Je ne suis pas latrina

Esta semana tenho passado metade do meu tempo das consultas a tranquilizar os pacientes sobre a qualidade da cirurgia feita no Centro Hospitalar Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNGE).

Os últimos acontecimentos geraram na população alarme social, inquietação e duvida que impactam negativamente na eficácia do acto médico.

Desde 2003 tenho feito, como tantos outros colegas, neste hospital cirurgia de primeiro mundo com resultados de primeiro mundo, e que aliás tenho divulgado com orgulho pelas mais diversas latitudes.

Sei do que falo pois já trabalhei por longos períodos em Glasgow, em Paris e nos EUA, e não ficamos atrás. Verifico também com agrado que a qualidade de todos os profissionais de saúde deste hospital é sublinhada por todos os médicos estrangeiros que têm vindo aprender comigo.

Claro que as estruturas estão depauperadas, e não é uma falta recente mas de anos, mas o corpo clinico e assistencial do hospital são da melhor qualidade a nível nacional. Até por isso deveria ser dado ao CHVNGE um estatuto e um orçamento de paridade em relação aos demais hospitais do Grande Porto.

É nessa luta que todos devemos estar empenhados, e não em servir os torpedos que olham para hospital como uma coutada fácil de anexação por outros hospitais ou como palco de lutas politico-partidárias ou de projectos pessoais.

Estamos no CHVNGE para servir os doentes.

Óscar Alves

Médico Neurocirurgião

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A minha intervenção na apresentação do Livro SALVAR O SNS.

Sem qualquer tipo de saudosismo sou do tempo em que a Saúde era pobre, o que para a época era normal. Enquanto criança também o SNS passou por este estádio de pobreza. Houve tempos, na sua fase de jovem, em que enriqueceu. Contrariando a normal evolução, na idade adulta, nomeadamente durante a vigência do último governo e devido às políticas liberais instituídas, não chegou a atingir a pujança expectável. Pensava eu de que, caso se tivesse mantido em funções o mais liberal dos governos que o SNS conheceu, este nem chegaria à idade da velhice. Errado! O Serviço Nacional de Saúde está a desmoronar-se. Estranha-me a passividade com que o “governo das esquerdas”, liderado pelo Partido Socialista, deixa a sua jóia da coroa entrar em morte lenta.

Certo que nos dizem que repor em 2 anos o que não foi investido e até mesmo retirado em 4-6 anos não é possível. Não sendo dogmático militante, antes pragmático praticante dentro do dogmatismo próprio das instituições, considero que mais já poderia ter sido feito. Há que priorizar para termos cidadãos satisfeitos e produtivos deve ter-se em conta 4 pilares que o estado não deve descuidar:

A saúde, a educação, a segurança e o estado social.

O estado a que o SNS chegou deve-se sobretudo à criação de taxas moderadoras, baixo rendimento dos cidadãos e sobretudo o baixo investimento por parte dos governos anteriores levando ao aparecimento de dois tipos de utilizadores:

Os que mais utilizou o SNS, os cidadãos com menos poder económico que, erradamente, julgavam não o estar a pagar e, por isso, não exigiam maior qualidade. O poder instituído fê-los acreditar que o Estado Social funcionava. Por serem estes os principais utilizadores dos hospitais do serviço público, e devido a estarem abrangidos por isenções, viam o financiamento fugir para o lado privado por via de…

…quem menos utilizava o SNS, os cidadãos de maior poder económico, que, recorrendo nomeadamente aos subsistemas ou seguros de saúde, acorriam a instituições convencionadas. Este dinheiro iria financiar os grandes grupos que controlavam a Saúde. Grupos esses que se vangloriam de cobrar mais barato pelos seus serviços: à custa da precariedade laboral dos seus profissionais e dos deficitários cuidados de saúde prestados, pois para o utilizador o que mais importava eram as condições, sobretudo hoteleiras, e, neste tempo “grande velocidade”, priorizar o rápido atendimento.

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SNS – Um país de loucos ou a historia trágica de um Centro de Saúde

PRIMEIRO ATO | A minha mãe, 84 anos, tem tendência para desenvolver ulceras varicosas. A ultima agravou-se ao ponto de ter que consultar o medico de família no Centro de Saúde de Miranda do Corvo, que prescreveu penso bissemanal.

