A Direita Portuguesa: Da Frustração à Decomposição

Os créditos do título deste meu texto são exclusivamente do Nuno Garoupa. Apropriei-me do título do seu último livro para titular este meu artigo. Confesso que não consegui melhor para ilustrar, através de palavras, os problemas da Direita Portuguesa.

Ao longo dos últimos anos o Partido Social Democrata foi definhando, deixou de ter protagonistas capazes de mobilizar os portugueses. Não tem um desígnio, nem um projecto para o País. Hoje as sondagens falam que o PSD poderá correr o risco de ficar na casa dos 20% das intenções de votos.

O CDS passa exactamente pelos mesmos problemas. Os mesmos estudos apontam que gradualmente poderá voltar a ser o “Partido do Táxi”

Há alguns anos que o centro-direita não tem estratégia, não tem rumo, navega ao sabor da espuma dos dias.

Os últimos resultados eleitorais e as sondagens não deixam margem para dúvidas.

Ou seja, o centro-direita português atravessa uma crise sem precedentes.

Nos últimos anos Nuno Garoupa, o professor que dá aulas de Direito na importante Universidade de George Mason, em Washington, nos Estados Unidos da América, que antes esteve à frente dos destinos da Fundação Francisco Manuel dos Santos, assumiu-se como o português mais lúcido na análise e no diagnóstico acertado e atempado do estado da direita portuguesa, da nossa democracia, do regime e do País.

É suficiente ler o seu último livro intitulado “A Direita Portuguesa: Da Frustração à Decomposição.”

Este livro de Nuno Garoupa apresenta-se dividido em três capítulos que reúne vários textos publicados pelo autor entre 2004 e 2018.

O primeiro em que aborda o período a que chama de “frustração”, compreendido em 2005 a 2011, anos do Governo Sócrates, onde reflecte sobre a incapacidade da direita partidária consubstanciar um projecto político alternativo ao Partido Socialista.

O segundo capítulo faz uma reflexão sobre o que foi o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, entre 2011 e 2015, a que chama de “desilusão” face à ausência de um verdadeiro programa reformista.

No terceiro capítulo, relativo ao período entre 2015 e até à actualidade, que corresponde ao período que denomina de “decomposição” iniciada com a subida ao poder de António Costa, que o centro-direita foi manifestamente incapaz de evitar, seguindo-se de anos de uma total incapacidade de fazer oposição ao governo da “geringonça”.

Por isso, hoje o centro-direita não se pode queixar que chegou à situação que vive por falta de aviso. Ao Nuno Garoupa juntaram-se nestas criticas mais alguns cidadãos que não dependem do Orçamento de Estado para a sua sobrevivência.

Na passada sexta-feira o Nuno Garoupa anunciou que deixaria de escrever as suas crónicas no Público. Mas antes tinha deixado gradualmente de escrever noutros fóruns similares.

Para mim não foi uma surpresa, somos Amigos e falamos todas as semanas.

Mas foi uma surpresa para os portugueses mais atentos ao fenómeno político desiludidos com a governação de António Costa, que vive sem um único desígnio para o país, que toma decisões em função exclusivamente da “caça ao voto”, que vive na dependência do apoio da “geringonça”, que contribuiu para o estado calamitoso a que chegou o SNS, para uma Justiça que não funciona, para um depauperado sector dos transportes públicos, para uma cultura de pouco rigor na Educação, enfim, para o degradar, dia após a dia, de todos os serviços públicos.

Neste último fim de semana recebi dezenas de mensagens de pessoas manifestando a tristeza pelo facto do país ter deixado de poder contar, desde a passada sexta-feira, com o contributo inestimável que o Nuno Garoupa dava ao debate político e público.

O Nuno Garoupa, quer gostem ou não, é uma personalidade incontornável do país, respeitável, respeitado e escutada por largos sectores da sociedade portuguesa.

Também confesso a minha tristeza mas acima de tudo compreendo e respeito as razões de um Amigo que muito prezo.

Penso que se cansou ao fim de tantos anos de ver o centro-direita a definhar, de falar e não ser escutado pelos directórios partidários, no fundo de remar contra a maré, da exposição publica a que esteve sujeito, dos muitos insultos gratuitos que vi a seu respeito disseminados nas redes sociais.

Tudo tem limites.

Apesar de tudo estou convicto que não foi um adeus, prefiro acreditar que será apenas um até já.

A regeneração e renovação da vida política e pública parece-me que terá que passar pelo aparecimento de novos protagonistas, com uma renovada forma de estar e de fazer política que sejam capazes de mobilizar novamente os portugueses, todos obviamente, mas sobretudo as novas gerações. E são pessoas como o Nuno Garoupa que o poderão fazer, Não só ele, mas também outros como ele, que poderão, a partir de Outubro, ter um papel fundamental neste processo urgente de reconstrução do centro-direita em Portugal.

Paulo Vieira da Silva

Gestor de Empresas / Licenciado em Ciências Sociais – área de Sociologia
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

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