Números que assustam: 41% dos filhos de casais separados raramente ou nunca estão com um dos pais.

Hoje serão apresentados publicamente os resultados de um extenso estudo no âmbito do Health Behaviour in School aged Children, levado a cabo pela Organização Mundial de Saúde, sobre o comportamento e saúde em jovens em idade escolar, coordenado no nosso país pela investigadora Margarida Gaspar de Matos.

Neste estudo foram usados questionários via online junto de 42 agrupamentos de escolas do ensino regular de Portugal Continental, num total de 387 turmas. A este inquérito responderam 6997 jovens sendo que destes 36% frequentavam o 6º ano de escolaridade. No que diz respeito ao 8º ano foram obtidas 39,5% de respostas dos alunos. Por sua vez junto dos alunos que frequentam o 10º ano de escolaridade foram obtidas 24,5% de respostas da totalidade da amostra.

A idade média dos alunos que responderam ao inquérito foi de 13,73 anos, dos quais 51,7% do género feminino e 48,3% do género masculino.

Este estudo pretendeu analisar os estilos de vida dos adolescentes em idade escolar nos seus mais diversos contextos de vida.

Uma das perguntas formuladas foi: Se os teus pais não vivem ambos contigo, com quem vives a maior parte do tempo?

Vamos aos resultados.

Apenas 5,8% dos filhos de pais separados ou divorciados vivem em regime de “guarda partilhada” que deveria ser a regra e não a excepção.

No que diz respeito às crianças e adolescentes que vivem com o pai, 5,2 % afirmam que raramente ou nunca estão com a mãe. Por sua vez estes números disparam, de forma muito preocupante, quando se tratam de adolescentes que vivem com a mãe. Nestes casos são 36,3% dos inquiridos que dizem que raramente ou nunca estão com pai.

Estas situações não parecem normais. Têm que existir razões muito profundas que estão a montante destes comportamentos.

Os resultados são assustadores porquanto o que se pretende é que os filhos de pais separados ou divorciados cresçam de forma harmoniosa e saudável acompanhados quotidianamente, com amor e carinho, pela mãe e pelo pai.

Inês Camacho, uma das investigadoras que integrou a equipa que desenvolveu este trabalho, garantiu ao Jornal Público “que as conclusões a que se chegou são válidas para todo o universo de adolescentes com pais separados.” deixando o alerta que apesar da guarda parental ter sofrido alterações nos últimos anos em Portugal, com um maior número de guardas partilhadas atribuídas, esse número fica anda muito aquém do que seria suposto, sendo que existem ainda muitos adolescentes que vivem com um progenitor, na maior parte das vezes com a mãe e que na maioria das vezes também são privados do contacto com o pai.”

Mas Inês Camacho vai mais longe afirmando que estes estudos “têm demonstrado que os jovens que não mantêm contacto com o pai apresentam mais comportamentos de risco e são mais infelizes quando comparados com jovens que têm alguma dificuldade em comunicar com o pai, mas que continuam em contacto.”

Elucidativo e ao mesmo tempo muito preocupante em face dos resultados deste trabalho de investigação.

Estes resultados têm que ser estudados exaustivamente, diagnosticados os problemas e apresentadas soluções objectivas e pragmáticas para a alteração destes números.

Todos já lemos ou ouvimos que nas decisões relativas ao exercício da parentalidade deverá prevalecer o superior interesse das crianças e dos adolescentes contudo parece-me que estes números não reflectem, em todo, essa preocupação.

Será que alguém vai olhar atentamente para estes números assustadores? Espero que sim e muito rapidamente.

É tempo do Sr. Presidente da República, do Governo, dos partidos políticos, dos agentes judiciais, médicos, psicólogos, sociólogos, investigadores e escolas reflectirem profundamente, em colaboração estreita, sobre estes números de forma a encontrar soluções legislativas e/ou outras adequadas e ponderadas que alterem esta dura realidade que poderá trazer consequências nefastas e muitas vezes irreversíveis para a vida futura das nossas crianças e adolescentes.

Paulo Vieira da Silva

Gestor de Empresas / Licenciado em Ciências Sociais – área de Sociologia
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

Nota: Sou o primeiro signatário de uma petição pública que defende que a Alienação Parental seja considerada um crime público integrado no Código Penal Português punida com sanção grave de natureza penal.  Em nome dos nossos filhos junte-se a esta causa assinando esta petição para ser analisada e debatida na Assembleia da República. Partilhe também a petição junto dos seus amigos. Acredite que todos somos poucos.

