Reforçar as fraquezas é tal paródia…

Acode-nos a tal fogo-faralho qual dos mais lídimos santos da liturgia romana?
Mais se pensa que até eles se quedaram, perpétuos, na indiferença do mármore de Pêro Pinheiro ou do castanho dos soutos da Lapa, mesmo que bichado do caruncho secular ou das pragas mais actuais…
O que era, outrora, ser digno?
Poucos se lembrarão, de tal forma o vocábulo se adulterou, mas com esforço e sem ir à wikipédia (aí sim, a dúvida assarapanta-se!), talvez assim a dignidade se adornasse: ter ideias e sentimentos elevados e nobres por molde a inspirar respeito e veneração.
Isso é que era bom! Respeito e veneração… (e há sempre aquela rábula da veneração ser a adoração de Vénus, coisa de largo espectro semântico colateral, que até a doenças e vestuário nome deu).
Se o “digno” se abastardou como um licoroso velho e decrépito que só aceita estar deitado e à sombra, o indigno tornou-se invisível. Talvez por dantes aqueles serem poucos e hoje uma legião destes serem. E como não vemos o orgalho no próprio olho e as massas são uma cortina opaca…

Esta introdução já ultrapassou o parágrafo da regra. No desenvolvimento, falar de políticos partidários do-por-aí e de suas tártaras dignidades, é como um filet mignon requentado e esturricado a acompanhar com Quinta da Alorna, monocasta trincadeira, adequadamente cálido e exuberado.
Nada bate com nada nas discursatas da praça pública e a sua cacofonia, de tão reiterada, ergueu-se a hino do regime, num linguarejar só de circunstância e sem sequer uma bengalada de estímulo sacudidora (nas espaldas do proferente, é bom de ver…).
A comunicação já não visa partilhar. Ou intenta intimidar ou fica-se pela confissão do mal mínimo para esconder da vista o mal máximo e deixar a simpática figura do praticante como muito igual a todos nós em matéria de fraquezas, derreada com a sua assunção pública, num verniz de simpatia do sou-igual-a-ti, embora ascendentemente comum.
O velho Barthes já gritava a poucos ouvintes que esta novilíngua política só visa “dar a um real cínico a caução de moral nobre”. Mas nem disto eles precisam. Há mais acriticismo que pardais na minha tília, pela aurora. Se uma pitada de acefalia lhe der condimento, temos o resíduo ideal para qualquer comportamento vil requebrado em seráfica atitude de cónego pela Quaresma. Uma sauce béarnaise…
Há quem diga que “eles” têm uma cara de pau de pinho resinado às 3 tabelas. Nem sei… Apenas constato que me torno um bivalve emigrado, ouvindo-lhes a parlenda, por vezes de uma loquacidade adjectiva e inocente, logo digna de todo o crédito, pontuando silenciosos aquilo que ontem negavam bramando e amanhã revigorando com a candura da sua culpabilidade, pela dilatação, ou inchaço do nome, para de novo repudiar…
Aqui fica sempre bem a Agustina, que escrevia: “É coisa nossa esquecer com indolência o que tramamos com ímpeto.” Mas o tempo vai na paródia do efémero e a retórica de hoje, é um limpa-vidros em dia de rufado dilúvio. Tiramos uma “selfie”?
Ouvi uns discursos (hoje ditos marcialmente intervenção) de dois congressos partidários próximos no tempo da ocorrência. Perante a ensurdecedora eloquência e a afinada desmemória, apenas tenho como aceitável que, sendo eles muitos e eu um parco singular, a razão já não me assiste. O colectivo no seu ímpeto dá-me tal inércia e gera tal atrito, que só me resta sentar à frente da televisão com a velha máscara do sono da avó Natividade, os caroços de marfim para as orelhas do avô Hilário e adormecer sorrindo a sonhar com o club Mediterranée, algures ali na costa da Somália, entre Mogadishu e Kisimayio.
Acrescer à filarmónica a fanfarra dos batuques dos “media”, monótona, hipnótica, bajuladora e subserviente é, em coro síntono, aceitar a sacristia das prósperas paróquias para salão de chá, em vez do claustro redentor do convento para ciliciação das secretas penitências.
Os Tempos Modernos sem a mímica de Charlot. A tal ode cantada a par, ou paródia.

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