Caçados nos Panamá Papers

Fenómeno transversal revelado nos últimos dias pelas investigações móvidos pelo Consócio Internacional de Jornalistas em colaboração directa com o jornal alemão Suddeutsch Zeitsung e centenas de jornalistas associados de outros órgãos de imprensa mundiais (em Portugal, fazem parte da empreitada o Expresso e a TVI 24) os Panamá Papers estão a por nu alguns dos intervenientes do desporto que também esconderam capitais em sociedades offshore com recurso aos serviços de advogados e da empresa Mossack Fonseca. Os vários jornalistas envolvidos na investigação tem vindo a revelar alguns dos heróis desportivos nacionais envolvidos no mega processo que já tem feito estragos ao nível político com a demissão do primeiro-ministro islandês Sigmundur Gunnlaugson durante esta semana após os intensos protestos realizado pelo consciente povo islandês e que promete meter os Ministérios Públicos de vários países a investigar situações de evasão fiscal.

Não tomando uma postura crítica (até porque a informação disponibilizada ainda não está completa) cinjo-me aqui a publicar a lista de desportivas apanhados pela investigação e os respectivos valores depositados em contas criadas em paraísos fiscais:

Editorial use only. No merchandising. For Football images FA and Premier League restrictions apply inc. no internet/mobile usage without FAPL license - for details contact Football Dataco Mandatory Credit: Photo by Kieran McManus/BPI/REX (4550267dx) Lionel Messi of FC Barcelona laughs UEFA Champions League 2014/15 Round of 16 Second Leg Barcelona v Manchester City Camp Nou, Barcelona, Spain - 18 Mar 2015

1 – Lionel Messi.

O astro argentino do Barcelona vê-se envolvido novamente num escândalo motivado pelas verbas recebidas por direitos de imagens, poucos meses depois de ter sido constituído arguido, juntamente com o seu pai, pela justiça espanhola devido a 3 crimes de evasão fiscal relacionados precisamente com os 4,1 milhões relativos a direitos de imagens que foram agora descobertos pelos Panamá Papers na conta de uma sociedade controlada Mega Star Entreprises, conta que não é controlada directamente pelo seu pai como foi afirmado mas por um testa-de-ferro próximo da família do jogador. Apesar de Messi já ter pago 5 milhões de euros ao fisco espanhol relativos a tributações sobre os valores recebidos por direitos de imagem entre os anos 2007 e 2009, para eventualmente ver arquivada a queixa por parte do Ministério Espanhol alegando para tal os seus advogados que o jogador desconhecia por completo o crime em que incorreu, o julgamento continua em curso, tendo para já pedido o Ministério Público Espanhol ao colectivo de juízes uma pena de 18 meses para o seu pai Jorge Horácio Messi.

A família do futebolista já veio publicamente desmentir a sua ligação à empresa Mega Star Entreprises, afirmando também que irá processar o Consórcio Internacional de Jornalistas por difamação e falsificação de provas.

2 – Gabriel Heinze

O antigo lateral esquerdo\defesa central de 37 anos, internacional pela argentina por 72 vezes que representou entre outros clubes, Valladolid, Sporting, Manchester United, Real Madrid, PSG, Roma e Marselha, actualmente ao serviço dos Newells Old Boys da Argentina, foi indiciado de ter criado em 2005 (quando jogava em Manchester) a empresa Galena Mills, uma empresa sediada no paraíso fiscal oferecido pelas Ilhas Virgens Britânicas para canalizar algumas verbas relativas a direitos de imagens para fugir ao fisco inglês.

3 – Ivan Zamorano 

zamorano

O excitante avançado Chileno que fez as delícias da minha adolescência nos anos 90, ao serviço, principalmente de Inter e Real Madrid, depositou verbas relativas a vários direitos pagos pelo Real Madrid numa sociedade offshore de nome Fut Bam International com sede nas Ilhas Virgens Britânicas, uma ilha que faz parte do território da Grã-Bretanha que oferece uma garantia de tax-free a todos aqueles que depositem valores no seu prestigiado offshore. A sociedade, criada em 1992 foi entretanto encerrada a 2005, estando contudo o Ministério Público Chileno ainda a procurar obter informações sobre o momento em que o seu antigo internacional levantou o dinheiro amealhado nessa sociedade para avançar com um processo judicial contra o mesmo por evasão fiscal.