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523 dias. Um ano, cinco meses, sete dias e dez horas.

Hoje ganhei coragem. Há 523 dias que não estou com a pessoa que mais amo no mundo, a minha filha. Escrevo como forma de libertação. Libertação de uma dor e um sofrimento indescritíveis, mas de um amor puro e infinito.

Escrevo também para dar força àqueles que, como eu, mães ou pais, estão a passar por situações similares, mas que não têm voz. Que não têm esta força interior que Deus me deu. Que não têm muitas vezes dinheiro para o mais elementar da vida quanto mais para contratarem um advogado.

Por muito difícil, tortuoso ou longo que seja o caminho nunca desistam dos vossos filhos. Não por vós, mas sobretudo por eles.

Até hoje apenas a minha família, os meus amigos e os meus colaboradores mais próximos conheciam uma parte da dor e do sofrimento porque tenho passado durante estes infindáveis 17 meses.

Um sofrimento que na plenitude apenas Deus conhece.

Nem quero imaginar o quanto tem sofrido a minha filha.

Confesso que passo muitas noites sem dormir, que choro muitas vezes.

Confesso que tenho umas saudades sem fim das brincadeiras, dos beijinhos doces e dos abracinhos apertadinhos da minha menina.

Sim, a minha menina, porque irá ser sempre a minha menina.

A minha menina que não vê o pai porque este se esqueceu dela, emigrou ou morreu. Não emigrei. Trabalho apenas a cinco minutos do seu colégio. Muito menos morri, com a graça de  Deus.

Ela não me vê, mas eu vejo-a. Ela não sabe, nem sequer imagina. Nem ela, nem ninguém.

Aguardo de forma anónima e discreta apenas para a ver fugazmente passar quase como se de um ladrão se tratasse que espera na esquina escondido pela sua próxima vítima.

Estes são momentos solitários.  Mas sim, vejo-a. Muitas vezes. A seguir choro, muito. Não sei se de alegria, se de tristeza, mas lava-me a alma e alivia-me o sofrimento. E depois volto. Vejo-a novamente. E volto a chorar. E são assim os meus dias, as minhas semanas, os meus meses.

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Do segundo turno das eleições brasileiras

Domingo próximo, o Brasil vai às urnas pedir um tempo, uma trégua da pobreza, da violência, da hipocrisia, dos jornais, dos governos corrompidos, das Academias, das doenças, da ganância impune das salteadoras de nossas estradas, das decisões estúpidas ou maldosas. Uma trégua dessa jovem e trágica história em que a longa noite da ditadura dos militares, do medo e do silêncio, amanheceu numa democracia carnavalizada, república das bananas, de covardias e mentiras que nunca se retratarão.

No próximo domingo, o brasileiro vai tentar de novo um descarrego dos erros do passado, da insanidade nos gastos públicos, da imperícia com os juros, da tirania no ensino, de toda a sordidez dos hospitais, dos preconceitos de mil faces, das fraudes na cultura num campo cheio de mortos e feridos.

Neste domingo próximo, milhões de nós irão caminhando já sem forças para a esperança. A esperança que não morre nunca, que está na voz doce dos nossos negros, na simplicidade natural dos caipiras e dos índios, nos inocentes, pobres ou ricos, que honestamente reclamam um tempo para a doçura, a vida e a alma que quer sonhar com a autenticidade.

Vai sem forças porque temos sido educados por psicopatas, informados por psicopatas e governados por psicopatas. Hábeis comedores de criancinhas, arrogantes ladrões sem a menor cor de vergonha, agem juntos, a céu aberto, à luz do mais claro dos dias, onde a nuvem parece recortada sobre o azul. Marcam e traumatizam, com as sombras do fracasso, vidas que não escolheram seus sonhos ou seus pesadelos, que não conheceram a justiça, que nunca viram Paris, que nunca leram Keats ou Raul Brandão – vidas que embora chamadas livres, não sabem o que é liberdade, além de uma palavra facilitadora.

