Do reiterado abastardamento de «A Portuguesa»

Portuguesa

Interrogo-me se o hino nacional será de facto ensinado nas escolas portuguesas. Há dias, no concerto da tomada de posse do presidente Marcelo Rebelo de Sousa, ouvíamos Marisa a deturpar a letra: «a voz dos teus egrégios avós, que HÃO de guiar-te à vitória». Hoje, no encerramento do congresso do PSD, uma jovem adulterou de novo a letra de «A Portuguesa» (interpretada de forma muito rígida e sem qualquer brilho): «SOBRE as brumas da memória…».

O meu neto, que tem 3 anos de idade, anda numa escola canadiana, onde já está a aprender o hino nacional do Canadá (coitadinho! 🙂 ). Mas todos nós, em casa, esforçamo-nos obviamente por lhe ensinar também «A Portuguesa». Diga-se em abono da verdade que, apesar de os versos do militar Henrique Lopes de Mendonça serem um tanto ou quanto belicistas, a música de Alfredo Keil, de ascendência alemã, até é bem bonita!

Convenhamos que o PSD e o hino nacional teriam ficado hoje muito melhor servidos se este tivesse sido interpretado pelo próprio Passos Coelho! Apesar de ter sido rejeitado num casting por La Féria, o presidente do PSD até tem uma bela voz de barítono. Além de que já demonstrou sobejamente que sabe a letra de «A Portuguesa» e que é capaz de a interpretar com convicção! Com a mesma convicção com que discursou durante uma hora e dez minutos, com a voz bem colocada e com uma mímica facial e manual teatralmente irrepreensíveis.

Sublinhe-se que este plaidoyer pelo hino nacional nada tem a ver com nacionalismos bacocos! Aliás, «A Portuguesa» foi formalmente designada um dos símbolos nacionais de Portugal na Constituição de 1976 (artigo 11.°). O hino nacional é, na verdade, uma referência da nossa memória colectiva e, como tal, da nossa identidade nacional. Não merecerá por isso ser assim abastardado de forma tão recorrente e tão leviana.
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