Destaques desportivos da semana (2)

Nota Prévia: continuação do 12º post das Crónicas Desportivas. Todas as crónicas desportivas poderão ser consultadas através das categorias dispostas na barra lateral direita deste blog. 

5 – West Ham 3-3 Arsenal

A Premier League alimenta-se de espectáculos como este, o que foi dado no sábado por West Ham e Arsenal. Os Gunners de Wenger ainda ameaçaram lutar pela conquista de títulos na presente temporada. As múltiplas lesões que acompanharam a equipa ao longo da temporada (a equipa chegou a ter Francis Coquelin, Alexis Sanchez, Santi Cazorla, Tomas Rosicky e Jack Wilshere lesionados durante várias semanas no mesmo período) não servem totalmente de desculpa para justificar um novo fracasso da equipa do Norte de Londres, mas ajudam a explicar o desgaste tido pelas maiores figuras de proa (Aaron Ramsey, Ozil, Giroud, Oxlade-Chamberlain) desde meados de Fevereiro até esta parte. Não é fácil para qualquer treinador ter que conviver com 18\19 opções quando o que está em causa é a conquista da Premier League intermediada por outras competições internas (Taça da Liga, FA Cup) e por uma eliminatória sempre complicada contra o Barcelona.

No derby londrino contra o West Ham, os ventos até estavam a correr de feição à equipa de Wenger. A explorar pela zona central as constantes falhas de articulação defensiva dos defesas do West Ham (há para dizer neste capítulo que a grande temporada que a equipa orientada pelo croata Slaven Bilic em muito se deve à solidez do seu quarteto defensivo, quaisquer que sejam as opções; Sam Byram à direita, James Tomkins e Winston Reid como centrais, Aaron Cresswell à esquerda com Angelo Ogbonna e Joey O´Brien a serem várias vezes utilizados ao longo da temporada) os Gunners fizeram facilmente 3 golos. Ressalva ainda, do ponto de vista táctico, para o exímio posicionamento do egípcio ex-Basileia Mohammed Elneny no primeiro tempo. Servindo de tampão a meio-campo quando o West Ham queria sair em contra-ataque, através da recuperação de bola e lançamento imediato das fases ofensivas com recurso a gestos muito simples, o egípcio conseguiu que a sua equipa mantivesse sempre a pressão ao último terço dos Hammers…

Até que na 2ª parte, apareceu, vindo do nada, Andy Carroll.

Numa equipa que há notoriamente dois líderes, o possante e técnico Mikhail António, jogador que acrescenta uma força tremenda ao flanco direito e à zona central dos Hammers e o fantasista francês Dimitry Payet na outra ala, mesmo a perder por 0-2, jamais se deverá dar um jogo como ganho contra este aguerrido West Ham. Em dois minutos, Andy Caroll, o mais trapalhão dos avançados ingleses da actualidade, investimento fracassado do Liverpool em 2011 quando os Reds o contrataram ao Newcastle por 35 milhões de euros (Caroll estava na altura de pé quente e prometia ser o avançado desta geração inglesa) aproveitou duas bolas bombeadas a área para restabelecer o empate e reaparecer do nada do mundo dos mortos para lixar o Arsenal. Se considerarmos que voltou a marcar, consumando o hat-trick, aos 52″, demorou apenas 8 minutos e 3 lances na área para o conseguir. A situação hilariante deste hat-trick deve-se ao facto de Caroll ter marcado quase tantos golos como aqueles que tinha até esta jornada na temporada inteira (4 em 24 jogos), facto que dá que pensar no que diz respeito ao azar que o Arsenal tem em certos momentos.

6. A epopeia do Leicester de Cláudio Ranieri

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Jamie Vardy: do operariado (quando jogava em modestas equipas de escalões secundários do futebol britânico ao mesmo tempo em que trabalhava numa fábrica para ganhar a vida e pagar os estudos) ao topo do futebol britânico.

Numa cidade habituada a celebrar os títulos conquistados pela sua equipa de rugby, os Leicester Tigers (10 Premierships desde 1988, 7 Anglo-Welsh Cup´s, 2 Campeonatos Europeus em 2001 e 2002) a história mais recente do seu clube de futebol assemelha-se a uma daquelas histórias românticas típicas do velhinho futebol britânico nas décadas de 50, 60 e 70 nas quais, pequenos clubes, como foram os casos Wolverhampton, Burnley, Ipswich, Everton, Derby County e Nottingham Forrest; maior parte deles estão agora em divisões secundárias do futebol inglês) conseguiam, com alguma pontualidade, estragar as contas aos grandes clubes daquele futebol. A Premier League perdeu alguma dessa história na modernidade, sendo preciso recuar cerca de 20 anos na história para encontrar o último dito “pequeno” que venceu a Premier League: o Blackburn Rovers de Alan Shearer em 1994\1995.

