Sobre o recorde dos Guerreiros

Para os menos aficionados do basquetebol, na passada semana, passou em claro o estabelecimento de um novo record de temporada para os Campeões em título Golden State Warriors.

A coroar uma temporada memorável a todos os níveis, a equipa de Steph Curry, Klay Thompson, Andre Iguodala, Draymond Green e companhia bateu o antigo record, pertença dos Chicago Bulls de Michael Jordan, datado da temporada 1995\96 (72 vitórias e 10 derrotas) terminando a actual temporada com um magnífico score de 73-9.

Quando algo começa bem, só pode terminar bem.

Mesmo sem terem iniciado a temporada com o seu treinador no banco (Steve Kerr; só voltaria ao 44º da temporada; há que destacar o adjunto que assumiu o papel de interino até então, o antigo jogador dos Lakers Luke Walton) em virtude da recuperação que este teve que realizar nos primeiros meses da temporada a uma lesão na coluna, os Warriors ameaçaram desde os primeiros jogos não só pulverizar toda a liga como arriscar bater um record que até esta temporada seria impensável de bater numa modalidade em que o desgaste acumulado pelos jogadores ao longo da temporada é enorme. Falamos de uma competição em que, do período considerado entre 30 de Outubro e 15 de Abril, as equipas jogam 82 vezes (uma espécie de dia sim, dia não), 41 delas fora de casa em locais bem dispersos dos Estados Unidos. A “vida de saltimbanco” de um jogador da NBA leva indirectamente a que a fadiga seja portanto não só acumulada dentro dos courts como fora deles, a partir do momento em que os jogadores são obrigados a realizar dezenas de viagens de avião entre as várias cidades do seu calendário.

Numa equipa recheada de talentos na qual Stephen Curry é rei (perante o possível cenário de lesão de Curry nos playoffs que o obrigou por exemplo ontem a falhar o 2º jogo da serie contra os Houston Rockets, os analistas da NBA tem versado muito sobre se Klay Thomspon reune as capacidades físicas e psicológicas para liderar a equipa californiana; considero que sim, dado que Thompson tem capacidade para ser o front-man de qualquer equipa) apesar de não ser um jogador que por exemplo ofusca todos os demais como o é LeBron James, vector que só por si é um condimento perfeito para a existência, acima de tudo, de um bom colectivo capaz de se unir para vencer, dependendo apenas da sua maior estrela nos momentos de decisão, provando precisamente nesses momentos Curry, o seu instinto predador, há que destacar, para além do excelente basquetebol que é praticado pela equipa o espantoso trabalho de gestão que os proprietários da equipa Peter Guber e Joe Lacob fizeram desde que adquiriram a equipa em 2010. A fórmula de sucesso destes Warriors, equipa que até ao ano passado só tinha conquistado 1 título da NBA e que parecia arredada dos sucessos, participando esporadicamente nos playoffs da prova, assenta no modelo de gestão positiva que estes dois businessman colocaram no clube.

Antes que me esqueça de referir, os Warriors irão, pela mão da sua dupla de proprietários galgar a Golden Gate para a outra margem em 2018, passando a ser uma equipa sediada em San Francisco a partir da temporada 2018\2019. Essa é outra das premissas que fará dos Warriors uma franquia de futuro visto que a maior importância, exposição, mercado e posição da cidade de San Francisco na nomenklatura das cidades mais importantes do país fará com os Warriors sejam uma franquia com mais receitas e consequentemente com mais capital para investir em equipas capazes de lutar sempre por altos objectivos. Uma das regras do showbizz desportivo Norte-Americano é precisamente essa: as equipas mais rentáveis ao nível de lucros são aquelas que dão mais espectáculo e que lutam por títulos. Contudo, na NBA, para lutar por títulos só existem duas hipóteses: ou se investe fortemente num re-build, ou seja, numa reconstrução de equipa durante 2\3 anos, sacrificando nesse período todos os resultados desportivos, ou então, tem-se a sorte de cair em graça 2 ou 3 rookies de primeira água do draft. A 2ª hipótese é portanto cada vez mais rara porque depende de factores terceiros (de picks de draft ganhas em trocas feitas no passado com outras franquias).

