Conversas encriptadas ou consequências de uma digestão mal feita…

“Camarada R, passe a palavra…o encontro é na toca da loba, daqui a uma hora. Temos que reunir o gabinete de crise democrática. Entra em vigor a partir de agora o GCC…”.

“GCC camarada?”

“Sim. Óbvio. GCC…Guia de Camaradas em Crise!!!”

“Entendido. É por isso que está a usar o telefone de corda e não o telemóvel?”

“Claro! Com o telefone de corda é só encostar na parede e assim não podemos ser escutados…”

“Entendido. Passa a vigorar o plano K o do “Fascismo Não passará”, Mari…?”

“Nada de nomes!!! Manda a regra nº 5 do “Guia dos Camaradas em Crise” que passemos a usar os nomes do código e não os nossos! Já não te recordas? Eu passo de imediato a ser a camarada be1 e tu passas a ser o camarada be2! Ensaiámos isso milhentas vezes!”

“Sorry, camarada Mar…quero dizer camarada be1. Vou imediatamente reunir todos os camaradas be’s”.

“Combinado camarada be2. Mas nada de palavras estrangeiras. Dita a regra nº 323 do GCC que passemos a usar apenas o português. Como aqui ninguém o fala é quase impossível perceberem o que dizemos. Outra coisa, o plano que passa a vigorar não é o do “Fascismo Não Passará”. Estás doido? Esse é muito comunista e só o usamos em situações extremas. E nós estamos cada vez mais distantes do Jerónimo. O atentado é, de certeza dos quase camaradas do DAESH. E nós, com eles, mantemos aquela situação triangulada de proximidade/ambiguidade/distanciamento … por isso o plano em vigor passa a ser o H… O plano “Enquanto Não Podemos Bazar, Que Eles Não Batem Bem da Mona, Nada de Críticas Porque Somos Próximos”! Entendido camarada be2?” quase gritou, já impaciente, MM enquanto arrancava o cravo que trazia no cabelo e que tinha sido usado na intervenção no plenário em defesa das abelhas só com uma asa da zona de rilhafoles de cima… cumprindo o GCC, ponto 5, alínea c, segundo o qual “em tempos de crise a imagem deve ser o mais anónima possível, para não chamar a atenção e a pessoa passar despercebida”.

“Entendido camarada be1. Desculpe.”, ouviu, entretanto.

“Be2…Manda a regra nº 72 do GCC que passemos todos a usar o tratamento por tu, para não sermos identificados hierarquicamente. Se fumasses menos charutos e estudasses melhor os manuais…”

“Eu não fumo charutos, camarada…São um símbolo do capitalismo americano…”

“Não é desses, é dos outros…dahhh”.

“Desculpa camarada be1…acordei há pouco e ainda estou meio ressacado. Fizemos uma tainada na camarata com salpicões, presunto e vinho tinto e não me caiu bem.”

“Pois…mas não tinhas dito que ias ficar a ler Trotsky?! Para purificação das tentações do capitalismo???”

“Uh…ahh…cof, cof, cof…bem…”

“Já entendi tudo. Continuemos…Depois quando tudo acalmar vamos ter que tratar dessa mentira e respetiva punição. Não é permitido mentir e muito menos à camarada grande irmã, grande líder, toda poderosa, que sou eu! À grande Irmã nunca se mente. E maior do que eu só a Camarada Catarina. Mas essa está em Portugal. Por isso, aqui quem manda sou eu! Bem… Deixemos isso para quando a crise passar.”

“Oh camarada be1…Vou ter que ficar a ler mais 500 vezes os discursos do Passos?… Not again???”

“Em português, be2!!! Em português!!!!!”, gritou. “Relaxa M…Relaxa!”, pensou, enquanto ensaiava mentalmente algumas posições de yoga… “Bem…falamos disso depois. Agora não é prioritário. Vou ao mercado comprar umas maçãs, umas laranjas, umas couves, um naco de queijo e outro de presunto, um bocado de salame e uma broa para comermos na toca da loba. Ainda tenho dois garrafões de água que os camaradas de Cristalina de Baixo me ofereceram e um garrafão de tinto de Vinhais do Lado. Vai ter que chegar até podermos bazar.”

“ E uns biscoitos?!”

“Há bolachas Maria. Em tempo de crise comer não é prioritário. E também todos sabem que, como refere o GCC, no ponto nº 534, em momentos de crise não há espaço para as modernices da comida vegan, do tofu, da soja, do regime vegetariano. É sopa à lavrador, com carne, batatas e couves, para dar força e depois fruta…”

“ E não há um docinho?…”

“Qual doce? Estás a ficar muito capitalista!!!”

