Lideres e Lideranças

Acredito que a dimensão dos partidos e os respectivos resultados eleitorais estão umbilicalmente ligados ao carisma e admiração provocados pelos seus líderes embora depois também entrem em linha de conta outros factores como a ideologia, a prática política e a dimensão em termos de implantação no território.

Em Portugal não se foge à regra.

E os quatro politícos da imagem acima, considerados os “pais” fundadores da democracia, tem as suas imagens profundamente ligadas aos partidos que fundaram (mais Francisco Sá Carneiro e Mário Soares do que Freitas do Amaral em boa verdade) ou em que militaram toda a vida como foi o caso de Álvaro Cunhal ainda hoje o secretário geral do PCP que ocupou o cargo durante mais anos.

Muito tempo correu desde esta fotografia.

Dos retratados apenas Freitas do Amaral ainda é vivo ,mas de há muito retirado da vida partidária, enquanto as mortes dos restantes se verificaram com Sá Carneiro em plena vida política (era primeiro ministro quando morreu no atentado de Camarate ) enquanto Álvaro Cunhal e Mário Soares morreram já reformados da vida politica activa mas não da intervenção politica propriamente dita.

De lá para cá os seus partidos já mudaram várias vezes de líderes, uns mais que outros, mas pode dizer-se que Sá Carneiro,Soares e Cunhal deixaram vazios que nunca serão preenchidos e uma saudade latente nos militantes e simpatizantes já o mesmo não se podendo dizer de Freitas cuja relação com o CDS tem conhecido períodos muito atribulados.

No PSD, o maior partido português, foram muitos os lideres que sucederam a Sá Carneiro mas nenhum atingiu a categoria de mito do fundador e eterno militante número 1.

Cavaco Silva terá sido o que mais próximo lá andou como é mais ou menos reconhecido.

No PS nunca nenhum sucessor se aproximou do peso político e da capacidade de liderança de Mário Soares embora José Sócrates tenha sido aquele que nalguns períodos teve um ascendente e uma autoridade no partido próxima da de Soares.

No PCP a Cunhal sucedeu um apagado Carlos Carvalhas, longe do brilho intelectual e da liderança carismática do antecessor, depois substituido por Jerónimo de Sousa que tem feito um trabalho notável de consolidação do eleitorado do partido provavelmente porque as suas caracteristicas pessoais são as que melhor extravasam as fronteiras normalmente rigidas dos militantes e simpatizantes.

No CDS pós Freitas do Amaral houve lideranças episódicas e que não ficam para a história como as de Adriano Moreira,Lucas Pires, Manuel Monteiro ou Ribeiro e Castro até ao advento de Paulo Portas talvez o líder mais carismático da História do CDS e aquele que por mais tempo se manteve à frente do partido.

Estamos em 2017.

No PSD, liderado por Passos Coelho, as grandes figuras do passado ou estão reformadas (Cavaco Silva, Alberto João Jardim, Mota Amaral) ou estão noutras funções (Marcelo é PR e Santana Lopes provedor da Misericórdia de Lisboa) ou na vida privada sem retorno à politica (Durão Barroso e Pinto Balsemão) para citar apenas aqueles que foram primeiros-ministros, presidentes da republica ou dos governos regionais.

No PS os ex lideres seguiram percursos muito diferentes: Jorge Sampaio está reformado, Vitor Constâncio no BCE, António Guterrres na ONU e Sócrates a contas com a Justiça.

Nenhum voltará à política nacional.

No PCP, que apenas teve três lideres desde o 25 de Abril, sabe-se que Carvalhas goza a reforma enquanto Jerónimo já a vê na linha de um horizonte ainda algo longinquo.

No CDS findo o longo consulado de Portas assiste-se agora a uma tentativa de afirmação de Assunção Cristas no sentido de provar que é uma líder com futuro e não apenas uma figura de transição a ocupar o lugar enquanto outro(s) não dão o passo em frente.

Tendo o CDS já resolvido o seu problema de sucessão, e dando de barato que Passos Coelho, António Costa e Jerónimo de Sousa ainda ocuparão os respectivos cargos por mais alguns anos, põe-se mesmo assim a questão de olhando para os respectivos partidos tentar perceber o que virá a seguir.