4 – Leonardo Ulloa

O avançado argentino, actualmente ao serviço do Leicester, pediu a uma sociedade de gestão de participações sociais com sede em Nova Iorque, a Jump Sports Rights LLC para junto das sociedades offshore com sede em Samoa, canalizar algumas das verbas obtidas pelo jogador pelos contratos assinados com o San Lorenzo da Argentina, Almería e Castellón de Espanha. A empresa foi criada pelas duas empresas detidas pelo empresário José Manuel Garcia Osuna, gestor de carteiras de vários desportistas, que está actualmente acusado de vários crimes de fraude pelo Ministério Público Espanhol, uma delas relacionadas com um crime de alegada (ainda não provada) retensão feita a uma percentagem considerável do valor que deveria ter sido pago\devolvido ao jogador argentino pelos seus direitos de imagem e prémios de assinatura de contrato.

5 – Manuel Vilarinho

O antigo presidente do Benfica foi o primeiro famoso nacional cuja ligação ao escândalo foi denunciada pelo Expresso na madrugada de sexta para sábado. O escândalo e a revelação que Ricardo Costa fez no Jornal da Noite da SIC (a de que o Expresso viria dentro de horas a anunciar alguns dos portugueses presentes no acervo particular que está a ser analisado pelos jornalistas daquele órgão) levou Vilarinho a confessar a Costa que já estava à espera do telefonema do Expresso para comentar o seu envolvimento num caso que está intimamente relacionado com outro que foi alvo de investigação por parte do Ministério Público Português, o caso Monte Branco, caso no qual Vilarinho foi supostamente interceptado a “lavar dinheiro” no famoso Francisco Canas, ou Zé das Medalhas, proprietário de uma casa de câmbios na baixa de Lisboa, a Montenegro e Chaves, Ltd.

Afirmando que “não tem rabos-de-palha”, o antigo presidente do Benfica, antecessor de Luis Felipe Vieira, foi indiciado pelo envolvimento directo à empresa Edgest , como presidente do Conselho de Administração. A Edgest, sociedade imobiliária especializada na compra e venda, arrendamento e gestão de activos de todo o tipo de imóveis, relacionou-se durante anos com uma empresa chamada Soyland Limited Liabilty Company, empresa com sede no Estado do Nevada (Estados Unidos) cujo beneficiário principal era o antigo dirigente, devidamente ajudado pela Mossack Fonseca, sociedade com a qual apurou o Expresso contactos directos durante vários anos. A informação foi confirmada de forma humilde por Vilarinho. O caso relaciona-se com o caso Monte Branco na medida em que um dos rastreios providos pelo Ministério Público ao dirigente passou por uma sessão de buscas à Edgest.

Estes não foram as únicas movimentações obscuras detectadas ao ex-presidente do Benfica. Em Agosto de 2002, Vilarinho vendeu 16,8% das acções da SAD encarnada ao clube Sport Lisboa e Benfica, alienando portanto o clube uma parte significativa da sua SAD que Vilarinho tinha adquirido a título de investidor pessoal meses antes pelo valor nominal de 21 milhões de euros de 29,07% desta mesma. Em Agosto de 2007, com 12,27% da SAD encarnada, Vilarinho confirmou que ofereceu como garantia para um empréstimo, 11,2% da sua participação (restando-lhe 1,07%) num negócio em que o presidente do Benfica confirmou a alienação de dois lotes de 840 mil euros (1680 acções do clube encarnado) como garantia a um empréstimo oferecido pelo Banco Internacional Crédito, banco entretanto adquirido pelo BES de Ricardo Salgado, negando porém o banco a aceitação dessa mesma garantia bem como a posse desse activo e dos respectivos direitos de voto em Assembleias-Gerais da SAD.

6 – Diego Forlán

forlan

O mítico ponta-de-lança uruguaio, internacional em 112 ocasiões, actualmente com 36 anos ao serviço do Peñarol, figura como tesoureiro de uma sociedade offshore com sede no Panamá. O jogador deverá ter depositado cerca de 9,6 milhões de euros relativos a direitos de imagem nessa sociedade, não sendo também, no seu caso, caso virgem dada a sua participação (quando era jogador do Atlético de Madrid) na Lista Falciani, uma lista que resultou curiosamente de uma investigação movida pelo Consórcio Internacional de Jornalistas em conjunto com o jornal francês Le Monde na qual 130 mil personalidades internacionais foram descobertas como clientes do famoso caso do banco HSBC.

7 – Willian

O médio ofensivo brasileiro do Chelsea foi descoberto como o único accionista da empresa Saxon Limited, sociedade de gestão de participações no offshore do Panamá com a ajuda da Mossack Fonseca. Associado à empresa desde 2013, curiosamente o ano em que chegou ao Chelsea, é acusado de ter depositado comissões relativas a prémios de assinatura e direitos de imagem pagos pelo clube Londrino, que curiosamente também vê o seu nome relacionado com este escândalo pelo facto do jogador brasileiro ter dado como a sua residência oficial o centro de estágios do clube londrino.

