O discurso da inconsequência

Após a segunda discussão com seu marido ela pegou suas malas e foi embora de casa. Ele ficou perplexo olhando as contas de água, energia, telefone. Queria apenas sentar e fazer com sua companheira o orçamento, planejar os gastos de casa. A mulher, contrariada, dizendo que não se sujeitaria a tamanha humilhação, fez as malas e partiu. “Papai nunca me fez passar por tamanha humilhação!”, esbravejou ela.

Outra história. Ele tem 30 anos. Fez direito. Após oito anos tenta arrumar um emprego e não consegue. Tentou duas vezes a prova da OAB mas não conseguiu passar. Pudera: esteve presente em seu curso em corpo físico, de alma estava há léguas dali, pensando apenas nas mordomias que o concurso público prometia. Carros importados, casa boa, regalia de levar o paletó para trabalhar e passar as tardes no clube. Santo concurso. Fez um, dois, quarenta, e nada! ” Mamãe bancava tudo. Virou um estudante, um concurseiro profissional, a “otária” da mamãe  custeia. Troca de cursinho para concurso, passa por todos na cidade. “Mamãe paga as contas”.

Um dos agentes democráticos da vida é a busca de nosso pote mágico de ouro, o gênio da lâmpada, o sapatinho de cristal, o gorro do Saci,a mega-sena acumulada, um malote de dinheiro perdido, algo que sacie nossos desejos sem esforço, a magia da felicidade. Todo mundo quer ser feliz, do bandido na penitenciária à madame com sua bolsa mágica de quarenta mil reais. é a base de pensamento dos políticos e dos funcionários públicos improdutivos.

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O coração duro

Ela não perdoa. Coração frio, calculista. Mesmo com toda sua família pedindo para rever os fatos, pois é sua própria irmã. Implacável diante do erro alheio e generosa com os próprios defeitos. Ela não tem piedade e, compaixão é uma palavra que não existe em seu dicionário. Intolerância e raiva são comuns em seu cotidiano. Reclama que é infeliz mas não muda.
O problema da intolerância não é novo. Descrito em Isaías no antigo testamento, nos rituais da alcova de Sade, ou em Hamlet  de  William Shakespeare que diz: “impiedade  é a dor dos fracos”…covardia não é rara visto que tal tipo não encara de frente um problema. Aqui é o ponto em que o racionalismo é evidente. Pessoas de coração duro são extremamente racionais tendo justificativa para quase tudo, até para seu sofrimento.

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Escravidão

Pós modernidade à mesa. Um dos paradigmas mais impressionantes de nossa atualidade esta na ruptura dos processos de humanização e qualidade de vida. O modelo neo liberal de produtividade contra o de tempo. O retorno de um modelo administrativo Taylorísta aliado a psicose de nossos dias, megalomania e onipotência em um delírio, querer sucesso, status, alta produtividade e performance a qualquer preço. Pós modernidade é demarcada pelo retorno da escravidão em jornadas de trabalho desumanas de mais de 60 horas de trabalho semanais , na ideologia neo liberal de homens máquina que jamais se cansam e que são capazes de produzir 20 horas diárias, dormir 4 horas entre um emprego e outro e caso não consiga tal produção ganham a humilhação, chibatas, desemprego e o banimento social como incapazes, improdutivos ou inábeis. O estado, recursos humanos e o delírio megalomaníaco que jamais planeja delimitou este cenário no mercado de consumo e a crise vindoura engendra hoje uma alta ansiedade social por uma vivencia produtivista que diariamente é confrontada com nossa incapacidade e limitações. O paradigma do tempo de Kant dá vazão ao tempo do delírio e absurdo, o tempo do realismo deixado de lado na ruptura do tempo do delírio.

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Rigidez

Foi a uma visita que tive a Portugal ao encontrar com colegas de adolescência que me deparei com um processo psicológico que em muito me chamou a atenção, distante mas familiar. Após 20 anos de um encontro a outro, ao rever pessoas conhecidas as percebi no mesmo pedaço de tempo e espaço. Preso as margens do rio em Manoel de Barros.  O conhecido que na altura atuava em um pequeno estabelecimento de calçados ali continuava da mesma maneira, firme e forte. Fato do destino, tragédia, acomodação, má sorte?   Estar congelado no tempo e no espaço, do mesmo jeito após 20 anos…de um lado a vivencia da tradição, o negócio de família, do outro certa conformidade incomoda…o que foi que mudou? O livre arbítrio  estado do ser mineral em Giovanni Pico della Mirandola?

