O erro de Pocock

O Rugby não é, ao contrário das seculares críticas que lhe são atribuídas, um desporto violento. É um desporto viril, disputado por 15 guerreiros por equipa, muito exigente ao nível físico (principalmente cardíaco) onde se pede a todos os intervenientes uma postura de força, coragem, garra e galhardia e respeito perante o adversário indiferentemente do seu potencial ou do seu nível de desenvolvimento.

A essência da modalidade, o seu sentido de colectivo, sentido que deve ser absorvido logo nas camadas jovens por todos os praticantes, torna a modalidade uma das modalidades mais benéficas para o desenvolvimento físico e psíquico dos mesmos, tornando-os seres com um altíssimo nível de desenvolvimento do corpo e do espírito. Valores como a amizade, a ajuda ao próximo, a lealdade e a vontade de triunfar em qualquer etapa da vida, sem usar de truques obscuros para o efeito, através do talento pessoal e da raça são alguns dos valores que devem ser incutidos no jovem praticante e que são efectivamente incutidos pelo senso de colectivo e pela lealdade e humildade que o próprio jogo naturalmente requer ao praticante como requisito base para o triunfo no seu mundo.

No rugby, o respeito pelo adversário não se deve apenas mostrar pelo estrito cumprimento das regras de jogo mas também pelo resultado: uma equipa derrotada será mais respeitada quantos ensaios forem marcados pela equipa vencedora à vencida. No Rugby, há um ponto assente: uma equipa de fraco potencial só se pode desenvolver quando joga contra as mais fortes e mais evoluídas, desde que as mais evoluídas joguem no seu melhor. Outra das características intrínsecas da modalidade nos nossos tempos é o respeito pela integridade física do adversário. A própria Federação internacional, a International Rugby Board, pede a todos os jogadores que sejam responsáveis pela integridade física do adversário e portanto pelas acções de placagem que praticam em campo, não sendo permitido pelas regras, para já, placar acima do peito, mandar murros ou pisar o adversário num ajuntamento, capítulo do jogo designado na modalidade, em termo universal por ruck.

O que David Pocock, 3ª linha da selecção australiana (Wallabies) e dos Brumbies de Camberra, fez no jogo da semana perante os Chiefs do visado Michael Leitch é, para mim, treinador da modalidade, inqualificável a todos os níveis, ainda para mais vindo de um campeão como o é o caso de David Pocock, jogador que na sua tenra idade, aos 27 anos, já faz parte dos grandes jogadores da modalidade daquele país. Nas imagens podemos ver o experiente David Pocock a agarrar o pescoço do jogador de origem neozelandesa que optou recentemente por se naturalizar japonês e jogar pela vibrante selecção do Japão num acto selvagem que levou o jogador, em desespero, como se pode ver pelas imagens a pedir ao australiano que interrompesse a acção. O ataque deliberado ao pescoço do adversário, maldoso, numa situação de mull é um dos exemplos que jamais se pode ensinar a qualquer jovem aspirante a jogador de rugby. É nesta precisa parte em que Pocock, um ídolo nacional australiano, jogador de 27 anos que desde 2008 já representou a sua selecção em 2 mundiais e 55 selecções (mais de 90 jogos no Super Rugby, a grande competição das selecções provinciais das grandes potências do Hemisfério Sul) terá que ter uma postura de responsabilidade social acrescida pelos exemplos que dá aos jovens praticantes, em virtude do jogador-modelo que é para milhares daquele país.

Visado pela primeira vez pela justiça desportiva na sua carreira, o jogador australiano foi levemente castigado com uma sanção de 2 jogos a contar para o Super Rugby, castigo muito leve para a acção praticada dada a gravidade da mesma visto que poderia ter partido o pescoço a Leitch com graves consequências físicas para o resto da vida do jogador do Chiefs que, para desfecho positivo da cena, foi prontamente assistido pelos médicos da equipa na paragem que se seguiu ao acto (expulsão do jogador com recurso a imagens de videoárbitro) e acabou por sair sem grandes mazelas do lance.

Contudo, o australiano redimiu-se há alguns dias atrás quando veio a público pedir desculpas a todos os intervenientes no processo através da sua conta de facebook e do seu site pessoal. Com uma humildade fantástica, característica que é pedida a qualquer praticante da modalidade, o australiano não só veio pedir desculpa ao adversário como à sua equipa, aos seus fans e à equipa adversária pela acção lamentável que cometeu dentro das 4 linhas:

pocock

Pode ler aqui o pedido de desculpas feito pelo jogador australiano no seu site oficial na internet.

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