A Rua de Santa Sophia e um FUTURO POR CUMPRIR

Gostava de vos falar de uma nova paixão. Uma paixão que tem nome.

Chama-se Sofia.

Não é uma mulher, é uma rua.

🙂

Uma rua fantástica, com história e um potencial fabuloso: A Rua de Santa Sophia, de Coimbra (atualmente, Rua da Sofia). É esse o tema do 7⁰ episódio do “E se…”, um programa que faço para o COIMBRA CANAL, com a realização de Rijo Madeira.

Mas qual é a história da Rua de Santa Sophia?

O rei D. Dinis criou em 1290 uma Universidade Portuguesa, dando origem a uma instituição que é hoje a universidade mais antiga do país e uma das mais antigas do mundo. O documento de criação da universidade dá origem ao Estudo Geral que é reconhecido nesse mesmo ano pelo Papa Nicolau IV. Essa Universidade começou a funcionar em Lisboa, mas foi transferida definitivamente para Coimbra em 1537 por ordem de D. João III. A vida da Universidade prossegue em Coimbra, com várias peripécias até atingir aquilo que é hoje: uma universidade internacional, clássica, com forte imagem em Portugal e no Estrangeiro, fruto do prestígio dos seus docentes, alunos, investigadores e da atividade científica e cultural que realiza.

Não é sobre a Universidade de Coimbra que vos quero falar, mas sim de uma das ruas mais antigas da europa e que esteve na génese da Universidade de Coimbra e é hoje património mundial da UNESCO: a Rua da Sofia.

A transferência da universidade portuguesa de Lisboa para Coimbra está relacionada com a necessidade de lhe dar um novo impulso. Os anos de funcionamento em Lisboa levaram a uma certa acomodação do corpo docente, não se desenvolveram colégios de apoio com a função de realizar estudos propedêuticos, como o rei esperaria que tivesse acontecido, o programa de estudos não estava alinhado com os vetores essenciais do humanismo cristão de vanguarda e existia uma grande quantidade de alunos portugueses que procuravam escolas estrangeiras para estudar, nomeadamente, Salamanca, Alcalá (uma pequena cidade situada a nordeste de Madrid), Bolonha, Florença, Paris, entre outras. D. João III, reconhecendo o problema, decidiu então criar em Coimbra um dos “grandes centros culturais da península”, transferindo para esta cidade, construída nas margens do rio Mondego, a universidade portuguesa.

O rei dispunha de importantes fundos financeiros para lançar o projeto universitário na cidade de Coimbra. Na verdade, tinha iniciado uma importante reforma (espiritual e material) do Mosteiro de Santa Cruz, nomeadamente da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho ou Cónegos Regulares da Ordem da Santa Cruz, libertando assim para sua gestão os abundantes rendimentos que estes geravam. Tinha nomeado em 1527 como reformador da respetiva congregação o frade da Ordem de São Jerónimo Frei Brás de Braga, com a missão suplementar de restaurar os Estudos do Mosteiro de Santa Cruz. Mandou vir de Paris dois Doutores, Pedro Henriques e Gonçalo Álvares, que gozaram de tal fama como professores que Frei Brás criou, no interior do Mosteiro, dois colégios: O Colégio de São Miguel (dedicado aos filhos dos nobres) e o Colégio de Todos os Santos (dedicado aos mais pobres). Mais tarde, em 1544, o Prior-Geral (D. Dionísio de Morais), mandou construir, no topo da Rua da Sofia (no local que é hoje o Centro de Artes Visuais e o Pátio da Inquisição), edifícios para os dois colégios, os quais seriam mais tarde (1547) requisitados por D. João III para instalar o Colégio Real das Artes e das Humanidades.

O Mosteiro de Santa Cruz desenvolvia vários estudos no seu interior, que no essencial são os embriões de um futuro estudo superior. Desempenham aqui papel importante os estudos públicos de artes que se iniciaram em 1534-35 e os estudos dos Colégios de Santo Agostinho e de São João Batista, instalados no interior do Mosteiro e para os quais se tentou um modelo à imagem da escola parisiense (limitados a estudos de Artes, Teologia e Medicina). A dinâmica do Mosteiro de Santa Cruz levou a pensar na construção de uma infraestrutura urbana para acomodar os estudos a criar junto ao Mosteiro. Foi assim que nasceu a ideia de uma rua nova, virada a norte, com início no Mosteiro de Santa Cruz, muito larga (13 metros) e cerca de 500 metros de comprimento, que tivesse colégios de um lado (nascente) e edifícios de rendimento do outro (poente). O desenho definitivo dessa rua ficou definido em setembro de 1535, depois de vária troca de correspondência entre D. João III, o reformador Frei Brás de Braga e o arquiteto do Rei em Coimbra, Diogo de Castilho.