No PSD para lá dos nomes que a comunicação social vai lançando, às vezes parecendo atirar barro à parede, e dos que periodicamente gostam de dizer que estão “vivos” mas não são alternativa a nada nem a ninguém, há um certo vazio de nomes para o médio prazo.

E então comparando com os nomes do passado o vazio ainda parece maior.

No PS o futuro, pelo menos a avaliar pelo presente, parece indicar uma ainda maior viragem à esquerda ao sabor do poscionamento de alguns dirigentes que mais parecem infiltrações do Bloco de Esquerda do que genuinos socialistas o que no médio prazo poderá levar o PS para um destino idêntico aos de PASOK, PSF e PSOE.

No PCP, que já foi mais hermético do que o é hoje, são também adiantados alguns nomes e lançadas algumas especulações.

Que em bom rigor podem não significar nada ou se significarem será mais por sorte de quem lança palpites do que por algum tipo de informação privilegiada que naquele partido não costuma acontecer.

Seja quem for não “será” Cunhal e dificilmente”será” Jerónimo de Sousa.

Em conclusão creio que em termos de lideranças futuras os principais partidos portugueses devem olhar o futuro com alguma preocupação.

Não há no horizonte promessas de lideres carismáticos, afirmativos, com carisma semelhante aos lideres do passado pelo que talvez nao fosse pior os partidos começarem a pensar que o futuro pode não estar nos “one man show” mas sim naqueles que apresentam projectos, desenvolvem ideias, trabalham em equipa e acreditam em lideranças construidas e não caidas do céu ao sabor de interesses ou entusiasmos de momento.

P.S. : Não referi o Bloco de Esquerda nesta análise. Porque ela versa partidos com História e não fenómenos de populismo.

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Um Comentário

  1. Não me quero esgotar a comentar o texto ponto-por-ponto.
    Mais uma vez, atraiu-me a atenção o estrangeirismo.
    Em Portugal passou a haver o hábito de importar quase tudo. Nas décadas mais recentes tem-se exagerado (sem outra explicação que não seja a "moda") com o vocabulário. Não de coisas novas, daquela espécie de baptismos da tecnologia de raiz anglo-saxónica, como "video". Tem antes, contornos de enfeite duma superioridade sinistra quando a associação de ideias me faz recuar no passado recente em que o "preto" foi sendo sucessivamente promovido a "indígena", "nativo" e "autóctone" sem que a sua condição tivesse melhorado de forma substantiva.
    Os vocábulos já antigos da língua portuguesa foram sendo substituídos por "budget", "cash-flow", etc, que sempre me trouxeram o sabor duvidoso dum novo-riquismo pseudo-intelectual.
    Chegamos à "condução" e aos "condutores" e "dirigentes", antigos neste país já perto de 900 anos de nacionalidade. "Dirigir", significando exactamente o mesmo, tem mais caracteres que "[to]lead"; e "lider" menos um que "leader". Sem que consiga entender (ou "realizar", como os tradutores de serviço habitualmente traduzem o verbo inglês "to realize") o que possa existir de Valor Acrescentado, deve haver algum que a Autoridade Tributária está a deixar escapar ao Imposto respectivo.
    Finalmente, e chegando à conclusão do autor, gostaria de [lhe] chamar a atenção para o eleitorado português. O eleitor típico, o cidadão por excelência, não se preocupa. Apenas reage, de forma quasi pavloviana, por processos de tentativa e erro, nunca se questionando sobre questões de fundo, ignorante soberbo da história, amante de cores que transporta do futebol para o partido político. Assim sendo, meu caro, porque deveriam preocupar-se os partidos políticos com os seus dirigentes, sejam eles "leader", "caudillo", "condottiero", "führer" ou mesmo um antigo "chefe-de-quina"?
    PS: quando umas mentes brilhantes se lembrarem que "lead" também significa "chumbo", acabamos todos "liderados" em vez de "chumbados". Chumbados, mas orgulhosos do processo de "liderança" que "liderou" à cova.

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