Crónicas Desportivas (4) – O gracioso empate do City em Paris e um cheirinho a lobo na Alemanha

PARIS, FRANCE - APRIL 06: Joe Hart of Manchester City saves the penalty by Zlatan Ibrahimovic of Paris Saint-Germain during the UEFA Champions League Quarter Final First Leg match between Paris Saint-Germain and Manchester City at Parc des Princes on April 6, 2016 in Paris, France. (Photo by Clive Rose/Getty Images)

Fonte: ESPN – Joe Hart defende em estilo o penalty marcado por Zlatan Ibrahimovic, numa partida recheada de casos de complicada resolução para o árbitro sérvio Milorad Mazic.

No Parc des Princes, Paris Saint-Germain e Manchester City ofereceram o melhor espectáculo da 1ª mão dos quartos-de-final da prova ao empatarem a 2 bolas, resultado que deixa tudo em aberto para o jogo da próxima semana no City of Manchester. A viver uma temporada distinta a todos os níveis (o PSG já se sagrou campeão francês, pulverizando toda a concorrência, ou falta dela na principal liga gaulesa, na 1ª volta do campeonato) enquanto o City, em fim-de-ciclo (Pellegrini dará lugar a Pep Guardiola no final da temporada) irremediavelmente afastado da luta pelo título desde inícios de Fevereiro, ambiciona também fazer história na competição, poucas semanas após ter levado a FA Cup para casa num jogo de doidos contra o Liverpool de Jurgen Klopp. 

Na antevisão do jogo, nos meus pensamentos mais profundos previa um jogo aberto visto que o modelo táctico trabalhado pelos dois treinadores assim como o estilo de jogo apresentado pelas duas equipas, assim o dava a entender. Se de um lado estava um PSG que é na minha modesta opinião, a equipa que pratica o futebol ofensivo mais positivo da europa (apresentando em revés um comportamento defensivo que muitas vezes atravanca as ambições europeias da equipa) no seu habitual 4x3x3 e na sua identidade de jogo mais pura (rápidas circulações de bola desenvolvidas essencialmente a meio-campo pelos 2 homens de cariz mais organizador; Matuidi e Rabiot com especial participação de Zlatan e Di Maria nas vistosas tabelas que atraem os adversários para a zona central do terreno para depois lateralizar, no timing perfeito, o jogo para a subida dos laterais ou para a criatividade que o argentino acrescenta na asa direita), do outro lado, o City, sem qualquer pressão, principalmente de calendário (Pellegrini jogará todas as fichas na Champions daqui em diante nem que seja para se despedir em glória do City na antevéspera da entrada de Guardiola; onde é que já vimos este filme?) teria forçosamente que contrariar o bom futebol praticado pelos parisienses com o seu futebol de razoável qualidade (poderia ser bem melhor) que assenta no domínio pelo físico do meio-campo para conceder a estabilidade necessária aos contra-ataques lançados e desenvolvidos pelos seus dois jogadores mais criativos (David Silva, Kun Aguero e Kevin DeBruyne). Sem os dois motores defensivos da sua linha defensiva e média (o belga Vincent Kompany e o costa-marfinense Yayá Touré) confessei-me curioso para compreender o comportamento defensivo de uma equipa que sofre muitos golos quando o central belga fica de fora devido a castigo ou lesão. Já o Costa-Marfinense é o jogador de classe reconhecida que conhecemos, sendo o jogador imperial que bem sabemos a meio campo, importantíssimo nas situações de pressão às transições ofensivas adversárias, no capítulo da cobertura de espaços, retirando-os à equipa adversária e nas situações de recuperação de bola, departamento no qual o veterano jogador africano é mestre, destruindo para depois acelerar o jogo da sua equipa e ele próprio iniciar os desequilíbrios junto da equipa adversária.

Com um duplo pivot a meio-campo (Fernando e Fernandinho) a lutar arduamente para impedir as rápidas trocas de bola desenvolvidas pelo tridente de meio-campo da equipa parisiense com as incursões esporádicas em zona de 1ª fase de construção de Zlatan e DiMaria, coube à dupla brasileira segurar o meio-campo para poder dar alguma liberdade criativa aos 3 homens à sua frente (Navas na direita com o seu habitual jogo vertical que visa ganhar a linha de fundo para colocar bolas na área, e Kevin DeBruyne em alternância com David Silva entre o flanco esquerdo e a posição 10).

psg

Levantando no alto da bancada uma tarja a dizer “We Want More”, lema inserido no promo realizado pelo clube parisiense nas redes sociais, os mal habituados adeptos da equipa orientada por Laurent Blanc, almejam, desde a chegada ao clube do qatari Nasser Al-Khelaifi ao clube parisiense a conquista da liga dos campeões já que, no plano interno, a Liga é dada pelos mesmos como garantida por falta de concorrência à altura.

