Da Saudade

“Nocturno” (1910) – Pintura de António Carneiro

A palavra saudade de per si já é poesia, mesmo dita nua, a seco – ainda que desacompanhada, tem o condão de redimir os papéis sujos, acolher as margens distraídas dos estudantes e até mesmo amortizar cobranças fiscais com ela rasuradas.  Porque escrita, dita ou ouvida, é palavra solene que evoca a tristeza do Bem perdido, que nunca vem sozinha, ao contrário, vem sempre com a inusitada alegria que a completa, com o gosto do Bom mantido nas almas já separadas. E por este rosto, que não pode ser esquecido, invoca o sonho de redenção lá do fundo despencado.  A saudade não é um círculo fechado, mas uma saída que projeta, por meio dos fados, o nome reconhecido da espera nebulosa; não é só dor ou só luto.  Tampouco é só a solidão, herdada do Lácio dentro da palavra, porque sua filologia tem de haver-se também com o ethos português –  nascido na mistura ibérica, que exaltada por Teixeira de Pascoes, decidiu-se pela companhia da fé.

Com a certeza dos místicos, saiu de Amarante, uma pregação, na poesia e na oralidade, com  reverência metafísica ao sentimento que presentifica o que passou, diz do presente e anseia pelo futuro do passado. O poeta monástico construiu uma teoria do afeto daquela perfeição perdida -, que no unívoco, mas também equívoco, termo saudade, faz soar um gemido à beira da noite surda tanto quanto um riso que avista, da praia, muito além do bojador.

Para Pascoes, a saudade é criada pela matéria e pelo espírito, pela “verde alegria terrestre” e pelo “calvário”. Por tanto amar e acreditar, o novo ocidente, feito de gregos e semitas, gerou e ainda hoje gesta essa grande emoção que transforma o Bem rompido em aliança, em promessa. Porque nem a morte impede o sonho. Dirá Pessoa, o ortônimo, que “o nome do herói morto inda compele; inda comanda”. O material algo onírico contido nos olhos dos avós já idos, na coluna vertebral, no meio do amor, na idade de ouro, nas primeiras moléculas do hidrogênio, na liberdade protegida da infância são memória para as musas, que juntadas à realidade da cruz, tornam dor em confiança.  É assim ambígua a saudade.

Camões lamenta carências que por fim elevaram-se na persistência do herói, no saber-se vivo e vivido. E assim como chora a falta, não deixa de notar que a mente faz presente o bem extraviado, tornando a saudade uma alegria: “ditosa é, logo, a pena que padeço, / Pois que da causa dela em mim se sente / Um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.” Noutro soneto, o pai da língua portuguesa diz mesmo ser uma glória a lembrança. E ainda noutro que “por virtude do muito imaginar”, não tem mais o que querer, porque nisto já está a coisa desejada.

Mariana Alcoforado, quando escreveu “a tua ausência rigorosa, quiçá eterna, em nada diminui a veemência da minha paixão”, não mentia a seu Marquês. Todos parecem nos dizer dos seus feitos, do passado, depois de suas mortes, que a saudade é mais amor do que vazio.

Com a dupla face de dor e desejo, a saudade é o claro-escuro esculpindo a linha do tempo e talvez de fora dele, de cada alguém que perdeu, de toda a humanidade que vive debaixo das ideias, mas embaixo como a grama que propiciou a evolução dos caídos; embaixo como as folhas fossilizadas onde ainda hoje dormem os primeiros motores da modernidade. Tudo isso precisava de um conquistador. Então, primeiro veio o fogo, depois o espírito, depois o amor, e só então veio a saudade.

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A IGUALDADE DO GÉNERO

A Igualdade entre mulheres e homens é uma questão de direitos humanos e uma condição de justiça social, sendo igualmente um requisito necessário e fundamental para a igualdade, o desenvolvimento e a paz.

Ao falarmos na Igualdade de Género exige que, numa sociedade, homens e mulheres gozem das mesmas oportunidades, rendimentos, direitos e obrigações em todas as áreas.

Vem isto tudo a propósito da final da taça de Portugal em futebol feminino, realizada no Estádio Nacional, para alguns, estádio de Oeiras para outros, e na presença de 11.714 espectadores.

Este jogo disputou-se no mesmo recinto da final da taça de Portugal em futebol masculino, mas oito dias depois, contando inclusivamente com a mesma entidade organizativa, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF).

