Incontinência

Fazer oposição a um governo demagógico e desavergonhado, que conta com o beneplácito tolerante do presidente da república,com o “apagão” das centrais sindicais e com o apoio da maioria da comunicação social já não é, convenhamos, nada fácil para um partido que ganhou eleições e se viu arredado da governação por uma geringonça feita ao sabor exclusivo da sede de poder dos seus líderes.
Quando a isso se juntam as dificuldades próprias de fazer escolhas estando na oposição, com a carência de figuras verdadeiramente carismáticas que estejam disponíveis para liderar candidaturas às principais câmaras do país , ainda se torna mais difícil a tarefa de quem lidera o PSD.
Mas quando a tudo isso se junta um “ruído” interno desnecessário e despropositado, feito fora de tempo e sem qualquer interesse para o partido, por parte de figuras que ou pelos cargos ou pelo mediatismo ou por ambas as coisas deviam ter mais sensatez e mais contenção então a tarefa de liderar atinge uma complexidade extrema.
Já todos sabemos que o PSD tem um problema com a candidatura a Lisboa depois de Pedro Santana Lopes ter revelado a sua compreensível indisponibilidade para a candidatura.
Mas o ruído que alguns responsáveis da concelhia de Lisboa tem feito também não ajuda nada a encontrar uma solução.
Primeiro foi um vice presidente da concelhia lisboeta, com lugar seguro entre os 1500 mais conhecidos militantes do PSD, que para assegurar os seus cinco minutos de fama teve o inaudito atrevimento, mesclado de insensatez e tendência para o disparate,de vir a público desafiar o líder do partido para se candidatar a Lisboa.
Um episódio lamentável a todos os títulos.
Deu ao ilustre militante o protagonismo que certamente desejava mas não resolveu nenhum problema ao partido.
Hoje foram conhecidas declarações do presidente da mesma concelhia, que sei ser pessoa inteligente e sensata e por isso me admiraram, dizendo que se dependesse dele o candidato já estaria escolhido.
Acredito que sim.
Mas não depende dele nem a candidatura a Lisboa alguma vez dependeu de um presidente da concelhia, como o próprio muito bem sabe (foi sempre matéria em que a palavra decisiva foi dos líderes do partido), e por isso as suas declarações apenas servem para realçar a delicadeza (e alguma fragilidade) do partido no assunto.
Também elas não resolveram nenhum problema e apenas serviram para uma vez mais concentrarem as atenções numa matéria em que aquilo que mais se deseja é discrição e bom senso de molde a que seja encontrada a melhor solução.
Acho que em Lisboa, e no país, todos aqueles que tem responsabilidades de escolha de candidatos deviam reflectir seriamente na inutilidade do ruído em torno de algumas candidaturas e deixarem decidir quem tem de decidir.
Sem prejuízo da liberdade de opinião nem do debate interno mas também sem dar mais trunfos a um adversário que já tem tantos.
P.S. Vir a público afirmar que congresso antecipado só se o líder se demitir é contribuir também para o ruído. E uma tentativa de ressuscitar a prática das “passadeiras vermelhas” que as eleições directas enterraram para todo o sempre!
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