Mais uma má jogada

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Rui Rio deu há dias uma entrevista a um canal de televisão onde afirmou estar disponível para se candidatar à liderança do Partido em tempo útil. Segundo ele, se não tinha aparecido no último Congresso de Espinho no início do ano, não fazia sentido nenhum provocar eleições agora e por isso desmentia todos os boatos que o davam como disponível para provocar uma crise interna.

O Rui Rio que falou nessa entrevista era um homem ponderado e sensato. Conhecido como um profissional de inequívoco rigor e com muito baixa tolerância a compadrios, Rui Rio seria, para mim, a par de Maria Luís Albuquerque, um digno sucessor à liderança no dia em que Passos Coelho considerasse que tinha chegado o momento de abandonar a direcção do Partido. Nunca antes e nunca a meio de um mandato. Com esta atitude, Rui Rio desilude-me pois sempre o tive como homem de uma só palavra.

O Partido está numa situação complicada em relação às Autárquicas. Não há, para já, candidato ao Porto – Rui Rio poderia ser a escolha da Distrital do Porto – ainda não tem candidato a Lisboa – para a CML, Santana Lopes não avança – e os candidatos que se perfilam em algumas zonas do país são repetentes e de índole duvidosa.

Sendo crendice popular que as Autárquicas são um teste ao Governo e tendo o PSD a missão de desmascarar esta Geringonça, uma vitória esmagadora seria aquilo que todos ambicionariam.

Passos que foi reeleito sem contestação tem, tal como Santana Lopes no seu tempo, sido vitima não só da comunicação social como agora do próprio Partido. Isto acontece por duas razões:

Passos decidiu não abandonar a postura responsável de homem de Estado que caracterizou o seu mandato e continua a avisar para os perigos eminentes desta desgovernação não aceitando ser o “perdedor bonito” e politicamente correcto que daria a mão a quem lhe roubou as eleições sempre que tal fosse necessário; Passos decidiu não fazer o que tinha que fazer e limpar a casa vendo-se agora a braços com os seus carrascos que perante a perspectiva (errada) de mais 4 anos afastados da governação, procuram um Messias que os coloque em linha com a escada de Poder.

Mas há mais um obstáculo claro à continuação de Passos – o Presidente dos Afectos. O actual residente de Belém não gosta de Passos e pretende vê-lo longe da liderança partidária, substituindo-o por alguém que ele possa manobrar e que esteja mais a contento com uma maioria negativa de Esquerda e quem sabe favorável a um Bloco Central onde o próprio pudesse ser figura de proa.

O surgimento de nomes dos mais diversos quadrantes vem no sentido de todos quererem um pedaço da acção. A malta do Norte, farta da subserviência às decisões de Lisboa pretende apresentar o seu próprio candidato e a fava caiu a Rui Rio. A questão é se os influentes do Norte conseguem encostar os barões de Lisboa.

Acho difícil, Rui Rio não é um nome consensual nem é alguém que, aparentemente, tenha feitio para fazer amigos entre os lobbistas.

Passos Coelho tem as bases com ele. Espero bem que assim seja pois ele merece voltar a candidatar-se e ganhar, de preferência com uma maioria segura e por duas razões: primeiro para demonstrar a manipulação em relação aos números, nomeadamente aos das sondagens e em segundo lugar, porque vamos precisar de alguém com a sua força e coragem para nos tirar novamente do buraco onde já estamos enfiados embora nos tentem demonstrar e fazer acreditar no contrário.

Passos Coelho foi colocado em duas situações extremamente complicadas. Senão vejamos:

Governou o País debaixo da alçada da Troika, teve que voltar com a sua palavra atrás quando se apercebeu da realidade dos números que tinham sido falseados, foi acusado de ter aberto a caixa de Pandora e trazido todos os males ao Mundo. Apresenta em 2011 um Programa Eleitoral a 8 anos que não ia tão além da Troika quanto querem fazer crer – eu teria sido muito mais dura – e quando se recandidata vê esse mesmo Programa sufragado e ganha as eleições. Por má opção do então Presidente da República e por não querer governar em regime de instabilidade parlamentar, chama o PS às suas responsabilidades. Mas a Rosa já tinha os seus planos traçados e a necessidade de chegar rapidamente ao Poder castrou Portugal de qualquer opção responsável.

Tendo dado posse à actual solução de Governo, o ex-Presidente da República retira a Passos e a Portugal a possibilidade de continuar no caminho da responsabilidade e da contenção tão necessários ao desenvolvimento e afirmação do País tanto interna como externamente.

Passos então assume o seu lugar como líder do maior Partido da Oposição. Faz saber qual a postura governativa que adoptaria, pois se o seu Programa de Governo, a sua pessoa e os seus Ministros tinham sido chumbados pela maioria negativa, cabia-lhes governar e não estar à espera do apoio do PSD cada vez que alguma coisa não agradasse às Esquerdas. Assumiu o discurso da chamada de atenção para o que se avizinha. Vê medidas e Reformas que foram tão difíceis de serem criadas a serem destruídas e nunca baixou os braços.

Ao discurso de consciencialização e alerta, muitos deram o nome de “catastrofista” tão-só e apenas porque se recusam a ver a realidade das coisas e do País. Passos está cansado mas não está nem politicamente acabado nem destruído. Rui Rio por exemplo, não só foi bastante crítico da candidatura de Menezes à CMP como afirmou publicamente apoiar Rui Moreira. E porquê? Porque via em Menezes alguém que iria destruir o que lhe demorou 12 anos a conseguir, uma Cidade funcional, com finanças sãs e com um rumo, apesar de ter tido que tomar medidas impopulares. Ninguém gosta de ver o seu trabalho destruído por oportunistas, Rio não gostou, Passos também não.

O que é triste é que com esta atitude o PSD se prepare para mais uma Travessia pelo Deserto igual à da Era pós-Cavaco. Quem ganha com isso? As Esquerdas perdedoras. Quem perde com isso? O País e os portugueses.

Disse-o desde o primeiro momento: Passos deveria ter limpo o Partido e tê-lo feito regressar à matriz social-democrata liberal. Tentou fazê-lo na Economia mas não conseguiu fazê-lo internamente porque preferiu a unidade. Quis evitar o confronto e os que deveria ter expulsado por não respeitarem o Partido, a sua Ideologia e os seus militantes são agora os mesmos que se agregam em bando à volta de um nome que pretendem que traga novamente o PSD às vitórias.

Estas tentativas de assalto interno ao Poder já no passado deram mau resultado. Duvido que agora funcionem. Eu gostava de voltar a ver o PPD/PSD unido em torno do seu líder demonstrando a perigosidade do momento que atravessamos e criando condições, desde as bases, para que ele pudesse ganhar as próximas eleições sem margem para dúvidas.

Parece-me que Rio e quem o suceder, e podem não ser poucos, podem vir a ser “carne para canhão” para o cumprimento da agenda de alguns. Eu se fosse a eles, ficava quieta. Vai-me custar ver o PSD pelas ruas da amargura mas talvez seja o necessário para que daqui a 10 anos, se ainda tivermos País, possam encontrar um líder mais consensual e a limpeza tenha sido feita de forma natural.

Espero que as bases se unam e não se deixem cair nesta pantominice. Rui Rio seria um bom candidato se tivesse esperado pacientemente a sua hora. Assim não, isto são politiquices e nada têm a ver com a nobre arte de fazer Política.

 

Luisa Vaz

(A autora não usa o Acordo Ortográfico)

 

 

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