Lendas e Mitos III – um passo mais

Hércules e a Corça de Ceríneia

Continuando a análise dos 12 Trabalhos de Hércules, eis que somos chegados ao terceiro. Este apresenta uma perspectiva diferente dos dois anteriores que se focavam no interior da natureza humana e por isso mesmo este contém mais personagens ao passo que os anteriores se focavam em Hércules e no objecto do Trabalho que teria que desempenhar.

A título de esclarecimento, se os dois trabalhos anteriores são sempre mencionados na mesma ordem, já os que se seguem tendem a ocorrer em ordens diferentes mediantes as fontes. Seguindo a versão de Pseudo-Apolodoro, o seguinte era o confronto de Hércules com a Corça de Cerínia. Contrariamente ao que sucedia com os dois opositores anteriores, o objectivo aqui não era tanto o de destruir a criatura mas sim conseguir capturá-la viva, seja por se tratar de um animal dócil ou por ser consagrado à deusa Ártemis, que certamente não permitiria a sua destruição.

As versões deste mito parecem apresentar dois elementos consistentes: a corça tinha chifres de ouro e o herói teve de a perseguir por algum tempo antes de a conseguir capturar. Menos comuns são as referências ao facto da corça poder ter sido uma figura humana transformada devido à inveja de Ártemis, ou que o herói teve de a ferir para conseguir capturá-la.

No entanto, algumas versões utilizam a ordem dos metopes – relevos esculpidos na arquitrave do entablamento – do Templo de Zeus, em Olímpia, enquanto outros seguem os textos antigos. Os mitógrafos helenísticos dividiram os trabalhos em duas séries de seis: os seis primeiros foram realizados na própria Grécia, mais especificamente na região do Peloponeso, e os seis últimos levaram Hércules a diversas partes do mundo, inclusive a lugares míticos, de Creta ao Hades. Eu seguirei a primeira.

Esta análise seguirá a linha das anteriores, a perspectiva mitológica, a descrição do Trabalho e a simbologia que lhe está associada.

Perspectiva mitológica:

Hércules foi incumbido de capturar a corça com galhada de ouro e pés de bronze. Olhando ao seu redor, viu que ao longe se erguia o Templo do Deus-Sol. No alto de uma colina próxima viu o esguio cervo, objecto de seu terceiro Trabalho.

Foi então que Ártemis, que tem a sua morada na lua, disse a Hércules, em tom de advertência: “A corça é minha, portanto não toque nela. Por longos anos eu a alimentei e cuidei dela. O cervo é meu e meu deve permanecer.”

Então, de um salto surgiu Diana, a caçadora dos céus, a filha do Sol. Pés calçados de sandálias, em passos largos movendo-se em direcção ao cervo, também ela reclamou a sua posse. “Não, Ártemis, belíssima donzela, não; o cervo é meu e meu deve permanecer”, disse ela, “Até hoje ele era jovem demais, mas agora ele pode ser útil. A corça de galhada de ouro é minha, e minha permanecerá.”

Hércules observava e ouvia a disputa e perguntava-se porque as donzelas lutavam pela posse da corça. Uma outra voz atingiu-lhe os ouvidos, uma voz de comando que dizia: “A corça não pertence a nenhuma das duas donzelas, oh Hércules, mas sim ao Deus cujo santuário podes ver sobre aquele monte distante. Salva-a, e leva-a para a segurança do santuário e deixa-a lá. Coisa simples de se fazer, oh filho do homem, contudo, e reflecte bem sobre as minhas palavras; sendo tu um filho de Deus, deves ir à sua procura e agarrar a corça. Vai.”

De um salto Hércules lançou-se à caçada que o esperava. À distância, as donzelas em disputa tudo observavam. Ártemis, a bela, apoiada na lua e Diana, a bela caçadora dos bosques de Deus, seguiam os movimentos da corça e, quando surgia uma oportunidade, ambas iludiam Hércules, procurando anular os seus esforços. Ele perseguiu a corça de um ponto a outro enquanto cada uma delas subtilmente o enganava. E assim o fizeram muitas e muitas vezes.

Durante um ano inteiro, o filho do homem que é um filho de Deus, seguiu a corça por toda a parte, captando rápidos vislumbre da sua forma, apenas para descobrir que ela desaparecia na segurança dos densos bosques.

