Review à Amstel Gold Race e à Flèche Wallone

valverde

As míticas clássicas das Ardenas tiveram no domingo e hoje (quarta-feira) dois dos seus 3 capítulos. Na prova holandesa, a Amstel, prova corrida na região de Limburg que faz a separação entre as clássicas da primavera corridas em pavé e as clássicas de colinas, o veteraníssimo ciclista italiano de 34 anos Enrico Gasparotto espantou todos os fantasmas que abalaram a Wanty no último mês devido à morte do seu colega de equipa Antoine Demoitié no passado mês de Março no início deste trilho de clássicas na Clássica Gent-Wevelgem devido a uma queda provocada por uma colisão contra uma mota da organização. 

Na mítica Flèche Wallone, corrida na região da Valónia (Bélgica) Alejandro Valverde conseguiu no mítico muro de Huy (1300 metros de distância com uma inclinação de 9,6% – em alguns sectores de 17% a 26%) dinamitar toda a concorrência, fazendo história na competição ao ser o primeiro ciclista a alcançar as 4 vitórias na prova. Aos 35 anos, o espanhol distanciou-se de outros ciclistas que no passado tinham vencido a prova em 3 ocasiões como os belgas Marcel Kint e Eddie Merkx e os italianos Moreno Argentin e Davide Rebellin.

Começo pela prova disputada no domingo.

Não sendo, injustamente, considerada um dos Monumentos do ciclismo (os ditos 5 que perfazem as grandes clássicas da primavera: Milão-São Remo, Volta à Flandres, Paris-Roubaix, Flèche Wallone e Liége-Bastogne-Liège, prova que encerrará o capítulo das clássicas da primavera no próximo domingo) a Amstel Gold Race, prova que faz a transição entre a dureza do pavé e a dureza das provas de colinas de desnível acidentado da Bélgica, tem ganho nos últimos 10 anos uma enorme preponderância no calendário internacional pelas fabulosas e duríssimas inclinações (34 no total) que marcam o seu final, em especial a subida final ao Cauberg, uma inclinação categorizada nos arredores de Valkenburg que marca uma pendente média de 5,8% (não ultrapassando os 12% em alguns sectores) com a distância de 1200 metros. Um autêntico rasga pernas para os ciclistas pelas constantes inclinações que obrigam o pelotão a mudanças de ritmo repentinas e uma fadiga enorme no final da etapa para aqueles que tem aspirações à vitória. A estrada estreita apresentada ao longo da prova é também um factor de destaque visto que é um motivo que gera algum nervosismo dentro do pelotão. Como todos os candidatos querem chegar ao Cauberg bem colocados na frente do pelotão para lançar o seu ataque na subida final, a luta pelos lugares da frente é titânica nos últimos quilómetros da prova.

Numa prova que Alejandro Valverde decidiu não correr para melhor preparar aquilo que viria a fazer hoje na Flèche, cabia a Phillipe Gilbert tentar ser o primeiro ciclista da história a vencer a prova holandesa pela 4ª vez. O belga acabaria por baquear numa altura precoce da corrida em virtude dos problemas físicos que o tem limitado nas últimas semanas. Tendo partido 3 dedos da sua mão direita enquanto treinava devido a uma altercação mantida com um condutor quando treinava nas estradas em que se irá correr a próxima Liège-Bastogne Liège, uma das top stories que está a agitar o mundo do ciclismo nos últimos dias porque em primeiro lugar, o condutor estava presumivelmente bebedo e em segundo lugar, Gilbert admitiu que leva consigo gás pimenta para os treinos porque ultimamente considera-se alvo de uma perseguição nos sítios onde tem treinado sozinho e acompanhado por alguns colegas de equipa.

Disputada a um ritmo veloz, a corrida chegou aos últimos 60 km com um cenário de 4 ciclistas na frente (dos 4, destaque para Gianni Meersmann da Etixx) com cerca de 3 minutos de vantagem para um pelotão onde as quedas, motivadas pelos constantes bailados realizados pelas principais equipas nos designados comboios já se faziam sentir com a queda de um dos outsiders à vitória na prova, o francês Alexis Vuillermoz da AG2R, queda que levou o francês à desistência e de outros favoritos como Purito Rodriguez. O espanhol haveria de conseguir escapar incólume à queda tida a cerca de 60 km da meta, continuando em prova até ao seu final. Tiago Machado haveria de acompanhar o ciclista espanhol até ao Cauberg, lutando para colocar Purito em condições de executar a sua poderosa ponta final, facto que não veio a acontecer tanto na Amstel como na Flèche apesar de na Flèche, Purito, ter sido o primeiro a tentar atacar na parte mais dura da subida final.

