O fogo do diabo

O paralelismo entre o diabo e o inferno tem ar de simplista, mas depois de pisar aquele chão, ardido, a arder, não há, por muito simplista que seja, melhor paralelismo, melhor grafia para retratar, do fundo da medula, com escrita crua, um grande pedaço de terra, com pouca gente nela, cada vez menos, porque o fogo lhes quer roubar o que resta.

O diabo anda por ali.

O diabo só caminha no inferno.

O fogo.

Não é só o que ardeu, nem o que ainda arde.

Não é só as centenas de quilómetros seguidos, cercados, continuamente, pelos lados, pela frente, lá ao fundo, lá atrás, por um escuro que nos esmaga.

Ardeu um sem-fim-à-vista da nossa terra.

O diabo desceu às entranhas da vida daquela gente, empurrou aquela gente para o inferno.

O fogo.

O diabo somos nós.

O inferno, por muito que esfrie até ao próximo sol forte, o inferno é agora a terra onde vivem as pessoas mais resilientes, mais corajosas, mais duras que o diabo algum dia podia enfrentar.
Mas, são pessoas. E o diabo é mau.

Depois do fogo começaram a aparecer crianças e adolescentes com défice cognitivo.

Famílias inteiras, muitas, que se alimentam uma vez por dia, pão e vinho.

Prisioneiros do diabo, que o inferno transformou em fogo o verde à volta das suas…casas.

Estão fora das estatísticas.

Perderam tudo.

Começam a descer a serra e a “dar à costa”, um drama, um drama que não imaginamos, no nosso sofá, enquanto devoramos as notícias, ou no fresco do gabinete das decisões, ao telefone.
Há gente no terreno a ajudar, nas roupas, na alimentação, na saúde, voluntários, porque aquilo ali é um cenário de pós-guerra. Isso !

Sorte ou azar, estive a trabalhar no coração do inferno.

Fui em missão de esperança, íamos fazer uma emissão especial sobre a recuperação das gentes, das casas, do futuro. E fizemos, apesar de tudo.
Mas o diabo é traiçoeiro.

Se o é com os resistentes que vivem naquele inferno que jamais imaginariam, não deveria ser com um jornalista, que casualmente se cruzou com ele, durante horas que pararam o meu tempo, para sempre. Jamais apagarei o cheiro a queimado que ficou gravado em mim.

Depois de tudo ardido, tudo é tudo, em Castanheira de Pera viviam da agricultura, tudo o que era agricultura foi queimado, destruído, tudo.

É só um exemplo, como é exemplo aquela casa em reconstrução, ao fundo da rua, nela viviam dois irmãos quando a casa ardeu.
Salvaram-se porque ficaram lá dentro, rodeados pelo fogo.

No outro extremo da rua, lá ao fundo, morreu uma idosa, quando o fogo tocado a vento forte varreu tudo, como napalm.

A escola não tem janelas, parece que rebentou uma bomba, também lá no outro extremo da rua, onde tombou uma das tantas vítimas da besta, a paragem de autocarro, calcinada, toda.
De um lado e do outro da rua longa, só negro. Incondicionalmente. E, o cheiro a queimado.

Ergue-se um até agora nada falado drama de dimensões incomensuráveis.

Cá deste lado, junto ao litoral, na nossa bolha, onde tudo se decide, não conseguimos ter uma ténue ideia do que é, do que tem sido, do que será a realidade daquela gente, daquelas terras. Nem do que está a acontecer, porque o diabo espreita, lá do cimo da serra, escondido entre os eucaliptos da morte. Inúteis.

O diabo é um inútil cobarde, como qualquer cobarde.

É obrigatório ir lá.

Ver as placas calcinadas, onde ainda se nota os nomes que só vimos na televisão, Pedrogão, Nodeirinho, Castanheira, Pobrais, aldeias que não são mais do que uma rua comprida, rodeada pelo que ardeu e pela coragem secular.

Sentir o cheiro a queimado, por todo o lado. É obrigatório ir e estar lá

E, se eles precisam.

Olhar de frente o filho da puta do diabo, e sentir a impotência.

Não temos o direito de olhar para trás, de pensar que já passou.