Todavia, havia algo de diferente que distinguia estes dois jogos o sexo dos intervenientes e os protagonistas do camarote presidencial.

Enquanto no jogo dos homens esteve Sua Execelência, o Senhor Presidente da República e o Primeiro Ministro e o Presidente da Direcção da FPF, no jogo feminino esteve o Secretário de Estado do Desporto e o Vice Presidente da FPF.

É pena que tal aconteça, e havia aqui uma oportunidade de praticarmos a igualdade do género.

São nestes pequenos, grandes gestos, que muitas vezes podemos fazer a diferença.

Foi um grande jogo de futebol, esta final da taça de Portugal feminina, mostrou que temos evoluído muito nesta modalidade e tive pena que os principais protagonistas que estiveram no camarote presidencial uma semana antes não tenham marcado presença, isto sem qualquer desconsideração para quem os substituiu.

Espero que em situações futuras tal situação não se venha a repetir, isto porque a igualdade do género tem de se praticar no dia a dia..

 

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Insónias – dicas para dormir direito

Você dorme bem? Consegue repousar e descansar? Como administra seu sono e repouso? Insónia é quando um travesseiro tem espinhos… e a cama pó de urtiga, espírito inquieto, pensamentos a vagar, tensão no corpo, dificuldade para relaxar, sono o dia todo, falta de concentração, perda de memória, dificuldades na área sexual, cansaço frequente, apatia e falta de vontade…os distúrbios do sono são complicados causando a médio prazo várias complicações severas orgânicas, crises nervosas, desequilíbrio intenso. Em minha pratica profissional como psicólogo clinico na área de saúde mental atendi vários pacientes que entraram em crise/ surto em casos de esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, transtorno de pânico, impotência ou inapetência sexual e outras doenças após ficarem dias sem dormir direito.

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O 25 de Abril de 1974

Nesse dia de Abril de 1974 levantei- me como de costume, tomei o meu banho, vesti-me, tomei o pequeno almoço, e, pelas 8,00 horas saí da minha casa em Leça da Palmeira, entrei no meu Fiat 128 e arranquei para Gondomar a caminho da então agência do Crédito Predial Português onde era subgerente.

Nada de anormal observei até que, já em plena Circunvalação, liguei o rádio e fui surpreendido por uma música fora do normal… logo ouvi um comunicado das forças armadas a informar sobre o golpe de estado que estava em curso.

Senti um misto de alegria e esperança mas, ao mesmo tempo, de receio e dúvida pois não conhecia a tendência politica dos militares que estavam em campo.

Cheguei ao Banco e já lá estavam quase todos os colegas e eles, como eu, surpreendidos e sedentos de notícias mais sólidas.

Abrimos o Banco como normalmente o fazíamos mas poucos minutos passados recebemos um telefonema da Sede em Lisboa a mandar fechar a Agência e regressarmos a nossas casas até que os noticiários da TV informassem o que deveríamos fazer no dia seguinte.

Soubemos aí que o General Spinola estava por trás do Golpe e isso sossegou-me. Não era de extrema direita.

Regressei a Leça, a minha mulher também já estava em casa pois as aulas tinham sido suspensas e a minha filha também já tinha vindo da escola.

Passamos o resto do dia juntos à TV e à rádio trocando impressões com amigos que iam aparecendo ou mesmo pelo telefone.

Ouvimos Zeca Afonso, iamos aumentando a nossa alegria quando nos fomos apercebendo de que era um golpe a favor da democracia e da liberdade.

Um dia inesquecível…

Ao fim de 31 anos ia, finalmente, ser livre …

A minha homenagem aos militares de Abril…

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Crise nervosa

Ela acorda irritada. A primeira confusão de seu dia ocorre no elevador do prédio onde mora. Nervosa com umas crianças – companhias de elevador, que estavam extremamente alegres e rindo, e que a acompanharam por dois longos minutos, bastou que um pequenino falasse um pouco mais alto para ela se descontrolar. Disse à mãe dos pequenos que esta deveria dar melhor educação aos filhos e lhes ensinar a não rir em elevador de condomínio.

Bufando, consegue arrancar uma lasca da lateral de seu carro ainda na garagem. Não percebe na rua e avança um sinal fechado, quase provocando um acidente e ganhando uma bela multa de trânsito. Chega ao escritório em que trabalha e logo percebe colegas rindo em uma roda distante, e outras duas se afastando. Sua fama é antiga no local de trabalho. Dois passos já servem de base para saber como vai seu humor instável, seu desequilíbrio. Ali, no trabalho, somam-se centenas de reclamações pela falta de educação, pela gritaria, por ela viver irritada e contaminar todo o ambiente.

