Insónias

Fio desencapado ou Incêndio no Museu Nacional

Pelo mundo tem-se falado, nesses últimos dois dias, sobre o incêndio do bicentenário Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, situado naquela que foi uma das cidades mais lindas do mundo – o Rio de Janeiro –, e que jaz morto ali mesmo. Para entender o tamanho da tragédia é preciso entender quem ateou-lhe fogo. Não trago números, mas trago um pedaço da verdade. Embora tenha angariado fama, ninguém conhece o Brasil – esse vilão de si mesmo. Só o brasileiro o conhece e, se não for muito esperto, pode ser o próprio Brasil sem se conhecer – a pior das sinas.

Bem-aventurados os que não nascem no Brasil ou aqueles que podem deixá-lo. Aqui, as bênçãos da Natureza contrabalançam a fome, o frio e a sede de nossas almas – pobres almas, carcomidas pelas ambições da Academia, dos ricos e famosos, dos jornalistas e dos políticos. Esses abortos da razão e da sensibilidade, velhos conhecidos … esses vícios sem virtudes, inflados pela vontade de um poder fraco e mixo ou de um dinheiro alto que só pode comprar o baixo.

Li que Portugal e França querem ajudar na reconstrução do Museu. Por favor não deem nada para o Brasil, nem bola. Tudo aqui queima, mingua ou apodrece, numa vida insalubre que respira o enxofre do inferno, num faz de conta cheio de custas, mais extraordinário do que o mais alucinado dos contos de fadas.
Aqui, não se pode ter a ousadia de adoecer. No Brasil não se tem saúde, tem-se sorte, fama ou dinheiro.

Aqui, segurança é não vacilar. Se bem que até os muito espertos podem morrer num latrocínio corriqueiro, num assassinato sem paixão, numa molecagem de matar. Matar é brincadeira aqui. Policiais e bandidos, sem muito esforço, fazem números de guerra nos nossos dias.

Aqui, educação é só uma palavra na boca dos políticos, uma ideologia e outros credos na ação dos professores, e uma completa estranha para o povo rico ou pobre, finalmente iguais. Não descuide o leitor que a cultura e a arte – ambientes da educação- foram dominadas por clichês e hipocrisias decididos pela ocasião, pelos falsos mecenas e pelos artistas impostores, imbuídos todos de tantos motivos vários, menos pela arte.

Enquanto milhões são gastos pelos mesmos de sempre, nos velhos ou novos lixos desse mundo de imitação, cópia da cópia, as ideias e a memória são destruídas com a solenidade do passado ou com o verde da novidade.

Não deem nada para o Brasil. Aqui não se frequenta museus, frequenta-se filas para empregos, hospitais, guichês, praias sujas e compras. Aqui se patrocina shows dos velhos artistas e seus apadrinhados ou filmes ridículos, ridículos à brasileira. Nisso, vale um aparte: como um ato de misericórdia, alguém precisa dizer que o cinema brasileiro não é cinema, mas sim um cabide de vagabundos saracoteando em péssima sonoplastia. Quem vai dizer finalmente que este rei está nu?

Queimou o Museu Nacional porque no Brasil todo o passado já foi queimado, ou está escondido do público, a título de conservação, ou exposto, mais que ao público, aos riscos. Paradoxos sem charme que o Brasil reproduz como pulgas. Nós deixamos o passado no passado, não o vemos como nossa identidade, patrimônio e aprendizado, mas como velhos trapos sem sentido no novo guarda-roupa da palavra nova – a mentira.

Não deem nada para o Brasil, ou melhor, se quiserem fazer um negócio da China, finquem aqui empresas para amamentar os cofres sem fundo dos governos; construam shoppings centers, concessionárias e petshops, onde o fisco possa mitigar sua cobiça infinita e o consumista consumir; deem charmosos cafés onde os professores possam vender seus próprios livros e reunir sua choldra para o velho coça-coça; deem pasto e cerveja ruim para os estudantes reclamarem suas ladainhas até suas formaturas; construam estádios de futebol e igrejas para alcoólatras e inadimplentes; amarrem mais forte as mãos dos jornalistas (eles podem morrer em liberdade); deem o luxo para os ricos e famosos distribuindo esmolas atrás de esmolas. Assim permanecerão. Mas não entrem na mentira despudorada, não venham ajudar a reconstruir um bem infungível. O museu morreu, sem sequer sabermos que ele existia; nós morremos também, da mesma morte. Se quiserem animar defuntos tragam o consumo, se tiverem piedade venham apenas fechar os nossos olhos.

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