Não passou, não passará tão depressa, e se não formos nós, eu, você, os nossos, todos, a ajudar aquela gente, nossos irmãos de alma, então, o diabo somos nós, porque conseguimos ser muito mais maus que a besta.

Não podemos deixar cair aquela gente, sem terra, só com o cheiro a queimado no olhar.

Porque, acredite-me, o diabo é forte, o inferno é um lugar enlouquecido, mas nós falhámos.

Falhámos com aquela gente.

Porque o bombeiro, exausto, a dar o seu melhor, sempre pouco perante o monstro de muitas cabeças, porque a dinâmica do fogo muda a cada segundo, porque esse bombeiro não sabia sequer o nome daquela aldeia onde estávamos a lutar.

Eu perguntei-lhe, porque ia entrar em directo, eu não sabia, porque tinha sido apanhado de surpresa pelo monstro, quando ia em viagem, quando decidi ficar ali e cumprir a minha missão, de tshirt e calções, porque era assim que ia, estava de folga, naquela altura.

“Como se chama este local?”, perguntei cá de longe, “não sei”, respondeu-me.

Não conhecia o terreno, não podia conhecer, não era de lá, não é este o diabo com quem está habituado a lutar.

Ou os dois bombeiros que ajudavam numa serração, do lado de cá de um frágil arame farpado, apagando uma pilha de madeira, quando centenas de pilhas de madeira ardiam para lá do arame farpado.

Baixaram as mangueiras, já havia pouca água no auto-tanque, e a decisão entre o que se salva e o que arde é tomada em segundos, como o tempo que o vento vira as chamas gigantes de lá para a nossa direcção.

Ao ponto de deixar de ter contacto com o Nuno, que estava a dois metros de mim, envoltos num fumo asfixiante.

Nesse directo, o Nuno caiu num buraco, em directo, enquanto caminhávamos.

Em directo, tirei-o de lá e continuámos a escutar as vozes daquela gente impotente, com um balde de água na mão.

Ou os pequenos fogachos que pegavam fogo e que segundos depois eram um gigante mar de labaredas, sem que o auto-tanque tivesse parado, parámos nós, tarde de mais, tudo ardia. Fugimos.

Eles não tiveram culpa, havia casas em perigo, mais à frente, no escuro da noite, que o fumo…

E a coluna vinda do sul à entrada da vila a aguardar ordem para avançar.

Tudo ardia, que aguardavam para avançar noite dentro?

“Sabe o que é? Eles não são de cá, não entram na floresta como aqueles ali, aqueles conhecem o terreno, estão habituados”.

Eu vi um GNR, à civil, eram dois, já antes, horas antes tínhamos estado no chamado teatro de operações.

O fogo começou por volta das seis da tarde, seis horas depois estava por todo o lado, a quilómetros de distância.

A inteligência não se mede em quilómetros, e houve um pateta chamado Borges, de Coimbra, que tentou fazer graça com o que eu disse, mentindo, nas redes sociais.

Um dia convido o Sérgio Borges a ir lá comigo. Sempre fará qualquer coisa de útil à sociedade, que de inúteis, e cobardes, obviamente, estão as redes sociais cheias.

Nessa rua estreita, no alto da serra, envoltos em fumo, quente e medo, adrenalina e coragem, consciência e inconsciência, demos com esse GNR a tentar retirar, diplomatica e ternurentamente uma avó, que se dirija para casa, como se nada fosse.

Tudo ardia por todo o lado, o barulho das chamas;

Acerquei-me deles.

“Já viu, aqui a dona Leonor, 97 anos e aqui uma jovem”, disse-me o guarda.

“Dona Leonor, tomara eu chegar assim à sua idade”, disse-lhe, com um sorriso mal disfarçado, de medo, aquela coisa da adrenalina, mas em estado puro.

Os directos, as constantes movimentações dos carros de bombeiros, os aviões ali por cima de nós, a água que nos caía em cima, juntamente com as cinzas, o fogo em redor, o fumo que ainda não saiu da roupa, que nunca irá sair das veias, a serra ora verde, ora laranja, ora negra, negritude e cheiro a queimado e o inferno, e a dona Leonor, e mais um senhor da casa mais a cima, “que só tem uma perna e tem dificuldades em locomover-se, temos que ir lá tirá-lo”, disse-me o GNR, “somos só dois e estávamos de folga”.