8 – Clarence Seedorf

O antigo internacional holandês, estrela do Ajax, Real Madrid e Milan, aparece como accionista de uma empresa italiana de joalharia que patrocinou a sua equipa de motociclismo com recurso a 600 mil euros depositados numa conta offshore no Panamá.

9 – Gianni Infantino

Gianni Infantino

No meio de todo este lodaçal não poderia faltar de fora uma grande figura ligada à FIFA e à UEFA. E para dar um bocado de pólvora ao escândalo, nada melhor que revelar as actividades do seu novo presidente, o italo-suiço Gianni Infantino. Há cerca de um mês atrás quando Infantino foi eleito pelos delegados-votantes nas eleições para a presidência do organismo, o advogado referiu, nas primeiras declarações como recém-eleito presidente que o seu mandato serviria essencialmente para limpar o nome do organismo dos enormes escândalos que abalaram a estrutura do organismo nos últimos anos, desde o escândalo da compra de votos para a atribuição dos mundiais aos subornos pagos por Blatter a Platini em 2001 por supostos trabalhos de assessoria que Blatter autorizou de forma ilegal em 2011. 

Passado um mês, o inocente Infantino, terá intermediado enquanto dirigente da UEFA, em específico, como director do departamento jurídico da instituição, um negócio de cedência de direitos televisivos da Liga dos Campeões por 3 temporadas a uma sociedade offshore com sede no Panamá por valores abaixo do preço de mercado em troca de um suborno de milhões de euros, entretanto não-rastreados. A referida empresa, de nome Cross Trading, dos empresários argentinos Hugo e Mariano Jinkins, deverão ter comprado a posse dos direitos de transmissão televisiva da prova desde 2003 até 2006 por 111 milhões de dólares para num espaço de poucos dias que intermediaram a compra os venderem por 311 milhões de dólares. Os dois empresários estão acusados pela justiça-norte americana no processo movido contra vários dirigentes futebolísticos mundiais pelas autoridades judiciais daquele país, curiosamente, o mesmo processo que também está a julgar o uruguaio Eugenio Figueiredo, entretanto extraditado a seu pedido para aquele país, por alegados subornos enquanto dirigente da COMNEBOL por alegados subornos recebidos pela concessão de direitos desportivos e televisivos de diversas competições organizadas por aquela federação regional de futebol.

A UEFA reagiu ao envolvimento directo do seu antigo secretário-geral afirmando em primeiro lugar, no comunicado divulgado, que Infantino “foi um relevante membro da UEFA durante muitos anos, bem como alguém que agiu sempre com total profissionalismo e integridade. Este ataque ao seu carácter e à reputação da UEFA, baseado em provas inexistentes, representa um dia triste para o futebol e para o jornalismo(…) Não tivemos tempo inicialmente de verificar todos os milhares de contratos e, por isso, a resposta que demos foi incompleta.” – admitindo no entanto no mesmo comunicado que “a Teleamazonas/Cross Trading venceu, porque “apresentou a oferta de mais elevado valor”.

Durante a presente semana, a polícia suiça fez buscar à sede do organismo em Genébra para relacionar as informações reveladas pelos Papéis do Panamá com a possível documentação existente nos arquivos daquele organismo. 

A intenção do líder da UEFA em dar mais credibilidade ao futuro de uma instituição totalmente descredibilizada nos últimos anos, não cai por terra mas fica claramente abalada com o surgimento deste escândalo.

 

10 – Darko Kovacevic\

O antigo avançado da Real Sociedad aparece envolvido no escândalo pelo facto de ter sido um dos 7 jogadores a quem a Real Sociedad pagou com recurso a bancos com sociedades offshores em paraísos legais sediados na Suiça, Panamá ou Niué para que esta pudesse assim evitar a tributação integral de impostos à justiça espanhola. Para o efeito, o avançado da Real Sociedad declarava em 2006\2007 o salário mínimo obrigatório imposto pela Liga Espanhola para os jogadores de clubes de 1ª divisão: 1500 euros limpos, recebendo portanto o resto do salário numa conta em 3 paraísos fiscais.

11 – Real Sociedad

A presidência do clube basco admitiu a sua participação no esquema de pagamento de salários e transferências com recursos a contas offshore de bancos sediadas em 3 paraísos fiscais para “cortar” nos impostos a pagar ao estado espanhol. Os procedimentos foram feitos juntos de 7 jogadores: Kovacevic, Sander Westerveld, Schurrer, Matias Asper, Karpin, Korkut e Nihat Kavecih.

12 – José Luis Ñunez

O antigo presidente do Barça abriu duas sociedades offshore em 1999 quando estalou o caso Hacienda , caso de fuga ao fisco que levou inclusive à prisão do antigo dirigente do clube catalão por evasão fiscal. O tag acima linkado do El País explica todo o caso, desde a investigação aos trâmites processuais do julgamento que levaram à prisão de Ñunez.