Quando Lacob e Guber chegaram aos Warriors já os Warriors tinham na sua fileira Steph Curry. O então novo Sophomore da Liga tinha dado, no seu ano de estreia da NBA, todas as garantias de que com uma equipa sólida a secundá-lo poderia efectivamente dar um passo em frente na História desta franquia sediada do outro lado da baía de São Francisco. Na sua temporada de estreia na NBA, o jovem nascido há precisamente 28 anos em Akron, Ohio, 7º escolhido da primeira ronda de draft da NBA, terminava a sua temporada de rookie como uma agradável surpresa da Liga, assumindo-se imediatamente como titular e como o patrão de uma equipa (17.5 pontos de média nos 80 jogos realizados; 5,9 assistências e 4,5 ressaltos) graças ao seu basquetebol explosivo, ao seu fantástico 1×1 e à sua capacidade de tiro de média e longa distância, capacidade que foi desenvolvida pelos treinadores que passaram nas temporadas seguintes por Oakland até ao ponto actual de desenvolvimento do jogador – um jogador com uma percentagem de 50% ao nível de lançamentos de campo, 45% ao nível de lançamentos de 3 pontos (para considerarmos numa escala, Curry realizou uma média de 5.1 lançamentos efectivos e uma média de 11 tentativas de triplos\por jogo) e 56% em lançamentos de 2 pontos. Para um jogador que é chamado a assumir a finalização de uma média de 25 jogadas por encontro (se contarmos com as vezes que estaciona na linha de lance livre em virtude de faltas adversárias) estamos a falar, portanto, de uma eficácia estrondosa. Contudo, faltava a Curry equipa para o ajudar a dar um passo gradual na ascenção que os Warriors tem vindo a realizar na temporada. Esse passo decisivo coube à gestão dos novos proprietários dos Warriors.

O dia 12 de Novembro de 2010 seria decisivo. Tornando-se os proprietários da equipa, Peter Guber e Joe Lacob haveriam de revolucioná-la por completo. Quer desportivamente, quer financeiramente, apostando todas as fichinhas no primeiro momento para vir a colher os louros do seu investimento no presente e no futuro. Assente numa perspectiva a longo prazo, a dupla haveria de perseguir o sonho de criar uma equipa de basquetebol de topo com uma estratégia a longo prazo que obrigou a sacrifícios nos primeiros anos apesar dos resultados desportivos nunca terem roçado os últimos lugares da conferência Oeste.  450 milhões de euros seriam o primeiro passo para adquirir uma equipa que estava a perder dinheiro e fans a cada dia que passava. A dupla de proprietários haveria de começar pelas infraestuturas do clube e pela estratégias de marketing. Em 2010, a equipa dispunha apenas de 7 mil dos seus 19,500 lugares adquiridos por bilhetes de temporada, um score péssimo para a sustentabilidade financeira de qualquer equipa da NBA, se atentarmos por exemplo dos meus Chicago Bulls, uma equipa que se dá ao luxo de não só vender atempadamente bilhetes de temporada como ainda tem uma lista de espera para interessados que não conseguem comprar os mesmos. Ao nível de infraestruturas, o clube não dispunha por exemplo salas de reuniões adequadas para todas as empresas que pretendessem executar operações de charme durante os jogos da equipa. A procura pelos designados “camarotes empresariais” era praticamente nula. A Marca Warriors, não vendia. Não vendia acima de tudo porque o espectáculo oferecido pelos Warriors não era o melhor. A equipa precisava portanto, de um re-building.

Analisando os vários modelos de sucesso de re-build que a história da liga tinha para oferecer, os proprietários dos Warriors acabaram por seguir o modelo de sucesso de Jerry Reinsdorff nos Bulls dos anos 80: a criação de uma equipa em torno da principal vedeta da equipa. Se os Bulls conseguiram nessa fórmula de sucesso formar uma equipa talentosa em torno de Michael Jordan, com um upgrade formado por jogadores talentosos como foram Scottie Pippen, Luc Longley, Dennis Rodman, Steve Kerr, Tony Kukoc, Ron Harper, não conseguindo replicar, nas 3 gerações seguintes a mesma fórmula (por más decisões tomadas na escolha de jogadores no draft de 1999 por exemplo; por manifesto azar nos últimos anos em virtude das constantes lesões de Derrick Rose) ao menos tiveram o mérito de indicar o caminho aos dois owners da equipa do Estado da Califórnia. Por tentativa\erro, a equipa foi apostando nos drafts (de onde saíram talentos como Thompson ou Harrison Barnes), nas trocas directas (o milagre Bogut , jogador que em Milwaukee não tinha rendimento porque passava mais tempo na enfermaria do que dentro do court, caso também de Iguodala) e na free-agency no final de cada temporada, adquirindo exporadicamente um ou outro jogador que encaixasse dentro da chemistry da equipa formada pelos seus treinadores, ou seja, jogadores que acima de tudo soubessem jogar numa estratégia ofensiva de court-to-court em fast-break, terminologia utilizada para equipas que jogam essencialmente num modelo de jogo de ataque\contra-ataque, incutindo portanto um pace frenético em todas as partidas.

