Avenida Carvalho Araújo e o PEDU

Não receio a modernidade e o “aggiornamento”. Mas quando leio títulos como o do JN – «Obra vai virar avenida central do avesso” -, com franqueza, considero ser caso para sentir algum receio do que por aí pode vir. O risco de a Avenida Carvalho Araújo ficar completamente desvirtuada, como aconteceu nas imediações do edifício dos Paços do Concelho com o Programa Polis, há dúzia e meia de anos. Desta vez, é o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano (PEDU).

Ocorreu-me esta reflexão quando me apareceram umas notas, sem que as procurasse, de uma reunião da Comissão da Assembleia Municipal que tinha a seu cargo fazer o acompanhamento do Programa Polis. Trataram-se questões da Vila Velha e do Bairro dos Ferreiros. Mas trouxeram-me à memória uma afirmação, agora também proferida, ao que parece, a respeito da zona histórica da cidade, em que se integrava a intervenção, já então prevista, na Avenida, que cito de cor: «é preciso pôr a dialogar o Palácio dos Marqueses com a Sé, ou Convento de S. Domingos». Nada a opor a esse diálogo, mesmo sabendo que a famosa janela manuelina, agora na fachada da avenida, originariamente, fora construída do outro lado do palácio.

           

               Uma experiência negativa

A respeito das obras que destruíram a Avenida, entre a Praça Conde de Amarante e a Câmara, um ilustre vila-realense segredou-me que quiseram voltar a plantar camélias nessa zona, como, noutros tempos, mas não pegaram. De facto, o que vemos por lá não abona muito a favor dos autores da ideia.

                 Voltar ao antigamente raramente é boa solução. Mas há muitos nostálgicos de um tempo passado. Também por cá. No tempo do debate do Polis não havia redes sociais. Agora há. E as manifestações de nostalgia são por aí veiculadas. Propostas muitos construtivas, também. Vale a pena estar atento. Ora, se a Avenida precisa de se abrir mais, desde logo, aos vila-realenses, pois que se faça. Tudo indica que Vila Real, aliás fundada por decisão régia, sofreu através dos tempos e naturalmente a influência do poder aristocrata e do poder religioso. Muito virados para si próprios. Mas a cidade não é só o resultado da interação dessas duas classes. Daí que seja curial perguntar: se o Palácio dos Marqueses já não é habitado e se o Convento de S. Domingos nem sequer existe, está acautelada a humanização da Avenida? Ou será que vamos torná-la ainda mais desertificada de pessoas?

                   Do arquivo de A. M. Pires Cabral

              Quando se argumenta que é preciso “dar mais espaço aos peões, aos encontros e aos eventos”, decerto que não se está a pensar numa grande praça para eventos, strictu sensu, ou para grandes concentrações. Sim, porque quando os vila-realenses quiserem reivindicar qualquer coisa não será nesse espaço que o farão para dar nota ao Presidente do Município. Será em frente aos Paços do Concelho. Nos dias que correm, nem se mostra necessário, pois o Presidente Rui Santos sabe interpretar bem os anseios do concelho e não se inibe de os tornar públicos, seja onde for. De qualquer modo, não se vê a necessidade de uma nova Ágora. Espaço para a má-língua já existe por ali; o outro, também, como se refere.

A Avenida Carvalho Araújo deve responder a novas exigências

Modernizar e actualizar o espaço às novas exigência e funcionalidades, de acordo. Diminuir a mancha verde, seja do jardim, seja das árvores, não. Trazer mais granito que, no Verão, torne a Avenida ainda mais quente, quase insuportável, também não me parece boa ideia – ainda temos uma Avenida com esplanadas – o que é de preservar e melhorar.

 

Não sou do “sim, porque sim, ou do não, porque não”. Uma intervenção tão profunda como a que se pretende levar a cabo merece debate e a participação de todos. Recordo, ainda, que, aquando do Polis, o debate só se começou a fazer quando uma pequena mobilização para o Auditório do Arquivo Distrital levou a que especialistas da UTAD se sentissem à vontade para apresentar as suas reflexões sobre as questões em apreço. Que se revelaram importantes para as intervenções que se fizeram ou deixaram por fazer. É o convite/desafio que aqui deixo. Convicto de que os objetivos apresentados pelo Vereador do Urbanismo, quando afirma que a requalificação prevista visa “a preservação do legado histórico, garantir as necessidades do presente e preparar a avenida para as tendências do futuro”, merecem esse empenho e contributo. Dos especialistas e de nós todos, que fazemos a cidade.

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