Senha – O que fizemos nós, liberdade?

O que fizemos de ti, liberdade? Como é que nos adulteraste a este ponto tão ridículo? Todos temos culpa, individual e colectivamente. Fomos e somos demasiado serenos. Não conseguimos sequer ser cívicos quando, no momento em que somos chamados às urnas, metade da população não vota. Somos um povo de brandos costumes. Somos um povo incapaz de sair à rua. Somos um povo com uma ortodoxia demodé ao nível de pensamento. Somos um povo que é agredido diariamente, comendo e comendo de boca calada. Somos diariamente sujeitos à pressão, à manipulação da verdade, ao tráfico de interesses, à luta incessante pelo poder. Somos um povo muitas vezes virado do avesso pelo próprio poder político, o poder a quem demos posse, livremente, quando nos entraste pela casa a 25 de Abril de 1974. Como é que voltamos a cair no erro de nos subjugarmos diariamente a grupos dominantes, sejam eles políticos, sejam eles financeiros? Porque é que nunca conseguimos aproveitar o teu comboio da esperança? Porque é que não conseguimos ser um povo capaz de usar a força da democracia para fazer evoluir este país para mais do que a miséria cultural que nos diariamente nos entra em casa? Errámos todos. Colectivamente. Errámos todos, individualmente.

Diz-me tu liberdade: porque é que espantámos temporariamente os nossos fantasmas para depois os deixarmos regressar, sobre outra forma? O aparelho de estado apenas mudou de figura. O bebedouro desse aparelho acaba por ser o mesmo: o estado. As carteiras do povo. Como os vampiros do Zeca. Eles fugiram e voltaram. Foram para o Brasil. Foram para os Estados Unidos. Passados uns anos, voltámos a chamá-los de volta. Estendemos a passadeira vermelha do poder e eles capitalizaram. Porque é que vendemos o país a saldos? Porque é que deixámos que os bancos nos tomassem de assalto? Porque é que deixámos que um banqueiro nos dissesse que o melhor era aguentar porque os outros, outros como nós, também aguentaram… Diz-me tu liberdade: como é que nos estrangulaste na mais cruel das passividades? Porque é que não honrámos a luta que foi realizada pelas centenas, pelos milhares que ajudaram a florescer aquele cravo que só é recordado uma vez por ano. Porque é que nos calámos, porque é que nos humilhamos diariamente. Qual é efectivamente o prazer que tiramos dessa humilhação, desse estado de servidão?

Diz-me tu liberdade: porque é que deixamos cair a soberania popular? Porque é que deixamos que gentalha do pior, esses Sócrates, esses Passos, esses Soares, esses Barrosos, esses Macedos, esses Montenegros, esses Portas, esses Salgados, esses Champalimauds, esses Ullrichs, esses Mellos, esses Limas, esses Lacerdas, esses Catrogas, esses Loureiros, no fundo, esses escroques que cirandam como abutres à beira do que é nosso, pudessem beneficiar do que é ganho pelo nosso suor, pelo nosso esforço, pela nossa vontade de querer ter um bocadito mais na vida do que efectivamente temos? Dá-me uma razão. Dá-me uma razão plausível para justificar a dignidade que nos tiram diariamente. Dá-me uma razão. Dá-me de uma vez por todas a verdade e eu prometo que em troca não te irei aborrecer mais.

Diz-me tu liberdade: como é que nos deixámos tornar escravos desses mesmos abutres? Como é que um país em que 25% das pessoas vive no limiar da pobreza, centenas de milhares de jovens não tem emprego, centenas de idosos vivem na mais pura da miséria depois de anos e anos de trabalho, em que outras centenas de milhares trabalham diariamente sob as mais abomináveis leis da precariedade e do trabalho remunerado ao custo de uma canja de galinha com arroz se deixaram dominar pela mais pura das letargias? Como é que pudemos eleger para a direcção de cargos políticos gente promiscua que usa o estado como se este fosse uma coutada pessoal ou uma coutada dos interesses para quem essa gente ao mesmo tempo trabalha?  Como é que podemos ter futuro, ter esperança quando somos sistematicamente amarrados e enforcados pelos interesses privados, pelos interesses europeus, pelos interesses de outros países que não o só? Quando é que finalmente jogaremos todos este jogo de acordo com os nossos interesses…

Diz-me tu liberdade. Em nome de Salgueiro Maia, de Otelo, de Spínola, de Costa Gomes, de todos aqueles que antes deles não se calavam, não aceitavam, lutando dia após dia contra um regime atroz, diz-me, diz-me de uma vez por todas onde é que a gente vai parar. Diz-me de uma vez por todas que um dia seremos um povo capaz de por todos esses malfeitores no sítio. Diz-me que Portugal irá finalmente cumprir os ideiais de Abril. Diz-me que um dia teremos um povo unido. Diz-me que um dia poderemos finalmente ser o que o Zeca cantava: o povo que mais ordena.

Urge fazer uma reflexão gigantesca sobre o rumo da nossa democracia. Urge reconstruir a ordem. Urge acima de tudo voltar a fazer um novo Abril.

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