De record em record: Não bastava o record inicial de 24 vitórias nos primeiros 24 jogos da liga. Steph Curry tornou-se o jogador com o melhor record de triplos alcançados numa partida (12) e Klay Thompson, no vídeo, alcançou o record de mais pontos marcados num único período da história da liga (37). Este 3º período contra os Kings é demonstrativo das características, da chemistry desta equipa de Golden State no plano defensivo, no plano ofensivo e individual (o fantástico e eficaz lançamento longo de Thompson).

Claro está que até chegar aqui, foi necessário usar de capital. Não é portanto à toa que o investimento dá os seus resultados (desportivos e financeiros) na NBA. Os Warriors são actualmente uma das equipas que mais gasta em salários com o seu plantel, gastando actualmente mais (93,6 milhões de dólares) do que o valor actualmente previsto para o tecto salarial máximo da liga (70 milhões de dólares) e mais 9 do que o máximo exigido para efeitos de luxury cap (84,74 milhões de dólares), obrigando a equipa a pagar a equipa um imposto que é utilizado para prevenir em primeiro lugar que as equipas com mais recursos comprem todos os grandes jogadores da modalidade, e em segundo, para auxiliar as equipas com menos recursos financeiros (vindas de mercados menores como são os casos das equipas de Memphis, New Orleans, Phoenix, Minnesota, Milwaukee, Orlando, por exemplo) a adquirir melhores jogadores, tudo em prol de uma certa competitividade, a histórica receita da competição que mantém os fans interessados e que é, efectivamente, a máquina de gerar espectáculo e dinheiro que conhecemos.

O investimento deu os seus frutos. Veni, vidi, vinci.

A equipa chegou aos playoffs e cumpriu todas as etapas que estariam estipuladas no seu regresso aos mais altos patamares da Liga. Com objectivos bastante estritos (a NBA é feita de ciclos; quem não cumpre os seus objectivos traçados corre o risco de gastar o prazo de semi-vida dos alinhamentos instituídos e ter que mudar de ciclo ao nível de jogadores e treinadores; é o que está a acontecer por exemplo em Chicago, em Houston, apesar dos Rockets terem atingido os playoffs, em Nova Iorque com os Knicks, em Brooklyn com os desapontantes Nets) os jogadores dos Rockets não demoraram muito a ver como funcionavam os playoffs para conseguir o sofrido título conquistado na temporada passada. Cumprindo as palavras de Lacob, o projecto instituído não visa apenas ir às finais esporadicamente. Visa criar uma dinastia que consiga, década após década, trazer títulos para a franquia. A actual temporada trouxe uma equipa capaz de esmagar em todos os campos. Perdendo apenas 1 jogo a cada 8 em média, os Warriors, pilotados por um experiente Luke Walton (afinal de contas, enquanto jogador passou mais tempo no banco do que em campo; deve-lhe ter dado para aprender umas coisitas sobre coaching) à ausência de Steve Kerr, catapultados por grandes exibições colectivas nas quais sobressaíram claramente as exibições de Steph Curry (poderá pagar a factura de esforço na recta final da temporada apesar de já na temporada regular ter sido poupado esporadicamente em jogos de menor dificuldade da equipa) a equipa de Oakland, fez jûs a um popular provérbio lituano, curiosamente uma das raras nações em que o basquetebol é rei e um dos principais “sectores exportadores” do país “Um bom início na batalha, é meia vitória” quando venceu os primeiros 24 jogos da temporada regular.

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