A minha mãe, apesar da idade, da mobilidade reduzida, de viver cerca de 8 km do Centro de Saúde e de auferir uma pensão de reforma inferior a 300 euros/mes, não teve direito a ser tratada no domicilio e teve que se dirigir ao Centro de Saúde, duas vezes por semana, a expensas próprias (15€/viagem de táxi).

Ao fim de um mês de tratamento as feridas apenas tinham piorado apresentando até um cheiro desagradável, sem que por parte da “equipa de saúde” fosse tomada qualquer iniciativa alternativa.

A alternativa, face ao agravar da situação clínica, foi consultar um especialista privado, que prescreveu penso DIÁRIO, feito de forma diversa (usar apenas “betadine” em vez das pomadas/cremes anteriormente usados, por exemplo).

Obviamente que o tratamento teria que ser feito no Centro de Saúde que manifestou impossibilidade prática (apesar da minha reclamação) de o fazer no domicilio, por falta de recursos (!), apesar da evidente dificuldade física, alem da material, da doente se deslocar ao Centro de Saúde.

Mais uma vez a minha mãe teve que se “arrastar” e pagar as deslocações até ao Centro de Saúde.

Felizmente o problema resolveu-se em duas semanas.

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Alice no País dos Idiotas

Alice caiu no buraco… mas foi uma queda longa, de 2 semanas.

Durante 2 semanas o país esteve na eminência de se tornar uma ditadura moral, onde quem não se vacinasse seria enviado para um iceberg de 10 por 10 em pleno Alasca.

Tudo por causa de um bebé de 13 meses que infectou uma jovem de 17 anos que acabaria por falecer. Ora, a primeira toma da vacina é aos 12 meses e aparentemente o bebé não estaria em condições para receber a vacina quando tinha 12 meses. Portanto, um mês de dilatação no tempo, justificada. Tudo perfeitamente normal. Já a jovem, não teria sido vacinada na sequência da recomendação de um médico que, face à reacção anafiláctica da jovem perante outra vacina, considerou que não seria adequado vaciná-la. Tudo perfeitamente compreensível à luz do senso comum.

Não obstante toda esta normalidade, conseguiu-se “injectar” na sociedade portuguesa uma discussão sobre a obrigatoriedade da vacinação mais profundo que o tido relativamente às reformas impostas pela União Europeia.

A quem interessa esta discussão, para criar tal nível de spinning com alicerces tão frágeis? 

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FALAR CLARO EM SAÚDE

Muito se tem falado da necessidade de um pacto institucional, entre os partidos, para a saúde. Aparentemente, todos estão de acordo que este deverá ser para um período alargado de anos, compreendendo várias legislaturas. Esta seria uma forma de manter uma linha orientadora coerente para a próxima década, permitindo a todos os envolvidos saber o que poderiam esperar e como se deviam comportar nesta área tão sensível para os nossos cidadãos.

Outro assunto que parece consensual e que ocupa os nossos dirigentes da área da saúde é a maledicência relativamente aos seus trabalhadores. Esta tem sido relativamente transversal aos sucessivos ministérios, particularmente quando se fala dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) – lançam-se dúvidas e insinuações sobre o seu profissionalismo e a sua ética, dizem-se meias verdades e fomenta-se, na população em geral, a descredibilização desses profissionais. Os objectivos desta forma de actuação não são, de todo, claros. Qualquer empresário sabe que para ter os seus profissionais a produzir mais e melhor deve pagar bem e, mais importante, sobretudo se a primeira premissa não for possível, conceder-lhes formas de realização profissional e pessoal e prestar-lhes o devido reconhecimento, para que trabalhem muito mais do que se lhes é exigido (falamos de quantidade) e, especialmente, que tenham gosto na hora de produzir (falamos de qualidade). No SNS assistimos exactamente ao oposto destas boas práticas, esperando que os profissionais de saúde não reajam de forma avessa às variadíssimas formas de desincentivo ao trabalho.

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Estarão em causa a formação e a investigação científica em saúde?