Com a Sky no comando do pelotão ao longo de toda a prova, acompanhada aqui e ali por uma das interessadas à vitória final, a “confusa” Orica de Gerrans e Michael Matthews, equipa que tem andado sem rei nem roque durante o ano 2016 devido à enorme rivalidade que existe entre os seus chefes-de-fila (no final, Matthews e Gerrans haveriam de ironicamente se estorvar na discussão do sprint final, dificultando inclusive a vida ao nosso Rui Costa; Costa explicou no final da etapa que no sprint final decidiu tomar a roda de Gerrans pelo lado esquerdo porque acreditava que o ciclista australiano iria lançar o sprint por ali) foi ajudando em alguns momentos da perseguição, destacando-se o enorme trabalho feito pelo ciclista suiço Michael Albasini, ciclista que este ano tem demonstrado uma posição bem mais altruísta em prol da equipa do que é habitual visto que ele também é um ciclista que consegue finalizar muito bem as clássicas que terminam em ligeira inclinação.

A corrida esteve muito serena nos quilómetros finais. Com dois grupos de fugitivos em posição dianteira até bem perto da aproximação ao Cauberb, cabia ao grupo da frente, constituído por Van der Sande (Lotto-Soudal) Nicola Bonifácio (Trek) animar a frente da corrida ao mesmo tempo em que lá atrás, outra das principais interessadas à vitória final na prova, a Tinkoff dava mostras de querer pegar na corrida para preparar caminho para os seus principais candidatos Roman Kreuziger (vencedor da prova em 2013) e Michael Valgren, jovem ciclista dinamarquês que aos 24 anos, com o esforçado 2º lugar obtido na edição deste ano, perdendo apenas no sprint para Enrico Gasparotto, parece ser talhado para ser um dos principais favoritos à vitória nas 3 clássicas de colinas pela forma em como consegue posicionar-se muito bem na frente do pelotão na fase crucial das decisões e dos vigorosos ataques que faz. Contudo, no domingo, faltou ao jovem ciclista dinamarquês uma pontinha de potência nos últimos metros para levar de vencido um Gasparotto que é um ciclista fantástico nos últimos 300 metros.

A Lotto-Jumbo-NL seguiu-se à Sky na perseguição. Na ascenção ao Keuterberg, subida que antecede a penúltima das 4 passagens do Cauberg, já dentro dos 30 km finais, a Lotto-Jumbo-NL acelerou na frente do pelotão para fazer a natural selecção de uma corrida que também ela é uma prova por eliminação e para lançar um ataque que se seguiria por parte de um dos seus ciclistas de proa, Sep VanMarcke, ciclista que nas semanas anteriores se tinha evidenciado, como seria de esperar nas corridas do pavé. Não sendo tão forte nas corridas em colinas, o homem da equipa holandesa, a trabalhar para Gesink, decidiu por conta própria mexer com a corrida e levar consigo 2 homens bastante perigosos quando atacam com alguma distância para a meta: nada mais nada menos que o seu compatriota da Trek Jan Bakelants da AG2R e que o italiano Giovanni Visconti da Movistar. A Movistar tentava obrigar a Sky, a Tinkoff e a Katusha a desgastarem-se para porventura, na subida final, jogar a sua maior cartada para a prova Jon Izaguirre.

A mexida destes 3 homens fazia mossa lá atrás. Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) e Matthew Hayman (Orica), dois dos homens que se evidenciaram na Paris-Roubaix, prova ganha pelo australiano, ficavam para trás. O ciclista norueguês da equipa sul-africana, equipa que mudou de patrocinador no presente ano (recuperou os direitos desportivos da MTN-Qhubeka) haveria de conseguir recolar ao grupo principal numa fase adiantada da prova para depois voltar a perder contacto com o grupo dos favoritos. Naturalmente, o desgaste acumulado na Paris-Roubaix não seria superado pelo ciclista norueguês no espaço de uma semana que intermediou as duas provas. Na corda bamba, Phillipe Gilbert também se ressentia do facto de estar a correr com as limitações físicas que citei no início desta crónica, limitações que o impediam de correr com mais desenvoltura e agilidade, na medida, em que os três dedos partidos para além da natural dor que lhe deveriam provocar, não lhe permitiam correr na sua melhor postura e travar com maior rapidez. O belga acabaria por ficar logo ali arredado em definitivo da discussão da prova, juntando-se-lhe mais à frente o vencedor da edição de 2015, o polaco Michal Kwitakowski, principal figura da Sky para a prova.