Comem crianças prometendo-lhes o futuro no museu dos hipócritas, nas malditas escolas. Porque a felicidade está além da vista, para depois da faculdade – palco da arrogância que carrega um giz numa mão e uma cabeça mole na outra. Outras dessas cabeças comem as criancinhas ao assinar sanções, vetos e roubos da dignidade ainda em flor desses inícios que só querem viver. Nessa tragédia, os mensageiros podem comê-las simplesmente ao trazerem, para a boca da cena, notícias falsas.

Nas últimas semanas, tirando o sono das pessoas, bestas-feras têm babado para defender o terrível estado a que chegamos, como se fossem o Arcanjo Miguel, e não o veneno que germina, nos sempre perigosos grupos, a mais grossa hipocrisia, desenhada com os dentes molares, vendendo gato  por um voto e a tudo isso chamando direito, educação, cultura e justiça.

Esse monstro de mil cabeças, todas moles, convicto de que possui a consciência das classes, tanto quanto a de que eu não posso fumar ou comer carne, vem rebaixando a moral de homens brilhantes que tentaram trazer o capital de uma maneira realista para estas paragens, sem pão e circo. Difamando-os, assim, porque não acreditaram que o homem quer prosperar, que Deus adora variar e que engordar um poder absoluto somente atiça a gula e o ardil dos psicopatas. Odiando-os porque ousaram engrossar o coro – de que o Estado só deve fazer aquilo que só ele pode fazer -, alijados porque desejaram produzir alguma riqueza ao invés de distribuir a miséria.

As mil cabeças surraram a horrível palavra “fascista” sem pudor, sem medo e sem vergonha para falar de seus mais sinceros comparsas. Agora já não têm outra palavra. Destruíram o pensamento de antes com a mesma fala grossa e promessas de mundos que agora ouvem dissonantes, porque já não são as suas, mas as de outrem, que a pressão do tempo renovou dentro dessa terra – uma voz talhada na geologia dos nossos caracteres e crimes, chamada sem consciência pela dor dessa terra, para trazer dos túmulos a inteligência que ouviu o canto do capital. Confusas, as mil cabeças, todas moles, insistem nas velhas palavras que hoje já não significam nada.

Que esse insistente monstro não diga mais do povo, porque a despeito de suas grandes preocupações, o povo ainda sofre. Não exija nenhuma voz das urnas, apenas as ouça; não lhes venha dizer o que devem dizer. Elas não carregam a condução do povo em tamanho padrão, carregam a experiencia que quer bater de volta. Então apanhem, mil cabeças! Parem de torturar com terror! Porque, no domingo, o Brasil não estará fazendo nada além de pedir mais uma chance ao Banco Central, aos correios e ao petróleo; pede mais uma vez pelos pobres, sempre enganados e usados no discurso demagogo; pede pelos mortos da Piazza di Spagna. Pede perdão à Ciência e à Beleza, filhas banidas desta terra de impostores. Pede sombras generosas às árvores, campos largos, água limpa e o simples direito de não temer caminhar sozinho pelas noites de verão.

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Cristiano Ronaldo: de bestial a besta em apenas um segundo

Cristiano Ronaldo era o exemplo de um filho exemplar, um irmão sempre presente, um Pai dedicado, o homem solidário, o homem que se fez a pulso à custa de muito trabalho e muitos sacrifícios, o melhor jogador do mundo e o orgulho de Portugal e dos portugueses no Mundo. De um dia para outro uma notícia de uma queixa de violação sexual – sem dúvida um crime hediondo – de uma americana com um currículo “duvidoso” faz esquecer um percurso pessoal e profissional apontado unanimemente como modelo de vida.

E a comunicação social portuguesa vai atrás, seguida de muitos portugueses. 

Mas esta mesma comunicação social e estas mesmas pessoas esquecem as milhares de mulheres Yazidi sequestradas pelos militantes do auto-denominado Estado Islâmico que não passam de escravas sexuais do Daesh violadas quotidianamente, sem acesso sequer a uma Justiça digna desse nome, em que muitas delas terminam com a sua própria vida dado o sofrimento a que estão sujeitas.

Um alegado caso de violação dá lugar a milhares de capas de jornais em todo o mundo e milhões de horas de televisão de qualidade muito duvidosa. Por sua vez milhares e milhares de violações sexuais mais que comprovadas têm lugar a uma noticia de rodapé nos jornais e noticiários televisivos.