Se há precisamente um ano atrás alguém me dissesse que o modesto Leicester, equipa que na temporada passada fez das tripas coração para se manter na prova depois de ter conseguido no ano anterior subir novamente ao convívio dos grandes após um grande hiato no Championship e que o técnico italiano Cláudio Ranieri seria finalmente campeão de alguma coisa (Ranieri estava até agora destinado a ser um pouco à semelhança do epíteto pelo qual ironicamente o público inglês baptiza Arsène Wenger um “natural born looser”) pelo clube mais modesto pelo qual passou e com a equipa mais modesta que alguma vez teve; relembre-se que Ranieri foi o treinador de grandes equipas, candidatas ao título nos seus respectivos países durante aqueles temporadas como foi o caso de Napoli, Valência, Chelsea, Roma e Inter nas suas passagens pelos respectivos clubes, diria eu, imediatamente que não acreditava.

O que é certo é que o modesto Leicester de Ranieri, alicerçado, muito sinceramente, no seu onze base, onze que revelava no início da temporada algum talento para levar, na melhor das hipóteses, em condições coeteris paribus à Europa (sem nenhumas ou poucas opções credíveis no banco de suplentes; jogadores como Ulloa, Andy King, Marcin Wasilewski, Gokhan Inler, Nathan Dyer) foi vencendo, foi-se galvanizando e acabou a pulverizar, de longe toda a concorrência, estando agora a um passo de vencer a Premier League.

Com uma defesa sólida, de ferro (que temporada realizaram Kasper Schmeichel e os defesas Wes Morgan, Robert Huth, Danny Simpson e Christian Fuchs; este lateral austríaco, futuro adversário da selecção portuguesa no Euro 2016, também tem no esquema de Ranieri uma enorme preponderância ofensiva visto que é um lateral que sobe muito bem no terreno para cruzar bolas para a área) e um meio-campo que tem dois motores inigualáveis ao nível de ocupação de espaços, espírito de luta, capacidade de pressão, recuperação de bolas e lançamento dos contra-ataques (seguindo à risca a identidade de jogo incutida por Ranieri desde o início da temporada; falo do inesgotável Ngolo Kanté e de Daniel Drinkwater), o italiano construiu aqui uma fórmula de sucesso. Todas as equipas da Premier League tiveram muitas dificuldades para marcar golos ao Leicester.

Do meio-campo para a frente, o virtuosismo pertence a James Vardy e a Riyah Mahrez.

O primeiro como um ponta-de-lança muito móvel que encaixa perfeitamente em equipas que joguem em contra-ataque pelos constantes desdobramentos e desmarcações que realiza para os flancos (principalmente o esquerdo), pelo seu cariz possante que lhe permite ganhar muitos duelos individuais 1×1 contra os defesas através do seu drible de passada larga, pela sua capacidade técnica para a altura que tem e pela sua enorme apetência para finalizar de qualquer espécie e feitio: ora de cabeça, finalizando bolas mais longas num futebol mais directo, ora em remates dentro da área, ora em remates de fora-da-área, como aquele golaço que marcou recentemente ao Liverpool. 

Jamie deslumbrou por completo a Liga Inglesa ao tornar-se o primeiro jogador a marcar em 13 jogos consecutivos da Premier, batendo um record que pertencia a Ruud Van Nistelrooy. Os 20 golos marcados na Premier League, tornam-no para já, indiscutível nos convocados de Roy Hodgson para o Campeonato Europeu e ameaçam seriamente a possibilidade deste se tornar o melhor avançado inglês desde Gary Lineker, sabendo de antemão que a Inglaterra teve pelo meio bons avançados como foram os casos de Ian Wright, Michael Owen, Alan Shearer, Robbie Fowler ou Stan Colymore.

Do argelino Mahrez, apenas posso dizer que não há nenhum treinador no mundo que não queira ter no seu plantel um jogador tão apetrechado tecnicamente quanto o é o criativo do Leicester. Mahrez contraria todas as certezas do futebol britânico, em especial, nas instituídas ao nível das acções individuais dos jogadores. Não é qualquer jogador que chega à Premier e consegue realizar as jogadas de sonho ao nível de drible individual que o argelino realiza. Não é qualquer jogador que consegue em velocidade passar pelo 3º jogador consecutivo em drible. Só um jogador de uma qualidade absoluta consegue fazer as exibições que Mahrez fez nos maiores palcos da Liga Inglesa, somando golo atrás de golo, assistência atrás de assistência e jogadas que fazem, autenticamente, levantar estádios.