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O ódio e a prisão

Um jantar. Coletividade, exposição pública, oportunidade para denegrir terceiros. A visão: no coro da despeitada, vocifera o ódio a seu ex-marido. Em quatro horas no jantar de “confraternização” no restaurante, três foram destinadas à exposição de seu ex-amor: “Canalha”, “bandido”, “lhe dei os melhores anos de minha juventude”, “vagabundo”, “vivia fazendo falcatruas”, “só quis me usar para projeção social”, “adorava usar meus vestidos e calcinha”. Durante o jantar, quando um indivíduo se cansava de ouvir a ladainha, ela escolhia outro, depois outro, mais outro até que, ao final, juntam-se outros dois na odisséia das lamentações. Ao imaginar o fundo musical adequado ouça “Vingativa”, das Frenéticas, ou “Eu não sou cachorro não”, de Waldick Soriano.

O amor travestiu-se de ódio e a regra é o despeito. Vingança, necessidade de destruir o passado, mesmo que nesta empreita o indivíduo não perceba às claras que ele se destrói. Se destrói por ficar escravo do amor que se travestiu de ódio. Este é o despeito, que torna infelizes seres outrora desagradável convívio. Belicosidade, raiva e necessidade de acabar com quem conviveu na fofoca e maledicência. Existem despeitados na área afetiva, na vida acadêmica, em relacionamentos profissionais em todos segmentos da existência.

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Simplicidade

Banho de chuva no calor, picolé na praça, banco de jardim, boa música,andar descalço, sonho de valsa ou prestígio, um solo de guitarra de BBKing, uma soneca após o almoço, dormir abraçadinho com o bem, uma gargalhada de criança, contemplar o trabalho de  formigas executando sua mais nova empreita em meu jardim.

Café quentinho, respirar ar puro, fugir do trânsito, sentir o cheiro da terra molhada e a alegria dos papagaios gritando de manhã cedo. Ter calma apesar da agonia alheia e não se estressar. Assistir a uma boa comédia ou um divino desenho de Pernalonga ou Pica-pau. 

Aprendi o que era a simplicidade com as crianças e com os matutos com quem convivi, gente muito simples, muitos que em nossa concepção urbana , pessoas desvalorizadas , ou invisíveis,  mas com profundo saber para as coisas da natureza. Ficaria aqui meses listando coisas simples que aprendi a curtir na vida. E você curte coisas simples e se permite as viver?

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A montanha russa e o transtorno bipolar

A subida é lenta. No alto, uma paradinha para curtir o clima e a vista. Os segundos roubam da eternidade um suspiro. O coração vem à boca naquilo que desconhecemos, mas, sabemos, está por vir. E do alto ao nada, o ínfimo. No carro da vida, a emoção esperneia nos solavancos. Da montanha ao abismo, queda livre. O fio da existência se exprime no grito, a única voz sensata.  Sobrenome: desespero.

O transtorno bipolar é assim. Uma doença mental, das mais graves. Um quadro cheio de altos e baixos com profundas alterações do humor em que o paciente oscila entre períodos de uma elevação patológica do humor e aumento da energia e atividade (mania)- apresentando euforia, onipotência, sentindo-se  ilimitado,  perdendo noção de responsabilidade e de sua própria consciência, entrando por vezes nas psicoses(delírios). Cito como um exemplo uma paciente que atendi, que tinha sonhos megalomaníacos. Era bailarina e em seus delírios imaginava-se sendo reconhecida como a melhor do mundo, passando a viver como tal.

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Pesadelos

“Sonhei que estava sendo perseguida por um bandido. Eu corria e tentava fugir. Ele já havia matado meu namorado, minha mãe e dois policiais. Eu corria, e ele atrás de mim. Estava nu e queria abusar de mim. Acordei assustada, gritando, suada, querendo chorar”. S, 24 Anos

“Sonhei que estava no alto de um edifício limpando uma janela, quando bateu um forte vento e então caí. Até agora a sensação de queda me dá calafrio, agonia, fico agitada, nervosa. Antes de bater no chão, acordei. Neste dia de manhã não consegui ir para o trabalho, fiquei trêmula, tensa, agoniada, o ar não cabia no peito”. P, 27 anos

“Sonhei que um bandido que foi morto na porta da minha casa pela polícia (no sonho, ele não estava morto) havia pulado o muro e, com um facão, dizia que ia se vingar. Peguei minha cartucheira e descarreguei no bandido, e ele não morria. Quanto mais eu atirava nele, mais ele ria de mim. Acordei agoniado, tenso, e assim que acordei fui ver se não tinha nada deestranho lá fora”. A, 32 anos

Os pesadelos ou sonhos de angústia são considerados  sonhos importantes  em um processo de psicoterapia  / análise por evidenciarem os conflitos do inconsciente. Normalmente ocorrem em períodos de vida conturbado, de transformações e mudanças sendo repetitivos aparecendo em várias noites consecutivas.

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