Os planos iniciais para esta rua são os de aí realizar o essencial da Universidade, pois D. João III pretendia construir no início da rua um Colégio de São Jerónimo e um edifício letivo central. No entanto, quando em 1537 se transfere a universidade portuguesa para Coimbra parece haver uma mudança de planos: o Rei D. João III separa os estudos do Mosteiro de Santa Cruz da universidade, nomeando um Reitor (D. Garcia de Almeida) independente de Santa Cruz e definindo que o edifício sede já não se construiria na baixa. A preocupação era, talvez, a de preservar a autonomia da universidade.

Em setembro de 1537, o rei determina que as novas escolas gerais se instalassem na alta da cidade, fazendo, no entanto, algumas cedências ao reformador Frei Brás de Braga (pois dependia financeiramente do dinheiro gerado em Santa Cruz): a maior parte dos estudos instalavam-se nos paços reais da alta, enquanto que os estudos de artes e teologia ficavam em Santa Cruz.

O loteamento da Rua da Sofia começa em 1538, no que se refere à parte de prédios de rendimento e em 1541 no que se refere aos colégios. Avançariam vários colégios, dos quais podemos dar nota na atual Rua da Sofia. Mas antes disso, em 1544, com a nomeação do frade da Ordem de São Jerónimo Frei Diogo de Murça como reitor da universidade, deu-se início ao processo de unificação da universidade, transferida de Lisboa, com os estudos de Santa Cruz. Isso acontece em 1545, quando D. João III ordena que todos os lentes de medicina, teologia, artes e latim, mudem para os paços reais da alta.

Nessa altura, avançava a ideia de concentrar na alta da cidade os estudos superiores e na baixa os cursos propedêuticos/preparatórios de artes e humanidades. Uma ideia que reconvertia o projeto da Rua da Sofia, agradava a Frei Brás de Braga e tinha sido delineado entre D. João III e André de Gouveia, um docente muito prestigiado que dirigia o Colégio da Guiana em Bordéus e tinha sido reitor da Universidade de Paris. Assim, a Rua da Sofia deveria acomodar principalmente colégios de ordens religiosas que tinham especial interesse nesse tipo de estudos. Os colégios seculares que estavam então em fase de instalação foram transformados em colégios de ordens religiosas. Por exemplo, o Colégio da Graça, dos eremitas calçados de Santo Agostinho, iniciou a sua construção, com projeto de Diogo Castilho, em 1593.

O Real Colégio das Artes e das Humanidades, instalado nos edifícios dos Colégios de São Miguel e de Todos os Santos (local onde hoje é o Centro de Artes Visuais e o Pátio da Inquisição), iniciou-se em 1547 e era um edifício que deveria ter amplas salas de aula e albergar estudantes de vários estratos sociais. O ensino visava a formação moral e humanística dos jovens, sendo ministradas matérias como a teologia, dogmática, escrituras, gramática, retórica, poesia, matemática, grego, hebraico, lógica e filosofia, além de ler e escrever. O Colégio das Artes está na génese do atual ensino secundário. As aulas começaram em 1548, tendo registado um elevado sucesso com cerca de 800 alunos logo no primeiro ano.

No entanto, a existência do Colégio das Artes não foi pacífica por disputas internas de mestres parisienses e bordaleses. Na verdade, André Gouveia tinha sido nomeado para dirigir o Colégio das Artes, trazendo consigo uma equipa de notáveis professores portugueses e estrangeiros. De entre estes destacam-se João da Costa, Diogo de Teive, António Martins, George Buchanan, Patrick Buchanan, Nicolas de Grouchy, Arnaldo Fabrício, Guillaume Guérante e Élie Vinet. O contraste entre os princípios humanistas dos “bordaleses”, liderados por André de Gouveia, e a visão ortodoxa defendida pelos “parisienses”, liderados por seu tio Diogo de Gouveia, viria a provocar alguns atritos. Esses atritos tornaram-se muito sérios com a morte de André Gouveia em 1548, pelo que D. João III entregou, em 1555, a gestão do Colégio das Artes aos jesuítas. Estes tinham iniciado a construção do primeiro colégio jesuíta do mundo na alta da cidade (o Colégio de Jesus, onde funciona hoje o departamento de Ciências da Terra), pelo que transferiram, em 1565, o Colégio das Artes para um edifício a construir ao lado do respetivo colégio. Com esta mudança, a Rua da Sofia perde toda a sua funcionalidade, pois todos os cursos, superiores e intermédios, passam a estar localizados na alta da cidade.