É certo afirmar que Mahrez tem toda a liberdade para criar o fantástico do nada porque tem uma dupla de médios possantes atrás. Na verdade, Ngolo Kanté está sempre em cima do acontecimento e é um daqueles médios que enche o campo, quer a pressionar, quer a destruir, quer a lançar venenosos contra-ataques que são capitalizados pelos homens da frente. Contudo, o criativo argelino também deverá agradecer a extraordinária temporada que está a realizar a duas formiguinhas presentes no ataque do Leicester: Mark Allbrighton e Shinji Okazaki.

O papel de Allbrighton na equipa do Leicester é também ele recheado de muita importância para o velho calcio que Ranieri incutiu na equipa. Isto porque o extremo é um jogador extremamente interessante ao nível do drible (desembaraça-se bem dos seus adversários directos no flanco esquerdo com o seu drible ziguezagueante à procura de espaço para cruzar ou rematar de fora-da-área) e é um exímio colocador de bolas na área quer através de cruzamentos em bola corrida quer através de lances de bola parada. Com dois centrais fortíssimos no jogo aéreo (tanto defensiva como ofensivamente) e um avançado com propensão para rematar e para cabecear sem pestanejar sempre que a bola lhe chega nas devidas condições, ter um jogador muito trabalhador como Allbrighton é extremamente importante para qualquer equipa com ambições.

O mesmo se pode dizer de Okazaki. O internacional nipónico perdeu algum faro para o golo com a transferência do Mainz para Leicester, mas, conseguiu também ele, de outra forma, com uma das suas características individuais (a constante movimentação por entre os centrais à procura de conseguir baralhar as marcações e aparecer também ele nas alas a dar linha de passe para estender o jogo da equipa em situações de jogo em contra-ataque) ajudar ao sucesso da equipa pois é ele quem constrói mormente os espaços de finalização para Vardy, os espaços vazios que permitem a Mahrez fazer as suas cavalgadas em drible e os espaços que permitem em algumas situações a Mark Allbrighton colocar os seus perigosos cruzamentos para a área. Rapidíssimo, o japonês é também um exímio condutor de bola em lances de contragolpe.

7 – E se existir uma união de interesses montada contra o Leicester?

No último jogo da turma de Ranieri (vitória por 2-0 contra o Southampton), o italiano saiu do campo em lágrimas. Não deve existir para um treinador maior satisfação do que aquela na qual este sabe que está a fazer história no futebol e que acima de tudo está a dar uma enorme alegria a um conjunto de milhares de adeptos que soube sofrer pelo seu clube na derrota para um dia viver a sua maior (e talvez única) grande vitória da história. A alegria dos pequenos é, portanto, uma das páginas mais bonitas que o futebol pode, por vezes, proporcionar a um mundo injusto no qual os poderosos, os burgueses, os milionários, tudo compram, tudo corrompem e tudo conseguem por via do dinheiro e da subversão do tabuleiro e das regras de jogo…

Com a vitória no bolso frente ao Sunderland, o Leicester garantiu automaticamente o apuramento para a próxima edição da Champions. A possibilidade do clube atingir esse feito já tinha feito soar os alarmes junto dos principais clubes ingleses, dando a nítida sensação que o incómodo provocado pela turma de Leicester num campo em que City, United, Liverpool e Chelsea voltaram a estar uns furos abaixo das suas normais ambições e expectativas, faz crer que neste momento, a viabilidade das grandes máquinas financeiras daqueles clubes depende mais da sua participação na Liga dos Campeões do que propriamente da conquista de títulos. Para os grandes ingleses, a realidade bateu de chofre sem bater à porta: Leicester e Tottenham serão 2 das 4 possíveis representantes inglesas na prova, o que irá obrigar alguns dos grandes a repensar os seus gastos em virtude do decréscimo de rendimentos vindos dos prémios Uefeiros para não terem portanto que voltar novamente às ricas carteiras dos seus proprietários.  O sucesso do Leicester já colocou a pensar os 5 directores-executivos dos mais importantes clubes de Inglaterra (United, City, Arsenal, Liverpool e Chelsea) quando estes se reuniram recentemente com um dos fundadores e organizador da empresa que organiza a International Champions Cup (evento de pré-temporada realizado nos Estados Unidos da América, China e Austrália) Stephen Ross (proprietário dos Miami Dolphins da NFL; os outros proprietários da competição são Matt Higins, o antigo director-executivo, ou em inglês, General Manager dos New York Jets e Charlie Stilliano) para estudar a possibilidade de, de acordo com que tem vindo a ser aventado pela imprensa inglesa nas últimas semanas, ajudada pela imprensa alemã mais próxima do Bayern de Munique (outro dos interessados devido a sua actual estratégia de expansão para mercados como a India, China e Austrália) arranjar os sponsors necessários (sendo nessa parte a parte na qual entram os magnatas na NFL; ao nível de receitas provenientes de todo o tipo de sponsorship, o futebol europeu ainda tem muito a aprender com o que é feito pelos gestores das franquias desportivas Norte-Americanas) para criar uma competição paralela ou até alternativa à Liga dos Campeões na qual só teriam direito a participar as melhores formações mundiais, com prémios e receitas  vindas da publicidade e da cedência de direitos televisivos superiores aos que actualmente são pagos pela UEFA.