Correndo de uma colina para outra, de bosque em bosque, Hércules a perseguiu até à margem de uma tranquila lagoa, estendida sobre a relva ainda não pisada, ele viu-a a dormir, exausta pela fuga. Com passos silenciosos, mão estendida e olhar firme, ele lançou uma flecha, ferindo-a no pé.

Reunindo toda a vontade de que estava possuído, aproximou-se da corça, e ainda assim, ela não se moveu. Assim, ele foi até ela, tomou-a nos braços, e enlaçou-a junto ao seu coração, enquanto Ártemis e a bela Diana o observavam. “Terminou a busca”, bradou ele, “Para a escuridão do norte fui levado e não encontrei a corça. Lutei para abrir meu caminho através de cerradas, profundas matas, mas não encontrei a corça; e por lúgubres planícies e áridas regiões e selvagens desertos eu persegui a corça, e ainda assim não a encontrei. A cada ponto alcançado, as donzelas desviavam meus passos, porém eu persisti, e agora a corça é minha! A corça é minha!”

“Não, não é, oh Hércules”, disse a voz do Senhor, “A corça não pertence a um filho do homem, embora sendo um filho de Deus. Carrega a corça para aquele distante santuário onde habitam os filhos de Deus e deixa-a lá com eles.”

“Porque tem que ser assim, oh Senhor? A corça é minha! Minha, porque muito peregrinei à sua procura, e mais uma vez minha, porque a carrego junto ao coração.”

“E não és tu um filho de Deus, embora um filho do homem? E não é o santuário também a tua morada? E não compartilhas tu da vida de todos aqueles que lá habitam? Leva para o santuário de Deus a corça sagrada, e deixa-a lá, oh filho de Deus.”

Então, para o santuário sagrado de Micenas, levou Hércules a corça; carregou-a para o centro do lugar santo e lá a depositou. E ao deitá-la lá diante do Senhor, notou o ferimento no seu pé, a ferida causada pela flecha do arco que ele possuía e usara. A corça era sua por direito de caça. A corça era sua por direito de habilidade e destreza do seu braço. “Portanto, a corça é duplamente minha”, disse ele.

Porém, Ártemis, que se encontrava no pátio externo do sagrado lugar ouviu seu brado de vitória e disse: “Não, não é. A corça é minha, e sempre foi minha. Eu vi a sua forma, reflectida na água; eu ouvi seus passos pelos caminhos da terra; eu sei que a corça é minha, pois todas as formas são minhas.”

Do lugar sagrado, falou o Deus-Sol. “A corça é minha, não tua, oh Ártemis, não podes entrar aqui, mas sabes que eu digo a verdade. Diana, a bela caçadora do Senhor, pode entrar por um momento e contar-te o que vê.” A caçadora do Senhor entrou por um momento no santuário e viu a forma daquilo que fora a corça, jazendo diante do altar, parecendo morta. E com tristeza ela disse: “Mas se o seu espírito permanece contigo, oh grande Apolo, nobre filho de Deus, então sabes que a corça está morta. A corça está morta pelo homem que é um filho do homem, embora seja um filho de Deus. Porque pode ele passar para dentro do santuário enquanto nós esperamos pela corça lá fora?”

“Porque ele carregou a corça em seus braços, junto ao coração, e a corça encontra repouso no lugar sagrado, e o homem também. Todos os homens são meus. A corça é igualmente minha; não vossa, nem do homem mas minha.”

Hércules diz então ao Mestre: “Cumpri a tarefa indicada. Foi simples, a não ser pelo longo tempo gasto e o cansaço da busca. Não dei ouvidos àqueles que faziam exigências, nem vacilei no Caminho. A corça está no lugar sagrado, junto ao coração de Deus, da mesma forma que, em hora de necessidade, está também junto ao meu coração.”

“Vai olhar de novo, oh Hércules, meu filho”. E Hércules obedeceu. Ao longe se descortinavam os belos contornos da região e no horizonte distante erguia-se o templo do Senhor, o santuário do Deus-Sol. E numa colina próxima via-se uma esguia corça.

“Realizei a prova, oh Mestre? A corça está de volta sobre a colina, onde eu a vi anteriormente.”

E o mestre respondeu: “Muitas e muitas vezes precisam todos os filhos dos homens, que são os filhos de Deus, de sair em busca da corça de cornos de ouro e carregá-la para o lugar sagrado; muitas e muitas vezes. O terceiro Trabalho está terminado, e devido à natureza da prova e devido à natureza da corça, a busca tem que ser frequente e não te esqueças disto: medita sobre a lição aprendida.”

