Juras de amor: O amor é lindo num país do terrorismo da violência doméstica diário.

O desabafo de hoje, se me é permitido, prende-se, necessariamente, com a desgraçada ameaça terrorista interna que, de forma mais ou menos silente, e ano após ano, vai matando centenas de portuguesas. O agressor, esse terrorista do amor neandertal luso, está mais do que identificável pelas autoridades. Não obstante, os crimes, hediondos, parecem não parar de nos surpreender. Diariamente!Salvo a pressão mediática do acontecimento, do dia do ataque propriamente dito, a morte por violência doméstica acaba por se perder no aglomerado mensal e anual das estatísticas. É neste drama quotidiano português que assim, e infelizmente, este terrorismo doméstico interno se vai esvanecendo e convivendo normalmente connosco. Até quando?

O contexto deste fim de semana, uma vez mais, particularmente grave com mais uma série de mortes por violência doméstica, levou-me a consultar (outra vez) os dados estatísticos da APAV. Notando a riqueza estatística contida no portal, num contexto de livre acessibilidade a qualquer internauta, comecei por abrir o Relatório Anual de 2016.

Para objectivar o sentido do lead, em que “amor é lindo“, comecei por procurar o perfil típico da vítima. Verifiquei que o crime de violência doméstica afecta um universo de 82% de portugueses do sexo feminino. Sim, Mulheres! Em Portugal, sim!

De seguida, perscrutei o tipo de família da vítima. Aqui destaca-se uma percentagem de 35,1%  em que estas vítimas estão inseridas numa família nuclear com filhos.( É duro negligenciar as restantes percentagens, pelo contexto especial que cada uma das vítimas representa, mas fi-lo para objectivar a presente mensagem.) Continuei. Detive-me na leitura da relação da vítima com o agressor. O contexto de intimidade sobressai de forma evidente. Somando-se as parcelas de conjugalidade(e ex-), companheirismo (e ex-) e namoro (e ex-), o total da soma corresponde a uns impressionantes 59%. Cinquenta e nove por cento do total das 9625 agressões de que a APAV teve conhecimento, acontecem num contexto de intimidade, presente ou passada. “O amor é lindo!”…

Do total das vítimas, conhecidas, 92% destas são de nacionalidade portuguesa. 80% dos agressores são do sexo masculino. O tipo de crime apresenta um registo de contínua agressão. Aqui, destaco os quase 16% de crimes com essa tal prática continuada, média, entre os 2 e os 6 anos. E, como se não bastasse, o local da prática – “residência comum” – denota um registo de, quase, 55% dos ataques. Dentro de portas, “o amor é lindo!”…
Finalmente, porque os números são de muito difícil digestão (ou deveriam sê-lo!), do total de queixas que a APAV teve conhecimento, apenas 41% foram objecto de queixa numa qualquer entidade policial.

Estarrecido pela crueza das estatísticas do ano passado, a ansiedade de conhecer outros números, levou-me a abrir outros relatórios da APAV. Resolvi abrir o Relatório das vítimas 2013-2015.  A estatística consegue sempre surpreender-nos. Neste relatório deparei-me com uns, relativos, 54031 (CINQUENTA E QUATRO MIL E TRINTA E UM!!) factos criminosos. 3 Anos = 54031 factos criminosos! Irra… Destes factos criminosos, 51415 (mais de 95%!!) dos casos correspondem à noção estrita do crime de violência doméstica contida no Artigo 152.º do Código Penal . Impressionante! A tendência reflectida no relatório anual de 2016, da qual já procurei salientar alguns “pormaiores“,  viu-se confirmada ao longo da leitura integrada do relatório 2013-2015.  Ou seja, não é uma realidade momentânea, do presente. É, pelo contrário, uma patologia crónica que nos vai afectando gravemente e já há muitos anos. Confirma-se, pela pior forma, no relatório «Estatísticas APAV, Crimes de violência doméstica 2000-2012».

O empedernido gelo destes números paralisam as pontas dos meus dedos. O cérebro, esse, tenta compreender como é que estas impressionantes percentagens não mexem connosco. Porque razão? Desde logo porque razão o Estado, manietado pelo demónio das verbas contingentes, consegue afirmar não poder acolher, recolher, distanciar, proteger as vítimas (que sobrevivem) dos seus agressores? São as nossas mulheres, os nossos filhos, enteados, irmãos, primos, sobrinhos… Duro, não é?

Depois, porquê a nossa apatia? Culturalmente higienizada pelo ditado (im)popular do “entre marido e mulher não se mete a colher“, olhamos para as estatísticas conhecidas com todo esse desprezo cultural, condimentado, ainda, pela latinidade superior de posse das nossas mulheres, típico de um período Paleolítico médio que teima em resistir. Porque razão? Quantas mais portuguesas terão de morrer para que a sociedade portuguesa se comova? Sim, porque já nem me atrevo a perguntar, se a sociedade se quer mover, pois o traço do imobilismo tem sido de uma constância confrangedora, pelo menos (e só pelo menos) desde que ousamos tipificar o crime de violência doméstica autonomamente na reforma penal de 2007, através da Lei n.º 59/2007, de 04/09.  Será que nos esquecemos que cada portuguesa que morre, vítima deste tipo de crime, é, mais das vezes, uma avó, mãe, filha, irmã, a quem concedemos que a vida seja ceifada por, mais das vezes, questões de mero pormenor possessivo, pelo sentimento de perda do seu objecto de domínio?

Irra para tanta burrice…Irrita-me! Andamos todos despreocupadamente condescendentes com a cedência de parte da nossa liberdade aos apologistas do estado securitário, em nome de uma intolerável ameaça terrorista exógena, jihadista. Mas, o que é certo, é que, se contabilizarmos as vítimas de terrorismo jihadista (lamentando, sempre, o número de cada uma das suas vítimas, como é óbvio) na última década, estas ficam atrás de todas 380 mulheres portuguesas mortas pelos seus amorosos neandertais lusos, com os quais a nossa sociedade convive “normalmente”.

Esta temática não é tão sedutora quanto o jihadismo, acredito. Mas, os terroristas do amor neandertais lusos não nos preocupam? Mesmo?

“O amor é lindo?”

É! Sem dúvida.
Mas, na violência doméstica, por muito amor que o terrorista neandertal luso jure ter, urge fazermos uma escolha civilizacional. Quantas mais mulheres portuguesas permitiremos, desta forma tão apática e serena, que a vida lhes seja ceifada por tais juras de amor?

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