A equipa parisiense iniciou bem a partida. Com uma rapidíssima circulação de bola a meio-campo para evitar o bloqueio feito por um sistema defensivo a meio-campo constituído por 5 jogadores (seria expectável que Pellegrini obrigasse os 2 alas a executar um plano defensivo falso, ou seja, a ajudar a fechar zonas interiores e exteriores ao mesmo tempo quando a bola circulasse para a sua ala de forma a evitar a subida dos laterais do PSG; se Maxwell é um jogador que centra muito bem na ala esquerda, na ala direita, apesar de dar muito físico ao jogo e de defender muito bem, Serge Aurier é péssimo do ponta de vista técnico), pertenceram à equipa de Blanc as primeiras grandes oportunidades de golo apesar da equipa do City, vocacionada para as transições rápidas em contra-ataque nas quais os elementos do meio-campo procuravam imediatamente verticalizar as suas acções de passe para Aguero, Jesus Navas ou David  Silva (o grande playmaker da equipa; qualidade técnica soberba de um jogador que sabe os timings todos do futebol) ainda terem esboçado um par de jogadas de combinação pelo flanco direito. Assim sendo, logo aos 11″ uma abertura para a velocidade do internacional argentino gerou o primeiro facto do jogo (uma falta de David Luiz, impedindo que o jogador argentino entrasse na área com uma agradável posição para almejar a baliza do alemão Kevin Trapp) que levou Mazic a puxar imediatamente da cartolina amarela, cartão que poderá ter influência no desfecho da eliminatória visto que retirou o antigo central do Benfica das contas da 2ª mão por castigo. Como Aguero é um pistoleiro temível quando vê uma aberta para rematar à baliza, David Luiz fez bem em sacrificar-se para impedir uma situação que poderia levar imenso perigo à sua baliza.

Como referi anteriormente, o PSG tomou imediatamente conta das operações e criou as primeiras situações reais de perigo, curiosamente em dois lances polémicos de difícil resolução para Mazic:

  • O primeiro num autêntico buraco concedido pela defesa inglesa a um contra-ataque desenvolvido por Cavani no qual o uruguaio lançou Matuidi pelo meio dos centrais do City. Na cara de Joe Hart, o francês foi impedido por Mangala de disputar a bola. Apesar de Howard Webb ter afirmado na BT Sports (canal pelo qual vi a transmissão) que o contacto (empurrão pelas costas) não seria suficiente para assinalar grande penalidade, o que é certo é que creio que a intensidade do mesmo levou o francês a tirar o seu colega de selecção do caminho da bola, sendo motivo para grande penalidade e pelo menos cartão amarelo porque teria que se dar o benefício da dúvida sobre quem chegaria primeiro à bola, se Matuidi se Hart. Não havendo total certeza de que este resultaria num lance iminente de golo, não se pode aplicar aqui a regra principal da International Board para estes casos
  • O segundo num lance que resultou na grande penalidade marcada pelo árbitro sérvio a favor do PSG. David Luiz cai na área mas a repetição mostra que o brasileiro foi inteligente ao deixar a perna para arrastar o movimento do seu opositor.

Da marca de onze metros, num dia não, Zlatan haveria de atirar rasteiro para a esquerda como previ junto da minha namorada. Joe Hart defendeu e deu o primeiro matchpoint aos Citizens na eliminatória. O sueco haveria de desperdiçar mais duas oportunidades no primeiro tempo: a primeira num cabeceamento fraco à figura de Hart e a segunda num remate em arco por cima da baliza de Joe Hart numa jogada em que foi desmarcado com um passe vertical na cara do guardião inglês.

O City estabilizou a partida depois de 20″ de maior ascendência no jogo do City. Kevin DeBruyne decidiu aparecer em jogo, simplificando as transições dos ingleses para o contra-ataque. Servindo Navas no lado direito, o espanhol conseguiu criar a primeira situação real de perigo para a sua equipa quando assistiu David Silva da direita para um cabeceamento deste ao lado. Tónica inicial na forma de jogar do City foi o aparecimento do espanhol em zonas de finalização quando Aguero era obrigado a vir atrás pegar no jogo ou quando se deslocava para uma ala. Num jogo muito jogado a meio-campo, com marcações muito cerradas e um pace que os britânicos caracterizaram de forma inteligente como “blink of a eye” (sem tempo para pensar o jogo), o PSG conseguia contudo com a tal estratégia de atracção do adversário para o corredor central, abrir algum espaço para depois variar o jogo para os flancos, aparecendo Maxwell bem aberto no flanco esquerdo e DiMaria com algum espaço para magicar na direita. Na esquerda, Cavani provou mais uma vez a Blanc que não é jogador para jogar com a função de extremo. Desaparecido do jogo, pouco ou nada se viu do Uruguaio na partida.

