O nóvel Dylan

Bob Dylan foi um dos meus ídolos de juventude, sempre segui a sua música e a sua carreira, desde as “protest songs” dos anos 60, ouvidas já nos 70, passando pela fase Nashville até às mais recentes deambulações politico-religiosas. Sempre achei única e fantástica a sua obra musical e lírica. Tem poemas de uma profundidade imensa e tem poemas de uma patente – e potente – frontalidade de intervenção. De tão incisivo, foi considerado o “enfant terrible” da América, proscrito pelos governos pró-vietname, trovador dos ostracizados e dos “low lifers”, dos pobres e dos desempregados.

Paradoxalmente, fã incondicional de Frank Sinatra, ao qual dedica o seu álbum de 2015, “Shadows in the Night”.

Homem sempre interventivo, é conhecido por tomar posições controversas, onde quer e frente a quem estivesse. De guitarra ao peito e pena corrida, verso simples e ligeiro, verbo mais contido, sempre teve mais facilidade em se expressar através da sua música do que propriamente através da obra escrita. Materialmente, a sua obra “literária” integra 6 livros, entre os quais 3 são as letras das suas canções:

(1971). Tarantula
(1973). Writings and Drawings by Bob Dylan.
(1985). Lyrics: 1962–1985
(2004). Chronicles: Volume One.
(2004). Lyrics: 1962–2001
(2014). Lyrics: Since 1962

Paralelamente, uma “monstruosa” obra de 37 álbuns de estúdio, 11 álbuns ao vivo e 15 compilações, dá corpo a uma das mais fantásticas e ricas discografias da música moderna.

Sem questionar a extrema qualidade da generalidade dos seus escritos, parece-me francamente pouco para um Nobel da Literatura. Bem sei que a carreira dele fala por si e os seus poemas foram muito mais repetidos do que qualquer obra do seu conterrâneo do Minnesota, F. Scott Fitzgerald. “A hard rain’s a-gonna fall” certamente foi muito mais cantado, ouvido e discutido do que “The Great Gatsby”. Mas acho que continua a ser pouco para um Nobel da Literatura.

Trata-se de uma carreira em que a palavra escrita é indissociável de características estéticas que se reproduzem e se potenciam na expressão musical. Um poema de Dylan é para ser cantado e não para ser recitado, ou lido “música à parte”! Isto porque acho que perde grande parte da sua força, da sua identidade, da sua finalidade. Dylan é um cantor-poeta. O que dizer então de Chico Buarque ou de Cohen, que se reveem muito mais no papel de poeta-cantor. E que têm uma obra literária publicada e consistente.

O que não invalida a grandiosidade de Dylan. Congratulo-me também que a academia sueca reconheça o que o mundo já sabia e que só Obama soube reconhecer no seu próprio país, mas continuo a achar que o Nobel da Literatura não “lhe assenta”! Seria muito mais interessante que se pesasse a hipótese de instituir um Nobel da Música, quiçá extinguindo o Nobel da Economia, área que se tem vindo a revelar completamente “irrelevante”!…

Em todo o caso, parabéns ao Bob Dylan por este merecido reconhecimento de uma carreira extraordinária …

“(…)But I’ll know my song well before I start singing
And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, and it’s a hard
It’s a hard rain’s a-gonna fall.”

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