De certa forma poderemos dizer que na presente temporada, Vardy e os seus companheiros não só estão a conseguir vencer os grandes dentro de campo como estão a semear o medo entre os clubes grandes visto que com o mais que provável apuramento do Leicester e do Tottenham (actual 2º classificado da Liga) para a Liga dos Campeões da próxima temporada, vários grandes ingleses ficarão de fora no acesso aos milhões distribuídos pelos prémios daquela competição, prémios que tanta falta fazem aos ditos para manterem as suas estruturas opulentas, manterem a hegemonia interna dentro do futebol inglês e alimentarem as suas pretensões internacionais. Há bem pouco tempo, existiu quem defendesse que o Leicester não deveria ir à Liga dos Campeões da próxima temporada. Essa pessoa foi precisamente Charles Stiliano.

O motivo que leva os grandes chefes do futebol inglês a declarar tal ambição resume-se à falta premissa que o Leicester é um clube pequeno e como tal incapaz de gerar mais-valias financeiras para a competição. Contudo, as mais-valias desportivas dos grandes clubes ingleses, contratadas a peso de ouro e pagas a peso de ouro, tem jogado uns furos abaixo daquilo que tem jogado o Leicester de Vardy e Ranieri.

Durante o dia de ontem, os grandes contra-ataram com recurso à investigação movida pelo Guardian. O famoso jornal britânico reconhecido pelas suas investigações independentes está cada vez mais próximo dos tablóides sensacionalistas britânicos. Acho portanto curioso o timing de lançamento desta investigação logo a seguir ao dia em que o Leicester deu um passo gigante rumo ao título. A investigação movida pelo jornal (sabe-se lá a mando de quem em particular) teve na minha modesta opinião como objectivos principais em primeiro lugar, abalar as tropas e em segundo lugar suscitar o interesse da entidade que tutela a guarda e a vigilância das novas regras financeiras assentes por Michel Platini no futebol europeu.

O Guardian considerou na investigação que há duas épocas atrás, na temporada em que o Leicester conseguiu a promoção do Championship para a Premier League, o clube assinou um contrato de cedência de direitos de imagem, cedência de direitos comerciais de exploração ao nível merchandizing e branding com um terceiro, a empresa Trestellar, Ltd que tinha como goal a expansão do nome do clube e a comercialização dos seus produtos oficiais no Sudeste Asiático, curiosamente na região da qual é originário o seu actual proprietário, o tailandês Vichai Srivaddhanaprabha, por sua vez, dono da King Power, grupo económico detido tailandês de comércio a retalho que em 2014 adquiriu os mesmos direitos à Trestellar, Ltd e passou a patrocinar o clube nas camisolas como main sponsor . O acordo rendeu aos cofres do clube cerca de 13,7 milhões de euros, reduzindo o seu passivo para 42,4 milhões de euros. A grande questão é que a confirmar-se este negócio, as regras do fairplay financeiro foram efectivamente violadas porque esta injecção de capital por parte do proprietário do clube estará sempre sujeita à vigilância dos pressupostos de adequação desses mesmos capitais aos preços de mercado ditos normais, de acordo com o que pode ser lido aqui na explicação for dummies que a UEFA elaborou às novas regras de controlo financeiro dos clubes. 

O organismo com sede em Nyon ainda não reagiu a esta investigação, crendo eu piamente que irá reagir em breve. Contudo, continuo a referir que considero que o lançamento desta mesma investigação foi feito num timing muito oportuno e muito preciso da temporada quando já o deveria ter sido feito por exemplo no ano passado. A UEFA não tem, até agora, vacilado no que diz respeito ao cumprimento das regras de fairplay financeiro, já tendo, directamente, sancionados vários clubes com sanções que vão desde multas ao impedimento de participação nas provas europeias. Com uma lista de vigilância regular na qual aquele organismo vigia o cumprimento das regras de FPF, aquele organismo tem passado a pente fino as contas de centenas de clubes europeus.

A situação já tinha efectivamente levado, por outro lado, a Football League já tinha multado o Leicester devido ao facto destes ganhos terem ajudado o clube a superar as metas máximas de prejuízos anuais que os clubes do 2º ao 4º escalão do futebol inglês poderão acumular.

(continua no post seguinte) 

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