Este caso que alegadamente envolve Cristiano Ronaldo evidencia o sentido da proporcionalidade perdido pela sociedade em que vivemos. E isto é grave. Muito grave, mesmo.

Cristiano Ronaldo está indiciado alegadamente por um crime como estaria qualquer um de nós alvo de uma denúncia que muitas vezes são instrumentais, insidiosas e maldosas. Não foi condenado. Muito longe disso. Tem direito à sua defesa e à presunção de inocência. Ontem mostrou que é um grande profissional, jogou, marcou um golo e deu a vitória à Juventus. Por mim nada mudou. Até prova em contrário Cristiano Ronaldo continua a ser o exemplo de um filho exemplar, um irmão sempre presente, um Pai dedicado, o homem solidário, o homem que se fez a pulso à custa de muito trabalho e de muitos sacrifícios, o melhor jogador do mundo de quem sinto muito orgulho enquanto português.

Paulo Vieira da Silva

Gestor de Empresas / Licenciado em Ciências Sociais – área de Sociologia
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

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Hoje correrei a maratona a teu lado

O José Gabriel Quaresma para muitos é uma figura pública que entra nas nossas casas, sem pedir autorização, pela janela da TVI.

Para mim é muito mais. É um Amigo. Um Amigo muito especial.

O Zé, o Zézinho como às vezes o trato, tem um coração enorme. Do tamanho do mundo.

Vivemos longe mas direi que falamos quase todos os dias. E não falamos de notícias. Falamos da vida, das nossas vidas. Dos momentos bons e dos menos bons. Das alegrias e das tristezas. Onde encontro sempre uma palavra e um conselho amigos. Ele sabe que é recíproco. Uma amizade genuína, verdadeira, como hoje existem poucas.

Hoje, daqui a pouco mais de uma hora, o Zé Gabriel vai dar inicio ao cumprimento de um sonho. Vai correr a maratona de Berlim. Vai fazer 42,195 quilómetros que demoraram 9 meses a preparar.

E não vai correr sozinho. Eu sei que vão fazer esta corrida milhares de pessoas. Mas não falo destes. Falo dos filhos, da Carla, dos Pais, que tanto ama e dos amigos que muito estima.

Desculpem-me todos os atletas que farão a maratona mas o Zé será o mais especial de todos os corredores em Berlim. É o maratonista peregrino que vai correr pela família e pelos amigos mas por um amigo muito em especial que faleceu recentemente.

Eu não vou estar em Berlim mas será como se estivesse. Vou correr ao teu lado. Vais cumprir este teu sonho. E muitos outros sonhos se seguirão que vais cumprir. Sabes porquê, Zé? Simplesmente porque mereces tudo de bom na vida. Zé, continua assim, sempre igual a ti próprio!

Paulo Vieira da Silva

Gestor de Empresas / Licenciado em Ciências Sociais – área de Sociologia
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

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Fio desencapado ou Incêndio no Museu Nacional

Pelo mundo tem-se falado, nesses últimos dois dias, sobre o incêndio do bicentenário Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, situado naquela que foi uma das cidades mais lindas do mundo – o Rio de Janeiro –, e que jaz morto ali mesmo. Para entender o tamanho da tragédia é preciso entender quem ateou-lhe fogo. Não trago números, mas trago um pedaço da verdade. Embora tenha angariado fama, ninguém conhece o Brasil – esse vilão de si mesmo. Só o brasileiro o conhece e, se não for muito esperto, pode ser o próprio Brasil sem se conhecer – a pior das sinas.

Bem-aventurados os que não nascem no Brasil ou aqueles que podem deixá-lo. Aqui, as bênçãos da Natureza contrabalançam a fome, o frio e a sede de nossas almas – pobres almas, carcomidas pelas ambições da Academia, dos ricos e famosos, dos jornalistas e dos políticos. Esses abortos da razão e da sensibilidade, velhos conhecidos … esses vícios sem virtudes, inflados pela vontade de um poder fraco e mixo ou de um dinheiro alto que só pode comprar o baixo.

