Dia Mundial do Livro – Portugal e o Futuro

portugal e o futuro

Neste que é o Dia Mundial do livro, um dia que deveria servir para a que a comunicação social esquecesse momentaneamente os problemas a que a Humanidade está tão entregue e empenhada e aproveitasse a ocasião para finalmente poder servir a sua função de ferramenta ao serviço do aumento do conhecimento, a dois dias de mais uma comemoração do 25 de Abril, dia em que uma determinada falange do povo português, como cantou José Mário Branco no histórico tema FMI, costuma brindar-nos com a terrível hipocrisia de “sair à rua de cravo na mão a horas certas”, hábito que adaptado à prática moderna, já nem é sair à rua, já nem é coisa nenhuma, materializando-se agora num punhado de batedelas nas teclas para dar vivas às liberdade, ocorreu-me a ideia de relembrar aos portugueses um dos motes que deu força ao Movimento das Forças Armadas.

Estávamos nas vésperas da revolução quando o General António Spínola, monárquico convicto, decidiu expressar finalmente todo o sentimento que era visível nas tropas portuguesas que combatiam no Ultramar: era urgente abalar as pedras basilares em que assentava o moribundo regime que Marcelo Caetano dirigia com recurso a pinças, alguns meses depois deste ter esfumado (quando acossado pelos primeiros movimentos de alguma insatisfação popular) a sua vontade inicial (assim que subiu ao poder) de liberalizar e modernizar o país, assim como diminuir a repressão exercida pelos aparelhos de coacção que garantiam a sustentabilidade do regime. A resposta ao problema da Guiné, problema que mobilizava pela terceira vez (as primeiras tinham sido as crises estudantis e 1962 e 1969) um certo consenso transversal a vários sectores da sociedade portuguesa, era na opinião escrita pelo General Spínola um problema fraturante que teria que ser resolvido através do debate político e do debate social da questão visto que este ultrapassava todas as possibilidades razoáveis de resolução por via do campo militar, porque a guerra jamais seria vencida devido ao extremar de partes existente e à enorme resistência que era feita pelos movimentos armados pró-independentistas. No fundo, era uma guerra sem razão que arrastava para a mortandade milhares de jovens portugueses (metropolitanos e coloniais) a troco de nada (os povos das colónias tinham efectivamente o direito à autodeterminação) e um problema que há anos que nos tornava uma nação completamente isolada na comunidade internacional.

 

spinola

A obra deu efectivamente o gás de que o MFA necessitava. Apanhando o regime em contramão, “o inteligente que acabou com as canções”, antológica metáfora escondida no poema de José Carlos Ary dos Santos sob interpretação de Fernando Tordo, considerou o manifesto de Spínola como um “verdadeiro de oposição ao regime”, antevendo-o logo ali como uma senha que anunciava que um golpe militar estava a ser perpetrado pelos militar. Marcelo leu o livro a 20 de Fevereiro. De um só trago. Anos mais tarde, já no exílio, sobre o livro apanhariam a Marcelo a seguinte narração dos acontecimentos: “O livro não era uma tese mas sim um manifesto, sob o nome de Spínola, pelo Estado-Maior Geral e traduzia a intenção de intentar um golpe militar” – Dois dias depois da demissão de Spínola e Costa Gomes (por inerência do facto de ter ordenado a publicação do livro a 11 de Fevereiro de 1974) a 16 de Março, uma coluna militar que saiu das Caldas da Rainha em direcção a Lisboa acabaria por dar o prévio aviso ao regime do que se iria passar cerca de 1 mês depois na Noite Solene que marcaria indefetivelmente o rumo da história deste país.

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