar a ideologia para a discussão da sociedade que queremos . O Sistema de saúde tem que ser compatível com esse modelo de sociedade. Numa sociedade coletivista , é evidente que os meios de produção pertencem ao Estado e será coerente que a Saúde também o seja.

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    • Caro Artur Osório Araújo permita-me que lhe responda citando um grande senhor que saberá um pouco mais que nós no que conserne a Saúde.
      O financiamento [do SNS] é deficiente, mas sobretudo é preciso recriar as [suas] carreiras profissionais como carreiras de função pública", fazendo com que "haja uma carreira tendencialmente de exclusividade", disse António Arnaut. "A sustentabilidade do SNS não está no seu orçamento, mas no modo como são respeitados e motivados os seus profissionais", que devem, "não de forma obrigatória", poder "optar pela exclusividade", mas "dando-lhes boas condições de trabalho e condições dignas de remuneração", sustentou Antonio Arnaut aqui https://www.publico.pt/2017/01/28/sociedade/noticia/antonio-arnaut-quer-profissionais-de-saude-com-carreira-identica-a-magistratura-1760006

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  3. O Sr. revela uma enorme ignorância ao desconhecer que as IPSS garantem empregos reais e muitos com contratos de trabalho sem prazo. Misturar o voluntariado neste bolo é incorrecto. Na minha perspectiva são necessárias qualificações para prestar uma ajuda útil a quem dela necessita e no voluntariado cabe tudo. Basta querer porque fica bem e dá no que dá. E para ajudar os pobrezinhos, por exemplo, que têm quase nada, qualquer coisa serve. Ainda à alguns meses um mediático sacerdote e prior, felizmente agora já reformado, pedia na igreja: não têm em casa umas coisas velhas, de que não precisem, para oferecer?
    Valha-nos Deus...

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