Li que Portugal e França querem ajudar na reconstrução do Museu. Por favor não deem nada para o Brasil, nem bola. Tudo aqui queima, mingua ou apodrece, numa vida insalubre que respira o enxofre do inferno, num faz de conta cheio de custas, mais extraordinário do que o mais alucinado dos contos de fadas.
Aqui, não se pode ter a ousadia de adoecer. No Brasil não se tem saúde, tem-se sorte, fama ou dinheiro.

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Faleceu o Bom Senso

O Bom Senso andava desaparecido há algum tempo mas hoje tive a notícia que infelizmente faleceu o nosso querido amigo. O Bom Senso era filho da Confiança e da Verdade e casado com a Discrição de quem teve duas filhas, a Razão e a Responsabilidade. Infelizmente todos morreram precocemente. Da família ficou apenas o Bom Senso que agora nos deixou. Uma notícia muito triste!

 

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Da Saudade

“Nocturno” (1910) – Pintura de António Carneiro

A palavra saudade de per si já é poesia, mesmo dita nua, a seco – ainda que desacompanhada, tem o condão de redimir os papéis sujos, acolher as margens distraídas dos estudantes e até mesmo amortizar cobranças fiscais com ela rasuradas.  Porque escrita, dita ou ouvida, é palavra solene que evoca a tristeza do Bem perdido, que nunca vem sozinha, ao contrário, vem sempre com a inusitada alegria que a completa, com o gosto do Bom mantido nas almas já separadas. E por este rosto, que não pode ser esquecido, invoca o sonho de redenção lá do fundo despencado.  A saudade não é um círculo fechado, mas uma saída que projeta, por meio dos fados, o nome reconhecido da espera nebulosa; não é só dor ou só luto.  Tampouco é só a solidão, herdada do Lácio dentro da palavra, porque sua filologia tem de haver-se também com o ethos português –  nascido na mistura ibérica, que exaltada por Teixeira de Pascoes, decidiu-se pela companhia da fé.

Com a certeza dos místicos, saiu de Amarante, uma pregação, na poesia e na oralidade, com  reverência metafísica ao sentimento que presentifica o que passou, diz do presente e anseia pelo futuro do passado. O poeta monástico construiu uma teoria do afeto daquela perfeição perdida -, que no unívoco, mas também equívoco, termo saudade, faz soar um gemido à beira da noite surda tanto quanto um riso que avista, da praia, muito além do bojador.

Para Pascoes, a saudade é criada pela matéria e pelo espírito, pela “verde alegria terrestre” e pelo “calvário”. Por tanto amar e acreditar, o novo ocidente, feito de gregos e semitas, gerou e ainda hoje gesta essa grande emoção que transforma o Bem rompido em aliança, em promessa. Porque nem a morte impede o sonho. Dirá Pessoa, o ortônimo, que “o nome do herói morto inda compele; inda comanda”. O material algo onírico contido nos olhos dos avós já idos, na coluna vertebral, no meio do amor, na idade de ouro, nas primeiras moléculas do hidrogênio, na liberdade protegida da infância são memória para as musas, que juntadas à realidade da cruz, tornam dor em confiança.  É assim ambígua a saudade.

Camões lamenta carências que por fim elevaram-se na persistência do herói, no saber-se vivo e vivido. E assim como chora a falta, não deixa de notar que a mente faz presente o bem extraviado, tornando a saudade uma alegria: “ditosa é, logo, a pena que padeço, / Pois que da causa dela em mim se sente / Um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.” Noutro soneto, o pai da língua portuguesa diz mesmo ser uma glória a lembrança. E ainda noutro que “por virtude do muito imaginar”, não tem mais o que querer, porque nisto já está a coisa desejada.

Mariana Alcoforado, quando escreveu “a tua ausência rigorosa, quiçá eterna, em nada diminui a veemência da minha paixão”, não mentia a seu Marquês. Todos parecem nos dizer dos seus feitos, do passado, depois de suas mortes, que a saudade é mais amor do que vazio.

Com a dupla face de dor e desejo, a saudade é o claro-escuro esculpindo a linha do tempo e talvez de fora dele, de cada alguém que perdeu, de toda a humanidade que vive debaixo das ideias, mas embaixo como a grama que propiciou a evolução dos caídos; embaixo como as folhas fossilizadas onde ainda hoje dormem os primeiros motores da modernidade. Tudo isso precisava de um conquistador. Então, primeiro veio o fogo, depois o espírito, depois o amor, e só então veio a saudade.

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