Choque, ou murro no estômago?

             Talvez os dois. Mas quando se pretende – será que se quer mesmo? – fazer do Douro um destino turístico, ou sub-destino, como alguns espíritos miudinhos preferem dizer, o se passou na estação do Pinhão e que um empresário da região me narrou há dias não pode acontecer. Não devia acontecer. Porque poder, lá isso pode. Tanto assim é que aconteceu mesmo. E foi por ocasião do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. Quando se deve valorizar um Sítio classificado pela UNESCO Património da Humanidade, de todos e já não só dos durienses, custa a ouvir.

Pois, quatro turistas, sei lá, se fossem oito ou dez podia acontecer a mesma coisa, deslocaram-se da unidade em que estavam alojados para a estação do Pinhão e aí tomarem o comboio até ao Pocinho.

Sei que, quando isto aconteceu ainda o Centro de Alto Rendimento de Remo, ali construído, não tinha sido agraciado com o Prémio de Arquitetura do Douro. Já havia recebido outros. Mas o Museu do Côa já lá estava, sobranceiro ao Douro e ao Côa, a interpretar 30 000 anos de História que aqueles turistas queriam conhecer mais de perto e não só em livro ou no suporte digital. São Salvador do Mundo teria gostado de ver turistas estrangeiros curiosos a procurar saber da história do Barão de Forrester e da Dona Antónia no cachão da Valeira. Talvez a inebriar-se com as rochas escavadas em túnel para lhes permitir passar ao Douro Superior e deslumbrar-se com a sua paisagem vinhateira, diferente da do Cima Corgo.

Tudo lhes foi vedado. Foram simplesmente informados que a “composição” que acabara de chegar não “continuaria a sua marcha até ao Pocinho”. O comboio que devia continuar ficou ali. Secamente. Talvez para admirar os azulejos da estação. Só que no hotel haviam informado que o comboio os levaria até ao Pocinho para eles poderem aproveitar todo o tempo que estão pelo Douro, beneficiando de uma vista da região de vários ângulos e perspetivas. A CP é que o não permite. Porquê? perguntamos nós.

Ora, temos um vale, cujas encostas são de uma “beleza absoluta”, nas palavras de Torga. Uma estrada, a N222, que outros classificam como “a mais bela estrada do mundo para viajar”, ali à beirinha do rio. Uma linha de caminho-de-ferro a bordejar o rio kms e kms. Mas a CP não quer ter nada a ver com isso. O comboio “já não seguiu a sua marcha”, como estava previsto nos horários publicados. Os turistas ficaram por ali desiludidos com tanta insensibilidade para o desenvolvimento de uma região. Chocados, certamente, por aquela constatação. São estas e outras atitudes que, sistematicamente, nos “dão murros no estômago”.

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