Apesar disso, os colégios da Rua da Sofia que já tinham sido estabelecidos foram-se construindo, sendo possível encontrar ainda muitos deles na atual Rua da Sofia.

Colégio Novo de Santo Agostinho (atual Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação) – 29: apesar de não se situar na Rua da Sofia, tem um impacto visual muito significativo nessa rua (fica situado a meia encosta no extremo sul da rua).

 

Mosteiro de Santa Cruz – 31.

Antigo Colégio das Artes, Pátio da Inquisição, Centro de Artes Visuais – 21 (de João de Ruão e Diogo Castilho, 1547).

Colégio do Espírito Santo ou de São Bernardo, privado – 22 (Claustros de Miguel de Arruda, 1541).

Colégio do Carmo – 23 (1540)

Colégio da Graça- 24 (1543, Igreja e Claustro de Diogo de Castilho)

Colégio de São Pedro, atualmente uma casa de saúde – 25 (1540)

Colégio de São Tomás, onde hoje é o Tribunal de Coimbra – 26 (Diogo de Castilho, 1543)

Colégio de São Boaventura, privado e com espaços comerciais – 27 (1543).

Os Colégios de São Tomás, de São Boaventura e de São Domingos são os únicos que foram construídos do lado poente, como reflexo do fracasso da ideia original para a Rua da Sofia.

A extinção das ordens religiosas em 1834 acabou com a existência dos colégios. Os edifícios foram incorporados no património do Estado, sendo alguns deles vendidos para vários fins.

A história da Rua da Sofia, património mundial da UNESCO, é muito rica e está fortemente ligada à história da Universidade de Coimbra. Por isso, quando se discutiu a possibilidade de recuperar e revalorizar os Colégios da Sofia, num debate realizado em 1999, o então reitor, Fernando Seabra Santos, lançou a ideia de constituir na Sofia o Polo 0 da Universidade de Coimbra, transferindo para lá algumas valências universitárias. Essa seria uma forma de fomentar a gigantesca tarefa de dar um novo propósito à Rua da Sofia que, de alguma forma, recuperasse a ideia original de meados do século XVI.

Um bom exemplo, é o que tem sido feito no Colégio da Graça e que urge acelerar.

A Rua da Sofia merece, pela sua importância histórica, ser reabilitada, assim como os vários colégios que ainda existem. Faria também sentido que a sua história fosse mais visível, mais visitável e mais promovida. A história da universidade portuguesa está um pouco naquela rua, naqueles edifícios, na sua arquitetura e nas histórias que têm para contar. E se Coimbra pensasse na reabilitação histórica, monumental e funcional da Rua da Sofia, dando-lhe também uma dimensão turística relevante? Não se esqueçam que os edifícios do lado poente eram edifícios de rendimento, um propósito que pode também ser explorado transformando, de novo, a Rua de Santa Sophia num importante local comercial e económico da cidade de Coimbra. E se pensássemos nisso?

J. Norberto Pires
Universidade de Coimbra

Referências

1) Rui Lobo, A Universidade na Cidade, Tese de Doutoramento, Universidade de Coimbra, 2010
2) Rui Lobo, “A Rua da Sofia em Coimbra. Um património a repensar”, Revista Proyetar la Memoria, 2014
3) Site da Universidade de Coimbra: http://www.uc.pt/ruas/inventory/mainbuildings
4) Outros links referidos expressamente no texto.

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2 Comments

  1. Caro Prof. Norberto Pires:
    Desde há muito que nutro um grande apreço e consideração pela sua pessoa, devido ao que conheço melhor de si: a sua intervenção cívica.
    Pessoalmente, nem nos conhecemos, sou de muito mais a Sul e não tenho qualquer relação com Coimbra e a Universidade.
    Já manifestei o meu apreço noutros comentários aos seus posts e acho este com muita qualidade, a vários títulos:
    - a evocação histórica;
    - a dimensão de valorização patrimonial, cultural e de desenvolvimento local;
    - a projecção externa da Universidade e da cidade;
    - etc.
    Contudo, tenho um reparo a fazer-lhe: devia dar mais atenção à construção gramatical do seu discurso oral: evitar os modismos (ou bordões de linguagem),como, por exemplo, em termos de (pode abolir-se de todos os discursos, com grande ganho de clareza e de elegância do próprio discurso), e dar atenção aos verbos transitivos, que implicam que a acção tenha um alvo exterior sobre o qual se repercute e não sobre quem a produz.

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