 

Terceiro Trabalho – A Captura da Corça de Cerínia

A missão de Hércules era capturar viva uma corça extremamente veloz, com chifres de ouro e cascos de bronze, que pertencia a Ártemis, deusa da caça. Orientado por Atena, o herói dominou o animal sagrado segurando-o pelos chifres. “Os chifres representam a iluminação, e os cascos de bronze, o mundo material. O aprendizado nesse Trabalho é substituir os impulsos por qualidades mais nobres, como sabedoria, delicadeza e paciência”

 

Simbologia

Esta corça, era uma das cinco que Artemis encontrou no monte Liceu. Quatro foram atreladas pela Deusa ao seu carro e a quinta, a poderosa Hera conduziu para o monte Cerínia, com o fito de servir a seus intentos contra Hércules.

Consagrada à irmã gémea de Apolo, esse animal, cujos pés eram de bronze e os cornos de ouro, trazia a marca do sagrado e, portanto, não podia ser morta. Mais pesada que um touro, se bem que rapidíssima, o herói, que deveria trazê-la viva a Euristeu, perseguiu-a durante um ano.

Já exausto, o animal buscou refúgio no monte Artemísion, mas, sem lhe dar tréguas, Hércules continuou na caçada.

Hércules seguiu a corça em direcção ao norte, através da Ístria, chegando ao país dos Hiperbóreos, onde, na Ilha dos Bem-Aventurados, foi acolhido por Artemis.

A interpretação é uma antecipação da única tarefa realmente importante do herói, a sua liberação interior. A sua estupenda vitória, após um ano de tenaz perseguição, apossando-se da corça de cornos de ouro e pés de bronze, tendo chegado ao norte e ao céu eternamente azul dos Hiperbóreos, configura a busca da sabedoria, tão difícil de se conseguir.

O simbolismo dos pés de bronze deve que ser interpretado a partir do próprio metal. Enquanto sagrado, o bronze isola o animal do mundo profano, mas, enquanto pesado, o escraviza à terra.

Têm-se aí os dois aspectos fundamentais da interpretação: o diurno e o nocturno dessa corça. O seu lado puro e virginal é bem acentuado, mas o peso do metal poderá pervertê-la, fazendo-a apegar-se a desejos grosseiros, que a impedem de qualquer voo mais alto.

A corça, como o cordeiro, simboliza uma qualidade do espírito, que se contrapõe à agressividade dominadora. Os pés de bronze, quando aplicados à sublimidade, configuram a força da Alma.

A imagem traduz a paciência e o esforço na consecução da delicadeza e da sensibilidade sublime, especificando, igualmente, que essa mesma sensibilidade representada pela corça, embora se oponha à violência, possui um vigor capaz de preservá-la de toda e qualquer fraqueza espiritual.

É como se toda a dificuldade na execução do Trabalho fosse necessária para o herói usar de estratégia e delicadeza para lidar com a sensibilidade ambígua inerente ao indivíduo.

Mesmo após ter eliminado os defeitos do Mundo Astral Inferior e do Mundo Mental Inferior (as duas primeiras façanhas de Hércules), as “causas” desses defeitos continuam a existir. Essas causas são eliminadas durante os processos do terceiro e quarto Trabalhos de Hércules: a captura da Corça Cerínia e do Javali de Erimanto.

Se todos os defeitos têm origem sexual (não importa se os defeitos são refinados ou toscos), as maiores provas do terceiro e quarto Trabalhos consistem em resistir às tentações da carne, cujo drama foi ricamente descrito pelo patriarca gnóstico Santo Agostinho: Imenso é o número de delitos cujos germes causais devem ser eliminados nos infernos de Vénus.

Assim, podemos perceber que este Trabalho se consagra à “nova roupagem” do Ser em evolução. Depois de encarados os defeitos como o egocentrismo, a ira e a frustração nos dois primeiros Trabalhos, o lado mais negro do Ego, eis que aqui começamos a perceber a gentileza, o cuidado a lidar com o que é frágil o que se torna possível uma vez que a besta que existe em cada um de nós já se encontra identificada, já deve ter sido encarada e para os mais resistentes, já terá sido dominada por forma a deixar emergir esta nova forma de Ser e de Estar. Hércules vai no terceiro Trabalho, ainda faltam 9 para que consiga atingir não só o perdão que busca mas também para alcançar o pleno da evolução na sua Caminhada espiritual.

 

Luisa Vaz

(A autora não usa o Acordo Ortográfico)

 

 

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