A partida foi avançando até aos momentos cruciais da 1ª parte, os dois golos. Golos resultantes, diga-se, de duas falhas dignas de um iniciado:

  • A primeira quando numa singela troca de bola Rabiot não percebeu as intenções de Matuidi num cenário de congestionamento a meio-campo e perdeu o esférico para Fernando que rapidamente lançou o seu colega no duplo-pivot Fernandinho para uma rápida transição em contragolpe que apanhou a defesa parisiense num 3×3. Com uma excelente decisão e execução, o brasileiro lançou DeBruyne na área pelo flanco direito e beneficiou da forma estranha em como David Luiz tentou interceptar o lance. Na cara de Trapp, jogadores de qualidade superior como é o caso do Belga não perdoam. Com um fuzilamento, o belga inaugurou o marcador.
  • Aos 41″, seria a vez do erro pertencer em partes iguais a dois jogadores da equipa orientada pelo chileno Manuel Pellegrini. Numa saída de bola numa frame de leitura muito adversa para os citizens sairem a jogar a partir de trás numa situação de pontapé de baliza, Hart e Fernando inventaram. Zlatan apercebeu-se do momento para o explorar, pressionando o brasileiro precisamente para o lado onde este pretendia fazer rodar o esférico para aliviar imediatamente a pressão. Com aquele toque na redondinha que só está ao alcance dos deuses em lances de capricho, empatou a partida e embaraçou por completo a defesa do City e o seu próprio treinador. Em momento algum da prática futebolística, perante um cenário de pressão alta a toda a largura do terreno se inicia um pontapé de baliza com um passe para a entrada da área em zona central e raras são até as equipas que conseguem sair com eficácia através dos corredores, estando nesse momento esse feito apenas mecanizado em duas ou três equipas como são os casos de Bayern, Barça e Fiorentina, outra equipa cujo treinador adora sair a jogar a partir de trás nos pontapés de baliza. Mesmo assim, os Viola já sofreram alguns golos durante a presente temporada nesse tipo de lances.

A 2ª parte seria naturalmente disputada a um ritmo mais lento do que o ritmo imposto pelas duas equipas na primeira. Caberia portanto, pelo factor casa, ao PSG, assumir as despesas do jogo, despesas que naturalmente foram assumidas através de um futebol mais flanqueado com a envolvência de Maxwell no flanco esquerdo a tempo inteiro, facto que permitiu a Edinson Cavani instalar-se mais confortavelmente em zonas de finalização. Ao uruguaio haveria de ser sonegada a possibilidade de fazer o 2-1 num lance em que Zlatan veio ao corredor central descomplicar um lance demasiado rendilhado com uma abertura para a subida de Maxwell no flanco esquerdo (Matuidi e o sueco apoiaram imenso Maxwell na construção de lances pelo flanco esquerdo)  para um cruzamento rasteiro que apanhou Mangala em boa hora (sempre bem posicionado, o central fez juntamente com Otamendi; dois produtos desenvolvidos no Porto) a evitar que o avançado uruguaio finalizasse.

Poucos minutos depois haveria de surgiu o golo dos parisienses num dos raros lances de bola parada bem cobrados pela equipa de Blanc. Num cantido batido muito bem na esquerda em arco exterior para o cabeceamento agressivo de Cavani para defesa incompleta de Hart, Rabiot apareceu ao segundo poste a dar o toque final. O PSG não haveria de ficar por ali pois logo a seguir esteve perto de obter o 3º com um cabeceamento de difícil execução de Zlatan ao poste. Muito pressionado, o sueco poderia ter decidido ali o desfecho final do jogo.

