Como fly with me

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Fazer um título em língua estrangeira acarreta riscos sérios.
Mas, faz todo o sentido, em função do tema.
Costumes, tradições, cultura.
Cada povo tem a suas.
Medo também.
Muito se faz por medo, mais que por respeito, embora o medo se disfarce muitas vezes de respeito.
Mais que respeito, medo, inconsequente, porque o medo, regra geral, encoraja, permite enfrentar, obriga, ele próprio ao respeito.
A Air France vai voltar a voar para o ultra-conservador Irão a partir de meados deste mês.
A reabertura da linha aérea entre Paris e Teerão está no centro de um conflito laboral, informam os media.
Mas, não é bem assim, vai muito para lá de uma questão laboral.
É, de facto, uma questão profundamente humana.
Costumes, tradição, cultura.


A Air France pediu (assim li) que as mulheres usem véu, para tapar o cabelo, que vistam calças e camisolas largas, que cubram o corpo inteiro – os olhos estão excluídos da polémica, mal sería servir café ou chá de menta com os olhos tapados, muito mais arriscado que um título em língua estrangeira.
A medida aplica-se apenas quando as mulheres da tripulação, assistentes de bordo – prefiro hospedeiras de bordo, mas respeito as sensibilidades – saírem do avião.
Quando pisarem terra do Irão.
Se o não fizerem sofrem as consequências, cortam-lhes (calma…) o ordenado, e a carreira profissional pode ressentir-se.
O levantamento das sanções no Irão permitiu o restabelecimento da rota e a empresa decidiu adaptar-se a este espaço específico.
Provavelmente, se alguma assistente de bordo estiver a ler este texto e já tenha passado por situações idênticas, por opção, dirá que estou redondamente errado, mas a terra também não era redonda, antes de o terem descoberto.
A notícia não configura propriamente uma novidade, a Air France já adopta medidas do género ( no que ao véu diz respeito, sobretudo) quando voa para alguns países do petróleo.
Mas, foi notícia e há notícias que obrigam à reflexão.
A lei iraniana impõe às mulheres o uso do véu em locais públicos, o que torna a medida da companhia aérea uma perfeita redundância.
Já sería assim, de qualquer maneira. Pelo menos o bom senso assim o dita.
Mas, a Air France quis mostrar tolerância e respeito pela cultura e costumes dos países para onde voa.
A Air France também podia mostrar tolerância e respeito pela cultura e costumes das mulheres que voam para esses países. Não o fez. Limitou-se a impôr. Às mulheres. Violentação de consciências, chamo-lhe.
Uma posição tão próxima desses países, com hábitos culturais tão difíceis de entender para um ocidental, quanto, seguramente, haverá hábitos ocidentais descabidos, difíceis de entender, para as sociedades que formam esses países, admito.
Ainda assim!
Porque sou deste lado de cá faz-me por isso imensa confusão quando me deparo com notícias como esta.
A intenção de provar respeito a uns, limita o respeito pelos outros. Limita-lhes a sua própria liberdade, algo curioso vindo de uma empresa da terra da igualdade.
E, tudo isto se passa numa era em que as mulheres emergem na História, principalmente na defesa de direitos universais.
Donald Trump não faría melhor.
Seguramente que se um dia for ao Irão terei antes a preocupação de perceber as diferenças e adaptar-me, não preciso que ninguém me imponha tal coisa, e não sou mulher. As mulheres são muito mais inteligentes, sensíveis.
No fundo, se quisermos, podemos até nem discutir as questões culturais, religiosas, de liberdade e outras, de cada um.
Fiquemo-nos pela espuma, como em tudo, nestes dias de mudança.
Pois bem, era o que mais faltava, um dia eu voar para o Irão, na Air France (pode acontecer), e não me ser permitido ver os cabelos, as pernas altas, em cima de saltos voadores, os decotes livres, quem sabe a cara das hospedeiras de bordo parisienses (desta vez não são assistentes).
Costumam ser belas. É crime não me ser permitido tal visão celestial (esta parte do celestial é influenciada pelos anjos de Victória Secret).
A mim não me contenta apenas ver os olhos.
Grandes fotógrafos já fotografaram mulheres que usam burka, vestidas de negro até aos pés. Apenas os olhos.
Depois sem a burka.
E, meus amigos(as), vi olhos mais belos que os céus por onde voam os aviões da Air France.
Garanto que sim.
Nunca saberei se voltaram a fechar-se na negritude.
Fiquei apenas com a luz do seu olhar, os olhos.
Afinal servir café e chá de menta pode ser mais arriscado, de olhos vendados, do que fazer títulos em língua estrangeira, como neste texto.

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