Com a Orica na frente, a diferença para os homens da frente fixava-se à penúltima passagem pelo Cauberg em 40″. Contudo, a passagem pelo local do final da prova haveria de provocar novos ataques. O primeiro a testar as pernas dos favoritos foi Bob Jungels da Etixx, equipa que também tinha pretensões à vitória por intermédio de Julian Alaphillipe. O ataque de Jungels teve o condão de despertar a curiosidade de Enrico Battaglin, ciclista que embora sendo um corredor que corre melhor na média montanha, estava na prova completamente livre de pressão. A presença de Battaglin alertou de imediato as equipas com pretensões à vitória na prova. Rui Costa pode por exemplo, pela primeira vez em dois anos, contar com o imediato apoio de Diego Ulissi na sua colocação na frente do pelotão, caso raro na Lampre.

Endurecendo o ritmo nos últimos 15 km, a Orica tentava proporcionar todas as condições para que Gerrans e Matthews pudessem ter sucesso nos metros finais. Na roda de Gerrans viajava Samuel Sanchez. Na roda de Sanchez, colocava-se Rui Costa.

Foi precisamente a 8 km da meta que Roman Kreuziger tentou mexer com a corrida. O ataque do ciclista checo haveria de ser contra-atacado por Tim Wellens da Lotto. Quando Tim Wellens consegue atacar com exito com alguma distância para a meta, já provou em várias ocasiões que costuma ser letal visto que é um corredor que consegue em curtos espaços de terreno cravar vantagens de difícil resolução para quem o venha a perseguir. Foi precisamente isso que aconteceu: o ciclista belga abriu um espaço considerável para o pelotão, empoleirou-se no guiador da bicicleta e foi tentando cavar a diferença que lhe permitisse chegar na frente ao início do Cauberg. A Etixx conseguiu no meio da confusão instalada na frente do pelotão perseguir o ciclista, enquanto a Lotto, lá atrás, no pelotão lidava com as dificuldades de posicionamento dos seus líderes Gesink e Wilko Keldermann. O chefe-de-fila da equipa holandesa não tem sido deveras feliz nas clássicas de 2016, um ano depois de ter despontado nestas mesmas provas.

Tim Wellens haveria de conseguir o desiderato de entrar sozinho no Cauberg. O que se seguiu foi o espectáculo possível: com 12 segundos de diferença para o pelotão, Gasparotto teve que lançar o seu ataque, acompanhado de imediato por Valgren à falta de pernas de Kreuziger para acompanhar. Izaguirre, Sonny Cobrelli, Jelle Vanendert (Lotto-Soudal) Matthews e Sanches também foram rápidos a medir a ameaça do ciclista italiano e a fechar espaços. Rui Costa não foi tão rápido a fechar o espaço para estes ciclistas, acabando por conseguir fechá-los cerca de 400 metros mais adiante. A Lotto ficava com dois homens em posição privilegiada para discutir a prova. Contudo, o desfecho viria a ser favorável a Gasparotto, homem que aos 34 anos, venceria pela 2ª vez a prova e conquistaria a sua 14ª vitória enquanto profissional, vitória que foi obviamente dedicada ao falecido Demoitié.

Na parte final, o meu destaque pela negativa vai para os dois líderes da Orica GreenEdge. A ciumeira titânica existente no seio da equipa entre os seus dois principais chefes-de-fila Michael Matthews e Simon Gerrans, respectivamente, a nova geração contra a velha guarda da equipa, está a prejudicar imenso o projecto australiano de ciclismo nesta primeira metade da temporada. Este problema terá que ser resolvido, a bem da equipa, pela dupla de directores desportivos da equipa Andrew Ryan e Shayne Bannan.

Rui Costa acabaria por terminar a prova no 17º lugar.

Melhor espectáculo que a Amstel seria de esperar da excitante Flèche Wallone, prova que termina no lendário Mur de Huy, um autêntico muro que obriga os ciclistas a puxar em alguns sectores (onde a pendente é de 26%; 9,6% de média) da força que é gerada por um balanço traseiro de corpo, tal é a dificuldade em progredir que a estrada coloca a todos os homens do pelotão internacional.

