A merecida cuspidela de Wyllys em Bolsonaro

Existem actos que por mais censuráveis em sede de uma instituição democrática, tem a sua razão de ser. De forma aberta, sem qualquer pejo, sinto-me forçado a afirmar que não culpabilizo o deputado Jean Wyllys pela cuspidela que este deu no deputado do PSC Jair Bolsonaro em pleno congresso brasileiro durante a discussão e votação do processo de destituição porque numa situação semelhante, se eu estivesse porventura na pele de Wyllys faria decerto o mesmo.

Quem não o compreende, não é humano.

Chega a um ponto na vida de uma pessoa em que depois desta ter tido a coragem de se afirmar como é, de afirmação as suas orientações políticas e sexuais de forma livre, aberta, humana, de se ter esforçado tanto para lutar contra vários preconceitos, de ter chorado tanto a meio de tantas batalhas ou de ter lutado durante tantos anos pelos seus ideiais, no caso de todos os antigos presos políticos do regime militar brasileiro, custa muito ouvir, em pleno século XXI, o veneno que sai da boca de Jair Bolsonaro. Para corroborar o meu argumento recordo algumas declarações polémicas tidas pelo “fluminense” ao longo dos anos:

  • O erro da ditadura foi torturar e não matar – numa discussão com manifestantes pró-Dilma em 2014.
  • Pinochet deveria ter matado mais gente
  • Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo – numa entrevista à revista Playboy.
  • Se um casal homossexual vier morar do meu lado, isso vai desvalorizar a minha casa! Se eles andarem de mão dada e derem beijinho, desvaloriza – idem
  • Não te estupro porque você não merece – em resposta à deputada federal Maria do Rosário. actualmente Ministra dos Direitos Humanos.
  • “Você me chamou de estuprador, você me chamou de estuprador! Vagabunda! Vai dizer que você é uma coitada agora? Chora agora. Eu não tenho medo de perder meu mandato por quebra de decoro”
  • A polícia federal deveria ter matado mil e não 111 – sobre o massacre do Carandiru.
  • Não vou combater, nem discriminar, mas se eu vir dois homens se beijando na rua, eu vou bater. 
  • Parlamentar não deve andar de ônibus
  • Mulher deve ganhar salário menor quando engravida 
  • ‘Eu defendo a tortura. Um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem que ser colocado no pau-de-arara imediatamente. Não tem direitos humanos nesse caso. É pau-de-arara, porrada. Para sequestrador, a mesma coisa. O cara tem que ser arrebentado para abrir o bico” – 2000
  • “Essa é uma farsa, uma mentira. É um projeto que caminha apenas para apurar o justiçamento no Araguaia, roubos, sequestros, execuções e justiçamentos. Isso é uma mentira” – em 2011 sobre a Comissão Nacional da Verdade instaurada por Dilma Rousseff para apurar todos os responsáveis pelos crimes cometidos durante a ditadura militar.
  • “O kit gay não foi sepultado ainda. Dilma Rousseff, pare de mentir. Se gosta de homossexual, assume. Se o teu negócio é amor com homossexual, assuma. Mas não deixe que essa covardia entre nas escolas de primeiro grau”
  • ”Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente promíscuo como lamentavelmente é o teu” – em resposta à cantora Preta Gil. O caso foi entretanto arquivado pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil.
  • ”Não posso ter medo dos senhores, até porque a maioria aqui são heterossexuais preocupados com a família. Se fosse LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais), eu seria condenado Não vou me calar com essa representação sem vergonha, com esse lixo. Sou parlamentar com P maiúsculo, não com H minúsculo de homossexual” – no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.
  • “O PSol (de Jean Wyllys) é um partido de pirocas e de veados. Eu estou me lixando para a senadora. Eu vou responder à senadora [Marinor Brito] num papel higiênico. A imagem está lá, ela me deu uma porrada, me xingou de homofóbico, de corrupto e de assassino, daí eu estou errado, feri a feminilidade dela? As mulheres do Brasil que me desculpem, mas não são iguais a ela não”

Afinal de contas Bolsonaro mereceu-a, indiferentemente do facto se existiu ou não premeditação da sua parte como alega o deputado do PSOL eleito pelo Rio de Janeiro. Mereceu-a pela forma vil em como ele próprio desrespeitou durante anos vários sectores da sociedade brasileira. Mereceu-a pela forma cruel como criticou as escolhas e orientações sexuais de quem no fundo lhe paga o salário como congressista. Mereceu-a porque acima de tudo é um político que descredibiliza qualquer democracia através da sua intolerância social, do seu insulto fácil e do pensamento tacanho. O Brasil não precisa da família Bolsonaro. O Brasil precisa neste momento de políticos honestos, de ideias limpas e com uma visão de futuro para o país.

Relembrar em pleno Congresso Brasileiro a memória do maior torturador da história da ditadura militar brasileira, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador de centenas de presos políticos como foi Dilma Rousseff, foi como de um momento para o outro, atentar sem escrúpulos contra a dignidade de todos os que foram torturados pelo regime militar brasileiro, contra todos aqueles que lutaram pela instauração de um regime político democrático no Brasil, de todos aqueles que lutaram pela liberdade de expressão, direito que Bolsonaro tanto usa, ironicamente, para dizer as mais variadas bacoradas que lhe passam para a cabeça e que por conseguinte passam por osmose para o pensamento do povo brasileiro. São precisamente esse tipo de declarações que alimentam posições racistas, preconceituosas e xenófobas capazes de gerar a escalada de violência.

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