“Se o fogo chegar aqui, se o vento mudar, fujam pela parte de cima e não virem à direita”.

O aviso ficou sublinhado; “não virem à direita, senão ele engole-vos, virem à esquerda, vão estrada abaixo”.

Daquele cabeço, quando olhávamos em volta, conseguíamos perceber que do nada tudo ardia, em segundos, o tempo do vento, forte.

À uma e meia da manhã fizemos o nosso último directo. Eu, o repórter de imagem, Nuno Santos, e o Manuel Gião, amigo há décadas, piloto de automóveis, que nos apareceu no meio da noite escura, alaranjada pelo fogo como se fosse a Aurora Boreal, mas não era, era o inferno ali, em frente aos nossos olhos.

Subimos 60 metros, pelo asfalto.

As chamas acompanharam o nosso directo, em directo, ali a uns 30 ou 40 metros de nós, dependia de como o vento as empurrava.

Um minuto, nem tanto, e o local onde antes tínhamos estado ardia totalmente, o fogo estava a passar a estrada para o outro lado, os cabos de alta tensão rabiavam, cobertos por faíscas, quase junto aos nossos pés.

Nessas duas noites não dormi. Ouvia-o, sentia-o, cheirava-o, ainda o cheiro.

Continuava a pensar nas muitas teorias que as pessoas daquelas aldeias e vilas e bosques e ruas me foram desfraldando, os aviões, as madeiras, os pirómanos, alguns foram até claros, em directo, em off, para lá disso.

Eram pessoas que conversavam, que contavam, que me ouviam.

Admito que as suas opiniões sejam toldadas pelo drama que jamais os irá deixar. Admito.

Mas, a minha primeira condição é a de homem, a segunda de jornalista.

Só inverto os papéis, quando estou no meio do inferno, de frente com o diabo.

É o filtro que uso.

É na condição de homem que de lá vim com a convicção que praticamente tudo falhou, não resultou, os planos, as estratégias, as intenções.

Senti desordem geral, mas admito errar, não sei de combates aos fogos, tecnicamente, mas foi isso que senti, com a louca dinâmica do vento, com os eucaliptos a chamarem pelo fogo, com as casas rodeadas de árvores, admito errar, porque isso ajudou muito, embora também tenha tido a certeza que tudo isto aconteceu, porque vi, escutei, senti na pele e na alma.

Mas, isso é apenas o diabo a gozar.

O diabo ganhou.

Não. Não ganhou, ainda.

O diabo só vai ganhar se nós não formos até lá, todos, para sentir aquele cheiro intenso a queimado, para ver aquelas coroas de flores, em pontos próximos, naquela estrada nacional 263-1, que as velhinhas de Pedrogão não gostam que lhe chamemos Estrada da Morte.

Parece muito maior nas imagens do drone.

E é, porque todas aquela pessoas morreram em poucos metros, em poucos segundos, e estando lá sente-se o peso em cima, o silêncio, a tristeza profunda, como se fossem um de nós, nós mesmos.
Não lhe chamei Estrada da Morte, nunca, nas dezenas de horas em que estive em directo.

Elas não mereciam essa desfeita.

O prometido é devido, dona Alvina.

Há lá tanto para ajudar.

Tantas pessoas que sofrem, impotentes, perante autoridades que não foram competentes, perante políticos mórbidos que não querem saber deles, mesmo em altura de votos, perante a nossa total apatia, que vai para lá da solidariedade nas redes sociais.

O verde levará décadas a voltar em pleno.

Em centenas de quilómetros percorridos, o verde era raro, mas o verde nasce mesmo no meio das cinzas, como a natureza é fantástica.
Salpicos de verde, em troncos de árvore ardidos.

Apenas isso.

Isso, e o inferno.

Porque o diabo somos nós, se não formos lá, se não tivermos a coragem de pisar aquele chão ardido.

Eu já lhe conheço o focinho, já lhe senti o hálito e o toque, o medo e a coragem, o exemplo e a morte.

Eu jamais serei o diabo.

Eu jamais vos deixarei cair.

Porque vocês ensinaram-me a erguer-me, pelo exemplo.

As melhoras, senhor Brandão.

Um abraço.

Nota: As fotos têm direitos reservados @jgq

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