13 – Jerome Valcke 

O antigo secretário-geral da FIFA, entretanto destituído em 2015 do seu posto pelo Comité de Ética do Organismo por suposta associação criminosa na venda de bilhetes para jogos de vários mundiais no mercado negro, foi associado recentemente a uma sociedade offshore no Panamá no qual escondia as receitas advindas do “pequeno negócio” ilegal que geria a título individual. Com o dinheiro depositado nessa sociedade, Valcke preferiu “lavá-lo” com a compra de um iate que está actualmente estacionado numa marina nas Ilhas Caymão, outro paraíso fiscal.

14 – Juan Pedro Damiani\Eugénio Figueiredo

O antigo presidente do Peñarol e membro do Comité de Ética da FIFA trabalhou para 7 sociedades offshore vinculadas a Eugénio Figueiredo, acusado de ter recebido subornos de várias empresas com quem negociou a cedência de direitos televisivos de competições organizadas pela COMNEBOL como a Libertadores e Copa América.

15 – Maurício Macri

O actual presidente da República Argentina, antigo presidente do Boca Juniores, foi associado a uma sociedad offshore com sede no Panamá, sendo um dos “big fish” apanhados na investigação. Macri já decidiu apresentar-se à justiça argentina para responder a sua participação na Flag Trading, empresa criada em 1998 pelo seu pai, Franco. A sociedade foi criada para, numa primeira fase, realizar investimentos (entretanto não realizados) no Brasil. O presidente Argentino já veio a público explicar que nunca recebeu qualquer dividendo dessa empresa, empresa que detinha o controlo de uma sociedade offshore no Panamá.

16 – Dimitry Ryboblev

O actual proprietário do Mónaco, foi associado a uma sociedade offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, criada para supostamente esconder verbas relativas a negócios executados em 2015 com obras de arte que possuía, dado o facto de ter sido um dos empresários russos visados pelo congelamento de contas de multimilionários russos na Suiça por parte dos Estados Unidos como sanção que visava limitar a economia Russa após a invasão da Crimeia.

17 – Alex Crivillé

O antigo piloto de Moto GP, campeão do Mundo da categoria máxima de 500 cc em 1999, conseguiu colocar numa sociedade offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, a Pro Invest SA, os seus direitos de imagens, recorrendo para tal acto à Mossack Fonseca. O piloto, na altura, residia na Suiça. Contudo, queria mesmo assim “livrar de impostos” uma verba de aproximadamente 72 mil euros anuais e 85% das mais-valias geradas acima desse valor da concessão de direitos de imagem prestados a uma terceira empresa não-revelada até ao momento.

18 – Nico Rosberg 

rosberg

O piloto da Mercedes, selou há dois anos atrás o seu contrato com a escuderia\construtor alemão com recurso a um contrato lavrado através de duas sociedades, detidas por ambas as partes, no Panamá no caso do piloto e nas Ilhas Vírgens no caso da escuderia alemã. O ordenado mensal do piloto bem como prémios e direitos de imagem contratualizados deverão estar a ser transferidos directamente por esses canais.

19 – Jarno Trulli 

O antigo piloto da Fórmula 1 que se destacou na Renault e Toyota, foi descoberto no acervo como accionista de uma sociedade offshore nas Ilhas Seychelles com o nome de Banker Street, onde realizou de 1997 a 2011 vários depósitos vindos de rendimentos obtidos.

20 – Luca Di Montezemolo 

O antigo Presidente da Ferrari e director de corrida da F1 daquele construtor, firmou uma série de contratos nas quais aparece como o advogado da Lenville, uma sociedade offshore do Panamá que operava através de outra conta possuída pelo dirigente na Suiça.

21 – Nick Faldo

O emergente golfista britânico, uma das grandes estrelas da actualidade na modalidade, aparece nos Panamá Papers como dono de uma sociedade offshore nas Ilhas Virgens Britânicas por intermédio de documentos lavrados pela Mossack Fonseca em 2006.

22 – Michel Platini

O antigo presidente da UEFA e antigo candidato à FIFA, cuja candidatura foi suspensa por decisão do Comité de Ética do organismo devido ao seu envolvimento no escândalo geral de Joseph Blatter, também foi associado como accionista de uma conta de uma sociedade offshore no Panamá com recurso à Mossack Fonseca em 2007, precisamente no mesmo ano em que foi eleito como Presidente da UEFA para esconder supostamente as verbas recebidas em 2001 de Blatter.

23 – Daniel Fonseca

O antigo internacional uruguaio, jogador de futebol que fez carreira sobretudo em Itália na Juventus foi outro dos futebolistas visados pela investigação como proprietário de uma sociedade offshore no Panamá, a Zenith Investing Hold Corp.

 

 

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