“Nem umas ovinhas de caviar? Eu sei que a camarada gosta…”

“Calou! Já! Em tempos de crise como diz no gui…”

“Sim, eu sei. Como diz no Guia dos Camaradas em Crise…”

“Sinto alguma revolta da tua parte???… Olha que em tempos de crise, não há democracias…Eu mando e vocês obedecem…É como dizia a Manuela… a Democracia fica suspensa…não por seis meses, mas até eu entender! Bem….Há também figos secos de Figueiras do Sul e umas maçãs de Macieira do Centro. Deve chegar. Vou mandar fazer uma sopa forte para podermos criar as rações individuais de crise. Transmissão concluída”.

Concluída a comunicação, a camarada chefe, MM, em tempos de crise conhecida por camarada be1, guardou o telefone de corda na saca de sarapilheira remendada com motivos artesanais populares que imediatamente pendurou às costas e esgueirou-se pelos corredores do PE em passo acelerado. Enquanto tentava andar mais depressa concluiu que as xanatas de dedo, usadas propositadamente para o debate em plenário, para dar o ar rústico, politicamente correto, eram muito pouco práticas e dificultavam os movimentos. “Se ao menos tivesse trazido as minhas sapatilhas, agora podia correr…mas no debate aqueles fascistas iam logo insinuar que eu estava cada vez mais prisioneira dos prazeres capitalistas…As sapatilhas podem ser fascistas, mas que são práticas isso são”, sussurrou entre dentes.

“Foices!!!”, quase gritou, enquanto tentava equilibrar-se, para não cair, quando uma das alpercatas se prendeu nas escadas rolantes.

Recuperada viu-se obrigada a moderar o passo para não correr o risco de escorregar de novo. “Quando chegar a casa tenho que por em ação o Organigrama de Crise… Vou mandar a camarada da logística tratar das sandes e fazer a sopa. Preciso de recomendar que coloque apenas uma fatia de queijo ou uma de presunto, para render mais. O camarada das comunicações com a Imprensa vai ter que fazer um comunicado para os jornalistas…Pode ser o texto nº 3.  Alguma emoção…o blá, blá, do costume e desviar logo as atenções do DAESH e atacar o funcionamento do PE. Ele não se pode esquecer de mandar as farpas habituais ao governo anterior…ao Passos e ao Paulinho dos submarinos. O camarada das comunicações externas vai ter que ligar para Lisboa para tranquilizar a Catarina, depois ligar para Espanha, para o Pablo. E o Tsipras? Estamos um bocado distantes…Bem, o camarada liga para o Tsipras e a seguir para o Varoufakis…assim ficamos de bem com Deus…Foices!!!! Que raio! Ainda não consegui perder estes hábitos da tradição católica! Ensaia Marisa, ensaia…Ficamos de bem com Fidel e com o Obama. Ficamos de bem com Fidel e com Obama! Foices, que isto não entra. Bem…relaxa M relaxa… que está tudo bem. Vou mandar o camarada das relações internas pôr música ambiente. Podem ser aquelas gravações dos cantares alentejanos. E vai ser preciso pôr um incenso a queimar…Sempre disfarça o cheiro dos pés e como vai ter que estar tudo descalço e o nº4 tem aquele problema do cheiro dos pés, sempre atenua. Não me posso esquecer de mandar o nº5 declamar uns textos do Che… Levantam o ânimo e criam ambiente. Devem estar todos amedrontados e com vontade de apanhar o primeiro avião para Lisboa. Mas não os posso deixar cair em tentações…A Elisa já bazou para a Holanda. O Melo teve a sorte de não chegar a apanhar o avião para cá…Quem se lixa sou eu. Mas pronto. Já que estou cá, vamos tentar recolher lucro. Não me posso esquecer de postar no Facebook, logo que chegar a casa, qualquer coisa do género… Juntei a equipa em minha casa e estamos aqui a aguardar instruções. Pode ser que alguém do PC morda a isca e consigo criar mais uma polémica“.

E lá foi ela em passo veloz, com a rapidez que as xanatas permitiam.

Enquanto caminhava lembrou-se que tinha um lenço na saca e quando o ia tirar parou de imediato. “Tapar a cara com o lenço, para não ser reconhecida, era uma péssima ideia”, pensou. “Nesta fase ainda podiam pensar que era uma burka e ia arranjar problemas… Mas se fosse presa ou agredida, desde que não fosse muito e ficasse bem visível e com os jornalistas contacto bem trabalhados…era uma série de votos, a entrar sem esforço…”, sorriu.

De repente…

Acordei.

Sem saber onde estava, mas com frio.

Já consciente, pensei…“Eu sabia que aquele jantar era muito pesado”.

“Ir logo para a cama, após o jantar, tinha que resultar em pesadelos! Que chatice! Mas não podia ser pior…sonhar com a Matias????”, vociferei em surdina. E deitei-me novamente, tentando descansar e afastar os pesadelos.

 

Manuel Damas

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