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REQUERIMENTO TIPO PARA UTILIZAÇÃO DO NOVO AUDI A8 DA CÂMARA DE COIMBRA

Ex.mo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Dr. Manuel Machado,

_____________________ ( nome do requerente), eleitor nº ___ da freguesia de _____________ , concelho de Coimbra, vem expor e requerer a V. Exa. o seguinte:

1. Tive conhecimento através da internet que V. Exa. iria passar a dispor de um Audi A8;

2. E percebi que não se tratava de um acto de vaidade pessoal, mas uma forma de melhorar a imagem do município, pois que a viatura estará ao serviço do município e não exclusivamente do seu presidente;

3. Reflectindo sobre o assunto, lembrei-me de que o Audi do município poderá resolver-me um problema logístico que tenho em mãos;

4. No próximo dia 5 de Maio, é o casamento da minha prima Júlia (jovem médica) com o Raul (jovem engenheiro);

5. Pediu-me a minha prima que a transportasse à Igreja, ao que eu anuí;

6. Lembrei-me, depois, que o meu carro só tem duas portas o que, convenhamos, não é muito operacional para o efeito, sobretudo para entradas e saídas da noiva, já que o vestido poderá ficar agarrado e eventualmente rasgar-se;

7. Foi desta forma que me lembrei que, sendo munícipe de Coimbra, e estando o Audi ao serviço do município, seria um acto da maior justiça que eu pudesse transportar minha prima ao casamento no Audi A8;

8. Informo que entregarei o veículo devidamente lavado e com o combustível reposto;

9. Dispenso o motorista.

Face ao exposto, requeiro a V. Exa. se digne emprestar o Audi 8 para utilização deste modesto munícipe no próximo dia 5 de Maio, entre as 8h00 e as 24h00.

Coimbra, 17 de Abril de 2018

Pede deferimento,

Assinatura do Requerente
(conforme documento de identificação)

Notas:
1)Este requerimento pode ser modificado em função da necessidade de cada Munícipe mas apenas para os eleitores registados no concelho de Coimbra.

2)Este requerimento foi inspirado num efectuado em 2006 pelo meu falecido amigo, Joaquim Manuel Coutinho Ribeiro, dirigido ao presidente da Câmara Municipal do Marco de Canaveses.

Paulo Vieira da Silva

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

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Desanimado

Há certa feita recebi em meu consultório um rapaz de seus vinte anos totalmente apático. Quieto, voz abafada, sem vida, sem expressão. Talvez tédio, falta de interesse, raiva, incomodo. Como definir o redemoinho de emoções? lentidão e letargia faziam parte do ciclo deste existir. Era um jovem sem vida, sem expressão, sem futuro. “Tanto faz”, “sei lá”, “não sei” eram expressões rotineiras de seu dialeto. Confesso que na altura me senti incomodado ao ver um rapaz tão jovem mostrar-se tão apático a existência.

Nos dias de hoje não é raro encontrarmos membros da geração “danoninho” desta forma. Uma geração contraditória ávida pela tecnologia, por aplicativos e pelas redes sociais, acidamente críticos do sistema mas ao mesmo tempo apáticos para a vida. Uma geração que aparentemente nasceu cansada, fria, triste, naturalmente melancólica, com crítica de tudo e todos mas sem ação. Uma geração naturalmente castrada. Mas o que fazer com eles?

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A EDP é um estado dentro do próprio Estado…e funciona, não?

Há coisas que me chateiam.

Uma delas é a desprotecção dos consumidores ante prestadores de serviços públicos essenciais.

Hoje trago uma curiosidade de um país onde entidades privadas gozam de privilégios especiais, derrogando direitos dos “consumidores” a seu belo prazer, determinando regras de cumprimento geral e abstracto, com as quais, os poderes públicos, de regulação e fiscalização, apenas… aparentemente, escolhem “encolher os ombros”.

No meio destes, mais um, imbróglios jurídico-burocráticos, sobra o desprotegido consumidor, reduzido a esse objecto de pagamento de serviços, mesmo que adjectivados de “públicos essenciais”, sem direito a tutela, alguma, por parte da entidade reguladora respectiva. (Ler Mais…)

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