Na lista de principais favoritos à prova estavam obrigatoriamente homens como Valverde, Purito, Keldermann, Rui Costa, Julian Alaphillippe, Enrico Gasparotto, Daniel Martin, Jelle Vanendert, Tom Jelte Slagter, Lawson Craddock, Sérgio Henao, Roman Kreuziger, Vakoc ou Samuel Sanchez.

Mexida, a prova não deu o espectáculo que se previa até ao muro de Huy. Recheada de algumas inclinações a antecipar o famoso muro, os quilómetros finais da prova haveriam de ser marcados pelo controlo da Movistar (enorme trabalho colectivo da equipa espanhol, planeando com estratégia a 4ª vitória do seu chefe-de-fila) e da Katusha, equipa que tentou ajudar Purito a bater um dos seus enormes rivais de geração do ciclismo espanhol.

Marcada por uma fuga com bastantes unidades desde os primeiros quilómetros da corrida (Van der Sande voltou a tentar a sua sorte; para obrigar a uma perseguição feroz da Movistar quiçá para Tim Wellens, mais fresco nos quilómetros finais voltar a tentar atacar nos 10 km finais) e pela correspondente perseguição por parte da Movistar e da Katusha, a corrida só animou de facto quando no grupo da frente, nas subidas categorizadas disputadas nos últimos 50 km, o veterano britânico Stephen Cummings decidiu rachar o grupo de fugitivos numa das inclinações para encetar um ataque com o suiço Dillier da BMC. Farto da companhia de Dillier a certa altura, o ciclista britânico de 35 anos decidiu confiar nas suas capacidades e atacar por conta própria.

Permissivo, o pelotão ainda deixou sair alguns homens: a Wanty colocou um homem num grupo intermédio (demonstrando que Gasparotto poderia ter aspirações a vencer novamente) seguido prontamente de Ruben Fernandez da Movistar. A Movistar, equipa que colocou muitas unidades na frente do pelotão durante toda a prova haveria de jogar sempre na ofensiva sempre que alguém tentava mexer no pelotão. Depois de Ruben Fernandez, os espanhóis, jogaram sempre pelo seguro, inclusive quando o campeão holandês Bob Jungels da Etixx tentou mexer na corrida a 14 km do fim para desgastar a Movistar, que, prontamente colocou a sua 2ª melhor carta Jon Izaguirre. Se eventualmente Jungels conseguisse ganhar vantagem (Izaguirre nunca colaborou com o homem da formação belga) Izaguirre faria, como acabaria de resto por fazer, a diferença sobre Jungels nas partes inclinadas do final da corrida. O belga provou portanto, logo na primeira inclinação que não tinha pedalada para Izaguirre. Em posição intermédia, Angel Vicioso da Katusha tentava fazer a interligação entre grupos juntamente com Giovanni Visconti da Movistar. A equipa de Eusébio Unzué controlava a corrida a 100% para se assegurar que Valverde chegaria na frente do pelotão ao Mur de Huy.

A 6 km da meta, tal como previa, Tim Wellens decidiu atacar, chegando a colar no duo da frente. A Katusha, a Tinkoff e a Etixx subiram para a frente do pelotão (a Lampre ficou mais uma vez dissidida com Rui Costa a ter que se colocar a expensas próprias nas posições primárias do pelotão pela esquerda enquanto Ulissi era transportado por um companheiro pelo lado oposto, demonstrando mais uma vez que a continuidade do ciclista português na Lampre-Merida é um absoluto erro porque a falta de estratégia, de união e até de unidades que possam trabalhar para Costa está à vista desarmada de todos) ajudando a perseguir e a alcançar os homens da frente. A corrida caminhava para o decisivo km final.

No km final, Valverde haveria de aparecer na primeira posição do pelotão. Bem colocado atrás de Valverde vinha Samuel Sanchez (BMC) e Rui Costa. O português conseguiu entrar muito bem posicionado na 4ª posição de pelotão, não tendo porém pernas para aguentar os poderosos ataques que se seguiriam, primeiro por parte de Purito (devidamente respondido à letra por Daniel Martin e Valverde) e posteriormente, pelos contra-ataques esboçados em primeiro lugar por Martin e depois pelo arrasador Valverde. O espanhol não deu hipóteses a toda a concorrência, batendo os dois Etixx (Alaphillippe e Martin) nos metros finais. Quanto a Rui Costa, apesar do ciclista natural da Povoa do Varzim ter descolado ligeiramente na parte mais dura da subida, acabaria por fechar o top 10 da prova numa honrosa posição que em nada o desprestigia. Esperemos que o ciclista português tenha mais sorte no domingo na clássica que será disputada na zona de Liège. 

 

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