O City recompôs-se do massacre inicial no 2º tempo e conseguiu voltar a explorar o filão do vazio aberto por Thiago Motta (mais avançado do que de costume, sem entreajuda de Matuidi e Rabiot que na 2ª parte avançaram mais no terreno posicionando-se mais perto dos homens dos corredores) para colocar a bola entre a linha média e a linha defensiva dos parisienses, essencialmente nos pés de quem conseguia acelerar nas transições, DeBruyne e Silva. Ap No entanto, seria novamente num erro parisiense que surgiria o golo do empate: Aurier foi lesto a endereçar a bola a um companheiro no seu meio-campo, permitindo a recuperação de bola. Os citizens fizeram chegar o esférico à ala direita e Navas, numa rara combinação com Sagna (Pellegrini temeu os desequilíbrios individuais que DiMaria e Cavani poderiam criar nas alas, optando por lhes dar instruções para balancear-se menos no ataque) permitiu ao lateral internacional francês cruzar para a área. O mesmo Aurier seria novamente a vítima do lance ao cortar a bola com manifesta infelicidade para os pés de Fernandinho que, num remate feliz, haveria de marcar o golo do empate.

Pellegrini sentiu o golo e sentiu que poderia levar qualquer coisita a mais de Paris dado o espaço que era concedido pelos parisienses nas costas da sua linha média, a crescente inspiração de David Silva na partida e os problemas físicos que vinham acompanhando David Luiz na 2ª parte, fazendo entrar o rapidíssimo Bony para a frente de ataque para colocar em xeque o central brasileiro nos últimos minutos. Sem realizar uma grande exibição esteve o seu colega de sector Thiago Silva. Sem participação directa no lance dos golos do City, lamenta-se precisamente essa ausência por questões de posicionamento nos ditos lances.

Na Alemanha, o lobo soltou as suas garras. Do 80 ao 8 em apenas 3 dias, a equipa madrilena deslizou em Wolfsburg e poderá ter aqui hipotecado a possibilidade de conquistar um troféu na presente temporada. Confesso-me seduzido desde há muito pelo futebol lindíssimo da equipa bem montada, bem construída e bem orientada por Dieter Hecking. Com uma defesa experientíssima (dois centrais calejados), dois laterais do melhor que existe no mundo (o terrível Vieirinha; mortal com Caligiuri ou com Schurrle no flanco; ainda dá para de vez em quando desequilibrar por completo as defesas adversárias com as lindas incursões em tabela que costuma fazer com Draxler, Arnold ou com os próprios alas), um poço de força a meio-campo que é um jogador importantíssimo a contrariar futebol em profundidade das equipas adversárias (Guilavogui) e uma apetência especial para o contra-ataque (Draxler e Schurlle embalados pelo flanco são temíveis) na impossibilidade (por lesão do holandês Bas Dost) de praticar um futebol mais directo para a área, o Wolfsburgo poderá não ter plantel para vencer uma Bundesliga e isso decerto não o tem. Mas para provas a eliminar, o Wolfsburgo tem equipa visto que é uma equipa que defende com uma solidez enorme e que tem no contra-ataque a sua principal arma.

Cínicos até à medula, agressivos na pressão a meio-campo ao portador da bola, organizados lá atrás (a perfeição defensiva existe quando por exemplo, a defesa germânica conseguiu subir em todos os momentos em que a equipa madrilena tentava lançar em desmarcação Ronaldo, não impedindo contudo que este se realizasse por intermédio da velocidade de Bale ou Benzema, lançados por Toni Kroos), a equipa alemã voltou a fazer das simples transições para o contra-ataque o seu forte, lançando Draxler em velocidade pelo flanco esquerdo. O extremo criativo não vacilou e foi dos pés deste que nasceram as grandes jogadas da equipa.

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Fonte: UEFA

O primeiro golo haveria de nascer de uma grande penalidade muito duvidosa assinalada a suposta falta de Casemiro. Pareceu-me claramente um penalty fantasma. Pouco antes ficou um por assinalar a favor do Real num lance em que Bale levou uma autêntica castanhada na área dos alemães.

Se do lado do Real, Benzema foi imensamente perdulário, na 1ª parte para o nível a que é disputado este tipo de competições, do outro lado, os alemães não perdoaram nas reais situações de golo que dispuseram, aumentando a contagem aos 25″ por Arnold. Na 2ª parte, a equipa da casa dispôs de oportunidades para ampliar ainda mais o marcador.

A equipa de Zidane terá muitas dificuldades para inverter este resultado até porque suspeito que Hecking irá abordar o jogo da 2ª com outro tipo de artimanhas, ou seja, fazendo recuar as linhas defensivas para obrigar o Real a ter mais posse de bola e a atacar com recurso a ataques organizados. Durante a presente temporada está mais que visto que este Real tem sucesso quando consegue explorar a explosividade dos seus jogadores no contra-ataque.

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