Quando uma lei requer múltiplos esclarecimentos e interpretações sobre o seu significado, indica que se trata de uma má lei. E quando uma lei é má, deve ser rapidamente revista, para não colocar em causa os projetos e a vida dos cidadãos por ela abrangidos.

O Ministério da Saúde promulgou há alguns dias um decreto-lei em que, a propósito dos princípios gerais da publicidade a medicamentos e dispositivos médicos e do princípio da transparência, insere um artigo (art. 9º) em que proíbe os estabelecimentos e serviços do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de receberem directa ou indirectamente benefício pecuniário da indústria farmacêutica que possa vir a afectar a isenção e imparcialidade. Acresce, ainda, no seu parágrafo 3, que “as acções de natureza científica ou outras (sublinhado do autor)(…) não podem possuir carácter promocional, nem ser patrocinadas por empresas (…) vendedoras de medicamentos(…).”

Este articulado vem afectar directa e gravemente as iniciativas de formação contínua de TODOS os profissionais de saúde do SNS, colocando-os em desvantagem face aos seus colegas da medicina privada. Dificulta imenso a divulgação científica e dá azo a que se criem formas menos claras de se organizarem os eventos científicos pelos serviços do SNS, que têm brio nas suas organizações científicas e que acreditam que devem ter um papel activo na formação contínua dos seus profissionais. Penso que o Sr. Ministro da Saúde consegue, com esta lei, criar mais alguns, para juntar aos já inúmeros obstáculos que desanimam os (cada vez menos) resistentes do SNS e levá-los ou à saída do serviço ou a uma existência inerte e vegetante.

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O tempo, esse facilitador de mudança.

Acreditem, receei que durante a vigência do anterior governo o retrocesso do Sistema Nacional de Saúde (SNS) ao tempo da beneficência/caridade pudesse voltar.

Declaração de interesse: sou contra as instituições de solidariedade e voluntariado pelo facto de a grande maioria ser geradora de corrupção, não cumprirem com o conceito inicialmente vertido na palavra “beneficência” o de filantropia e sobretudo porque não proporcionam emprego real, também por servirem de bandeira a certo poder político para se desresponsabilizarem e desvirtuar da função do Estado Social uma das conquistas de abril.

Voltando ao tema a que me propus refletir:

Sou do tempo em que a Saúde era pobre, o que para a época era normal, enquanto criança também o SNS passou por este estádio de pobreza. Houve tempos, na sua fase de jovem, onde enriqueceu. Contrariando a normal evolução, na idade adulta, nomeadamente durante a vigência do último governo e devido às políticas liberais instituídas, não adquiriu a sua maior pujança. Atrevo-me a dizer que, caso se tivesse mantido o programado pelo mais liberal dos governos que o SNS conheceu, este nem chegaria à idade de velhice.

Quem mais utilizou o SNS foram os pobres que erradamente julgavam não pagar. O poder instituído fê-los acreditar que o Estado Social funcionava. Errado! Caso fosse verdade, há época, o franchising das instituições, intituladas de solidariedade, não crescia que nem cogumelos. Sendo estes os principais consumidores dos hospitais do serviço público e devido a estarem abrangidos por isenções, o financiamento fugia para o lado privado por via de…

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Uma alteração estúpida.

insonias-9-12-2016

A recente alteração do Acordo Colectivo da Carreira Especial Médica (Aviso nº 8746/2016, publicado no Diário da República, 2.a série, em 5 de agosto de 2016), determina o descanso obrigatório dos médicos que trabalham no Serviço de Urgência, depois de períodos de trabalho nocturno; este descanso deve ser gozado, obrigatoriamente, no dia seguinte ao do trabalho nocturno.

Durante mais de duas décadas sofri na pele (e a minha família também) as consequências físicas e emocionais de estar a trabalhar 30 horas seguidas, por vezes mais… Habituei-me a ver os meus Chefes e os meus Colegas a passar visita na enfermaria, a fazer consultas ou a operar no dia seguinte ao dia da urgência semanal, procurando entusiasmo e boa disposição no meio de muito cansaço, para que a assistência ao doente fosse feita com segurança e qualidade.

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